terça-feira, 24 de novembro de 2015

PRESIDENTE DA REPÚBLICA, NÃO!... (glosa sobre o poema de Ary dos Santos intitulado “Poeta Castrado, Não!”)


Chamem-lhe o que quiserem,
por justiça ou rejeição:
cabeçudo, dromedário,
fantoche de eleição,
parvónio, salafrário,
mestre-escola aldrabão,
oportunista, falsário
malabarista, cabrão.
Chamem-lhe o que quiserem:
Presidente da República, não!...

Os que sabem, como ele,
as linhas com que se cose
vêem o interesse dele em manter a sua pose:
egoísta, trambiqueiro
distorce a realidade,
ao escrever cada “Roteiro”,
para ter visibilidade!...

Os que sabem, como ele,
governar-se e encher a pança
aceitam que seja dele
tanta sede de vingança:
Político vingativo e que,
disso, não se cansa,
não quer saber do aflitivo caos
da actual governança!...

O tipo não faz história.
- Sua morte lenta é fatal!...

Irá ficar na memória
como um mesquinho banal!...

O seu fim poderá ser uma penosa agonia!...

O Povo irá fazer dele escárnio, em cada dia!...

Vai acabar por morrer,
ao parir a ninharia só descrita,
a bem dizer,
nos “Roteiros” da fantasia!...

Chamem-lhe o que quiserem,
por justiça ou rejeição:
Chamem-no até p’lo nome,
Cavaco, sem coração,
ao ver que se passa fome
e nada faz p’la Nação!...

Chamem-lhe o que quiserem,
por justiça ou rejeição:
Demagogo, mau profeta,
falso professor, ladrão,
um narcisista pateta,
quando calado ou não.
Será tudo o que disserem!...

PRESIDENTE DA REPÚBLICA É QUE NÃO!...

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Diferenças: Anos 60 - Anos 2000

Férias.

Anos 1960:
Depois de passar 15 dias com a família atrelada numa caravana puxada por um Fiat 600 pela costa de Portugal, ou passar esses 15 dias na praia do Castelo do Queijo, terminam as férias. No dia seguinte vai-se trabalhar e os miúdos para as aulas.

Ano
s 2000:
Depois de voltar de Cancún de uma viagem com tudo pago, terminam
 as férias. As pessoas sofrem de distúrbios de sono, depressão, seborreia e caganeira.
Situação: Chega o dia de mudança de horário de Verão para Inverno.

Anos 1960:
Não se passa nada.

Ano
s 2000:
As pessoas sofrem de distúrbios de sono, depressão e caganeira.


Situação: O Pedro está a pensar ir até à mata depois das aulas, Assim que entra no colégio mostra uma navalha ao João, com a qual espera poder cortar uns ramos e fazer uma fisga.

Anos 1960:
O professor vê, pergunta-lhe onde se vendem daquelas navalhas, e mostra-lhe a
 sua, que é mais antiga, mas que também é boa.

Ano
s 2000:
A escola é encerrada, chamam a Polícia Judiciária e levam o Pedro
 para um reformatório. A SIC e a TVI apresentam os telejornais desde a porta da escola.

Situação: O Carlos e o Quim trocam uns socos no fim das aulas.

Anos 1960:
Os companheiros animam a luta, puxam por eles, e o Carlos ganha. Apertam as mãos e
 acabam por ir juntos jogar matrecos.

Ano
s 2000:
A escola é encerrada. A SIC proclama o mês anti-violência escolar.
 O Jornal de Notícias faz uma capa inteira dedicada ao tema, e a TVI insiste em colocar uma equipe de reportagem à porta da escola a apresentar o telejornal, mesmo debaixo de chuva.

Situação: O Jaime não pára quieto nas aulas, interrompe e incomoda os colegas.

Anos 1960:
Mandam o Jaime falar com o Director, e este dá-lhe uma bronca
 de todo o tamanho. O Jaime volta à aula, senta-se em silêncio e não interrompe mais.

Ano
s 2000:
Administram ao Jaime umas valentes doses de Ritalin. O Jaime
 parece um zombie. A escola recebe um apoio financeiro por terem um aluno incapacitado.

Situação: O Luis parte o vidro dum carro do bairro dele. O pai caça um cinto e espeta-lhe umas chicotadas com este.

Anos 1960:
O Luis tem mais cuidado da próxima vez. Cresce normalmente, vai à
 universidade e converte-se num homem de negócios bem-sucedido.

Anos 2000:
Prendem o pai do Luís por maus-tratos a menores. Sem a figura
 paterna, o Luís junta-se a um gang de rua. Os psicólogos convencem a sua irmã que o pai abusava dela e metem-no na cadeia para sempre. A mãe do Luís começa a namorar com o psicólogo. O programa da Fátima Lopes mantém durante meses o caso em estudo, bem como o Você na TV do Manuel Luís Goucha.

Situação: O Zezinho cai enquanto praticava atletismo, arranha um joelho. A professora encontra-o sentado na berma da pista a chorar  e abraça-o para o consolar.

Anos 1960:
Passado pouco tempo, o Zezinho sente-se melhor e continua a correr.


Anos 2000:
A professora é acusada de perversão de menores e vai para o desemprego.
 Confronta-se com 3 anos de prisão. O Zezinho passa 5 anos de terapia em terapia. Os seus pais processam a escola por negligência e a professora por trauma emocional, ganhando ambos os processos.
A professora, no desemprego e cheia
 de dívidas, suicida-se atirando-se de um prédio. Ao aterrar, cai em cima de um carro, mas antes ainda parte com o corpo uma varanda. O dono do carro e do apartamento processam os familiares da professora por destruição de propriedade. Ganham. A SIC e a TVI produzem um filme baseado neste caso.

Situação: Um menino branco e um menino negro andam à batatada por um ter chamado 'chocolate' ao outro.

Anos 1960:
Depois de uns socos de parte a parte, levantam-se e vai cada um para sua casa.
 Amanhã são amigos.

Anos 2000:
A TVI envia os seus melhores correspondentes. A SIC prepara uma
 grande reportagem dessas com investigadores que passaram dias no colégio a averiguar factos. Emitem-se programas documentários sobre jovens problemáticos e ódio racial. A juventude skinhead finge revoltar-se a respeito disto. O governo oferece um apartamento à família do miúdo negro.

Situação: Fazias uma asneira na sala de aula.

Anos 1960:
O professor espetava-te duas valentes lambadas bem merecidas. Ao chegar a casa o teu pai dava-te mais duas porque 'alguma deves ter feito'

Ano
s 2000:
Fazes uma asneira. O professor pede-te desculpa. O teu pai pede-te
 desculpa e compra-te uma Playstation 3.
 É a vida J

Tango - Genial . . . um espectáculo de humor e criatividade !

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A cor do meu batuque
Tem o toque, tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão

O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha cor
Vermelho!


You say you don't want me you say you don't care
You say that your heart ain't got no room for me there
You say you don't need me
But I know that it's just a lie

'Cause you call me in the night
Tellin' me your life is better off without me
How come you're sleepin' all alone
Tellin' me you don't ever think about me

Hey you're givin' yourself away
It's there in every move you make
You can't hide your heartache away

Hey it's something you don't have to say
It's written in the tears on your face
I see through the part that you play
You're givin' yourself away

So you got all your freedom and you got all your time
So you got the illusion that you're doin' fine
So you smile in the mirror
Through the sadness your smile can't disguise

Why don't you come right out and say
"Baby you can't take another day without me?"
You know I'm runnin' through your blood
You need me like a drug and you can't live without me

Hey you're givin' yourself away
It's there in every move you make
You can't hide your heartache away

Hey it's something you don't have to say
It's written in the tears on your face
I see through the part that you play
You're givin' yourself away, you're giving yourself away

It doesn't matter what you say
You're givin' yourself away

And when you call me in the night
Tellin' me your life is better off without me
I know that you're lyin' there alone
Baby 'cause I know, you can't live without me

Hey you're givin' yourself away
It's there in every move you make
You can't hide your heartache away

Hey it's something you don't have to say
It's written in the tears on your face
I see through the part that you play
You're givin' yourself away, you're giving yourself away

It doesn't matter what you say
You're givin' yourself away

Hey it's something you don't have to say
It's written in the tears on your face
I see through the part that you play

Hey you're givin' yourself away...

https://www.youtube.com/watch?v=PlBPy...

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Carta dirigida pelo Dr. Frederico de Moura, Médico e Historiador de Vagos, ao Dr. Nogueira de Lemos, Médico Cirurgião de Aveiro


Meu caro Lemos,

É coisa axiomática que o pénis não obedece a freio; e é coisa de esperar que, a natureza o tenha dado a animal que lhe não obedece. Mas como a esta estuporada profissão que exercemos só aparecem anormalidades, aberrações e coisas em desacordo com a natureza, surgiu-me hoje no consultório esse rapazinho que lhe envio, com um freio de tal dureza e de tal conformação que o insubmisso pénis, tradicionalmente indomável, não teve outro remédio senão ceder. Calcule os mistérios e os paradoxos desta ladina natureza! Esse moço, na casa dos 20 anos com uns corpos cavernosos que devem estar isentos de qualquer esclerose ou de qualquer obstrução, e concerteza dispondo de uma libido afinada capaz de lhe fazer sair, erecto, o próprio umbigo, resolve ir para o casamento com os seus (dele) três vinténs e confirma, então a suspeita que já tinha, de que no auge da metálica erecção, o pénis fica em crossa como o báculo de um bispo, por incapacidade de vencer a brevidade e a dureza do freio que lho verga para a terra. Calculará o meu prezado Lemos, as acrobacias de alcova que este desgraçado terá de realizar para conseguir a penetração de um membro viril, quase tão torto como uma ferradura, na vagina suplicante da consorte. De modo que o rapazinho veio pedir-me socorro, e eu condoído peço-lhe a sua colaboração em favor da harmonia conjugal, com a certeza de que por isso ninguém nos irá acoimar de chegadores. Condoa-se a cirurgia de braço dado com a medicina que, por intermédio deste fraco servidor que eu sou, já se condoeu e endireitemos o pénis torto (e nada de confusões, que não é mole pelo que me afirma o proprietário). Lembremo-nos, sobretudo, ao praticarmos esta obra, que vem aí um tempo em que um pénis destes, mesmo em arco ou em forma de saca-rolhas, nos faria um jeitão, e ajudemos o pobre rapaz que se compromete comigo a fazer bom uso dele, emprenhando a mulher da primeira vez que o usar, depois da operação ortomórfica que o meu amigo lhe vai fazer sem sombra de dúvida. Desculpe mandar-lhe desta vez uma tarefa fálica! Ouvi uma mulher um dia dizer que um Phallus é um excelente amuleto e que dá sorte verdadeira. Se quiser tirar a prova não tem mais que endireitá-lo... e jogar a seguir na lotaria. Desculpe, pois, a remessa de bicho tão metediço que eu por mim prometo, logo que possa, e em compensação, mandar-lhe uma vulva virgem e nacarada como uma concha de madrepérola.

Um abraço do seu amigo certo
Frederico de Moura

P.S. – Como a minha letra é muito má segundo a sua opinião, e como o assunto desta carta é muito importante para duas pessoas, uma das quais do sexo fraco, entendi do meu dever dactilografá-la. Assim, não haverá nenhuma razão para que o meu amigo dizer que não entendeu o que eu queria e, por partida, deixar o aparelho na mesma ou pior ao rapaz.
Quero ainda dizer-lhe que para sua compensação, tenciono depois do êxito que o seu ferro cirúrgico vai alcançar, comunicar o seu nome à mulher beneficiada que, por certo, lhe ficará eternamente grata, ficando sempre com a sua pessoa presente na memória nos momentos – e oxalá que sejam muitos! – em que se sentir penetrada por um pénis que só o meu Amigo conseguiu endireitar. E nem sei se o Estado virá louvar a sua acção, se lhe for dado conhecimento que os filhos que saírem daquele casal são devidos em grande parte (não ao seu pénis) mas, sem dúvida, à sua mão.
E filhos com a mão nem toda a gente se poderá gabar de os fazer!

Creia-me seu afeiçoado,
Frederico

27/3/1958

domingo, 25 de outubro de 2015

A Boneca



PARA ONDE VAI O AMOR QUE SE PERDE?

Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular.
Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando porque havia perdido sua boneca.
Kafka ofereceu ajuda para procurar pela boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar.
Incapaz de encontrar a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu para a garotinha quando se encontraram. “Por favor, não chore por mim, parti numa viagem para ver o mundo. ”.
Esta foi a primeira de muitas cartas que, durante três semanas, Kafka entregou pontualmente à menina, narrando as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo : Londres, Paris, Madagascar…
Tudo para que a menina esquecesse a grande tristeza!
No fim, Kafka presenteou a menina com uma outra boneca.
Ela era obviamente diferente da boneca original.
Uma carta anexa explicava: “minhas viagens me transformaram…”.

Anos depois, a garota agora crescida encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta.
Em resumo, o bilhete dizia: “Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”.

Pedro Barroso , um resistente e , para mim , o grande trovador da actualidade

Todos os dias "Deus"(?) nos presenteia com o melhor.. E o melhor não está nas grandes coisas da vida. O melhor está na troca das simples alegrias. Está em tudo o que nos faz bem, em tudo o que nos faz feliz.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O LOUCO

NO JARDIM dum manicómio
encontrei um rapaz
de rosto pálido e belo ,
cheio de espanto .

Sentei-me a seu lado
no banco e perguntei-lhe :
— Porque estás aqui ?

Olhou-me assombrado
e disse :
— É uma pergunta indiscreta ,
mas vou responder .

Meu pai queria executar em mim
uma reprodução de si próprio
e o mesmo quis fazer o meu tio .

Minha mãe queria converter-me
na imagem de seu ilustre pai .

Minha irmã fazia
do navegador seu esposo
o exemplo perfeito
que eu devia seguir .

Meu irmão pensava
que eu devia ser como ele ,
um excelente atleta .

Por sua vez os meus professores ,
o doutor em Filosofia ,
o mestre de Música ,
o de Lógica ,
estavam resolvidos ,
cada um deles ,
a que eu fosse apenas
o reflexo do seu rosto no espelho .

Foi assim que vim parar a este lugar .

Acho-o , aliás , mais cordato .

Pelo menos , aqui ,
posso ser eu próprio .

Depois , subitamente ,
voltou-se para mim e perguntou :
— Mas diz-me lá ,
também te trouxeram a este lugar
a educação e o bom conselho ?

— Não , respondi .
Eu sou um visitante .

Então ele disse-me :
— Ah ! Tu és um daqueles
que vivem no manicómio ,
do outro lado do muro .

— Khalil Gibran —

domingo, 4 de outubro de 2015

DECLARAÇÃO de . . . "NÃO VOTO"


Depois deste triste espectáculo , tão lamentável quanto degradante , de actos "libidino- masturbatórios" , públicos e publicitados , que foi a campanha eleitoral e que culminará com os mais variados orgasmos . . .

eu , que sou louco , decidi e declaro que :
(atendendo a que aceitaram as regras do jogo . . .)

- os perdedores , deverão calar-se , amargar e arcar com a azia da derrota (o Kompensan . . . o Vingel e outros , aliviam ! . . .) e esperar quatro anitos , até às próximas eleições , quem sabe . . . terão mais sorte . . .

- os ganhadores continuem a fazer aquilo que melhor fazem . . . (des)governar , governando-se . . .

eu e os outros , que não aceitamos e jamais aceitaremos as regras deste vosso jogo imundo e viciado , continuaremos a "refilar"com toda a legitimidade que nos assiste e a pugnar por uma mudança das regras , mas sempre com uma réstia de esperança de que um dia voltaremos a frequentar uma mesa de voto , cumprindo sim o nosso dever , mas numa Democracia de Verdade . . .

Até lá . . . tudo o que esperamos é que este regime político , esta democracia de treta . . . IMPLUDA de vez !

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Estrumeira Imunda . . .

   Hoje , ao contrário do que vem sendo habitual nos últimos tempos , acordei com uma vontade enorme de me declarar vivo e de ir buscar forças , onde parece já não existirem , para enfrentar , de "peito aberto" , a . . . corja !
   Crise de refugiados . . . de desemprego . . . de ensino . . . de saúde . . . de valores . . . já não tenho pachorra para tanta "crise" ! A única e verdadeira crise , que consigo descortinar , e bem profunda , é a da inteligência e do bom senso , nestes "seres" arrogantes e auto-proclamados de (únicos) animais racionais .
   Sinto nojo e um desprezo muito grande mesmo , por todos esses projectos de gente , que tomaram de assalto e se apoderaram dos mais variados lugares de decisão , neste mundo que é de todos nós e onde , todos , poderíamos e deveríamos viver em perfeita harmonia . Utopia ? Claro que sim , pelo menos de momento , mas tão desejável quanto realizável , assim fosse a vontade de todos . . .

domingo, 20 de setembro de 2015

De onde vêm tantos refugiados? POR PATRICK COCKBURN





Nove guerras civis simultâneas devastam mundo islâmico. Há algo comum entre elas: a destruição dos Estados nacionais árabes e o estímulo ao ultra-fundamentalismo, promovidos por EUA e seus aliados

Por Patrick Cockburn | Tradução: Inês Castilho

São tempos de violência no Oriente Médio e Norte da África, com nove guerras civis acontecendo em países islâmicos, situados entre o Paquistão e a Nigéria. É por isso que há tantos refugiados tentando escapar para salvar suas vidas. Metade da população de 23 milhões da Siria foi expulsa de suas casas; quatro milhões transformaram-se em refugiados em outros países.

Cerca de 2,6 milhões de iraquianos foram deslocados pelas ofensivas do Estado Islâmico, o Isis, no último ano, e se espremem em tendas ou edifícios inacabados. Invisíveis para o mundo, cerca de 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas no sul do Sudão, desde que os combates recomeçaram por lá, no final de 2013.

Outras partes do mundo, notadamente o sudeste da Ásia, tornaram-se mais pacíficas nos últimos 50 anos, mas na grande faixa de terra entre as montanhas Hindu Kush e o lado ocidental do Saara, conflitos religiosos, étnicos e separatistas estão destroçando os países. Em toda parte há Estados em colapso, enfraquecidos ou sob ataque; e em muitos desses lugares, as insurgências islâmicas radicais sunitas, em ascensão, usam o terror contra civis para provocar fuga em massa.

Outra característica dessas guerras é que nenhuma delas parece estar próxima do fim, de modo que as pessoas possam voltar para suas casas. A maioria dos refugiados sírios que fugiram para a Turquia, Líbano e Jordânia em 2011 e 2012 acreditava que a guerra acabaria em pouco tempo e elas poderiam voltar. Só perceberam nos últimos dois anos que isso não vai acontecer e que precisam buscar refúgio permanente em outro lugar. A própria duração destas guerras significa uma destruição imensa e irreversível de todos os meios de se ganhar a vida, de modo que os refugiados, que a princípio buscavam apenas segurança, são também movidos por necessidade.



Guerras estão sendo travadas atualmente no Afeganistão, Iraque, Síria, Sudeste da Turquia, Iêmen, Líbia, Somália, Sudão e Nordeste da Nigéria. Algumas começaram há muito tempo, a exemplo da Somália, onde o Estado entrou em colapso em 1991 e nunca foi reconstruído, com senhores da guerra, jihadistas radicais, partidos rivais e soldados estrangeiros controlando diferentes partes do país. Mas a maioria desses conflitos começou após 2001, e muitos depois de 2011. A guerra civil total no Iêmen só começou no ano passado, enquanto a guerra civil turco-curda, que matou 40 mil pessoas desde 1984, recomeçou em julho com ataques aéreos e de guerrilha. É rápida a escalada: um caminhão carregado de soldados turcos foi explodido há poucas semanas por guerrilheiros do PKK curdo.

Quando a Somália caiu, num processo que os EUA tentaram reverter em uma tentativa fracassada de inteverção militar, entre 1992-1994, parecia ser um evento marginal, insignificante para o resto do mundo. O país tornou-se um “Estado fracassado”, frase usada para exprimir pena ou desprezo, à medida em que ele se tornava o paraíso dos piratas, sequestradores e terroristas da Al-Qaeda. Mas o resto do mundo deveria olhar para esses Estados fracassados com medo, além de desprezo, porque foi nesses lugares – Afeganistão nos anos de 1990 e Iraque desde 2003 – que foram incubados movimentos como o Talibã, o Al-Qaeda e o Isis. Os três combinam crença religiosa fanática e conhecimento militar. A Somália pareceu um dia ser um caso excepcional, mas a “somalização” mostrou-se destino de uma série de países — notadamente Líbia, Iraque e Síria — onde até recentemente as pessoas tinham acesso a comida, educação e saúde.

Todas as guerras são perigosas, e as guerras civis sempre se notabilizaram pela impiedade, sendo as religiosas, as piores. É o que está acontecendo agora no Oriente Médio e Norte da África, com o Isis – e clones da Al-Qaeda como Jabhat al-Nusra ou Ahrar al-Sham na Síria. Assassinam ritualmente seus opositores e justificam suas ações alegando o bombardeio indiscriminado de áreas civis pelo governo de Assad.

O que é um pouco diferente nessas guerras é que o Isis faz publicidade deliberada das atrocidades que comete contra xiitas, yazidis ou qualquer outra pessoa que considere seu inimigo. Isso significa que as pessoas apanhadas nesses conflitos, particularmente desde a declaração do Estado Islâmico, em junho do ano passado, sofrem uma carga extra de medo, o que torna mais provável que fujam para não voltar. Isso é verdade tanto para professores da Universidade de Mosul, no Iraque, quanto para moradores dos vilarejos da Nigéria, Camarões ou Mali. Não por acaso, os avanços do Isis no Iraque têm produzido grandes ondas de refugiados , os quais têm uma perfeita ideia do que acontecerá a eles se não fugirem.


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No Iraque e na Siria, estamos de volta a um período de drástica mudança demográfica, jamais vista na região desde que os palestinos foram expulsos ou forçados a fugir pelos israelenses em 1948, ou quando os cristãos foram exterminados ou empurrados para fora do que hoje é a Turquia, na década que se seguiu a 1914. As sociedades multiconfessionais do Iraque e da Síria estão se esfacelando, com consequências terríveis. Potências estrangeiras não sabiam ou não se importavam com os demônios sectários que estavam liberando, nesses países, ao quebrar o velho status quo.

O ex-conselheiro de Segurança Nacional do Iraque, Mowaffaq al-Rubaie, costuma dizer aos líderes políticos norte-americanos, que levianamente sugeriram que os problemas coletivos do Iraque poderiam ser resolvidos dividindo o país entre sunitas, xiitas e curdos, que eles deviam compreender como seria sangrento esse processo, provocando inevitavelmente massacres e fuga em massa “semelhantes aos da partilha da Índia em 1947 “.

Por que razão tantos desses Estados estão caindo aos pedaços e gerando essas ondas de refugiados? Que falhas internas ou insustentáveis pressões externas têm em comum? A maioria conquistou autodeterminação quando as potências imperiais se retiraram, depois da Segunda Guerra Mundial. No final dos anos 1960 e início dos 1970, foram governados por líderes militares que dirigiam Estados policiais e justificavam seus monopólios de poder e riqueza alegando que eram necessários para estabelecer a ordem pública, modernizar seus países, assumir o controle dos recursos naturais e resistir às pressões separatistas sectárias e étnicas.

Eram geralmente regimes nacionalistas e com frequência socialistas, cuja perspectiva era esmagadoramente secular. Por essas justificativas para o autoritarismo serem geralmente hipócritas e auto-interessadas; por mascararem a corrupção generalizada da elite dominante, frequentmente se esquecia que países como o Iraque, a Síria e a Líbia tinham governos centrais muito poderosos por alguma razão – e se desintegrariam sem eles.

São esses regimes que vêm enfraquecendo e estão entrando em colapso em todo o Oriente Médio e Norte da África. Nacionalismo e socialismo não oferecem mais o cimento ideológico para manter juntos Estados seculares ou para motivar as pessoas para lutar por eles até a última bala — ao contrário do que fazem os que creem, em relação ao islamismo sunita de tipo fanático e violento incorporado pelo Isis, Jahat AL-Nusra e Ahrar AL-Sham. As autoridades iraquianas admitem que uma das razões por que o exército de seu país desintegrou-se em 20014 e nunca foi reconstituído com êxito é que “muito poucos iraquianos estão dispostos a morrer pelo Iraque.”

Grupos sectários como o Isis cometem deliberadamente atrocidades contra os xiitas, sabendo que isso irá provocar retaliação contra os sunitas — o que os deixará sem alternativa senão ver no Isis seus defensores. Fomentar o ódio comunal trabalha a favor do Isis, e está contaminando as comunidades, umas contra as outras, como no Iêmen, onde anteriormente havia pouca consciência da divisão sectária, embora um terço de sua população de 25 milhões pertencessem à seita xiita Zaydi.

A probabilidade de fugas em massa torna-se ainda maior. No início deste ano, quando houve rumores de um ataque do exército iraquiano e de milícias xiitas, para recapturar a cidade de Mosul, esmagadoramente sunita, a Organização Mundial de Saúde e o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) começaram a estocar comida para alimentar um milhão de pessoas a mais, que calcularam em fuga.

Os europeus foram sacudidos pelas fotos do pequeno corpo inerte de Alyan Kurdi numa praia na Turquia e por sírios quase mortos de fome amontoados em comboios húngaros. Mas no Oriente Médio, a nova diáspora miserável dos impotentes e despossuídos é evidente há três ou quatro anos. Em maio, eu estava prestes a cruzar o rio Tigre entre a Síria e o Iraque, num barco com uma mulher curda e sua família, quando ela e seus filhos foram colocados pra fora por causa de uma letra errada em um nome, em seus documentos.

“Mas estou há três dias com minha família na beira do rio!”, ela gritou desesperada. Eu estava indo para Erbil, a capital curda, que até um ano atrás aspirava ser “a nova Dubai”, mas agora está cheia de refugiados amontoados em hotéis inacabados, shoppings e quarteirões de luxo.

O que precisa ser feito para deter tais horrores? Talvez a primeira pergunta seja como evitar que fiquem piores, recordando que cinco das nove guerras começaram a partir de 2011. A presente crise dos refugiados na Europa é muito mais o impacto real, sentido pela primeira vez, do conflito na Siria sobre o continente. É verdade: o vácuo de segurança da Líbia significou que o país é agora o canal de fuga, para as pessoas dos países empobrecidos e atingidos pela guerra às margens do Saara. É pela costa libia, de 1,8 mil quilêmetros, que 114 mil refugiados passaram até agora, este ano, em direção à Italia, sem contar os vários milhares que se afogaram pelo caminho. Ainda assim, embora tão ruim, a situação não é muito diferente da do ano passado, quando 112 mil fizeram essa rota para a Itália.

Bem diferente é a guerra na Síria e no Iraque, onde saltou de 45 mil para 239 mil, no mesmo período, o número de pessoas que tentam alcançar a Grécia pelo mar. Por três décadas o Afeganistão produziu o maior número de refugiados, de acordo com a Acnur. Mas no ano passado, a Siria tomou seu lugar, e um em cada quatro novos refugiados, um agora é sírio. Uma sociedade inteira foi destruída, e o mundo fez muito pouco para deter esses acontecimentos. Apesar de uma recente onda de atividade diplomática, nenhum dos muitos atores na crise síria mostra urgência na tentativa de acabar com eles.

A Síria e o Iraque estão no centro das crises atuais de refugiados também de uma outra maneira. É lá que o Isis e grupos tipo al-Qaeda controlam parte significava do território e conseguem espalhar seu veneno sectário para o resto do mundo islâmico. Eles revigoram as gangues de matadores que operam mais ou menos do mesmo modo — estejam na Nigéria, no Paquistão, no Iêmen ou na Síria.

A fuga em massa de pessoas vai continuar enquanto a guerra na Síria e no Iraque continuarem.

Medo dos refugiados? Tenho é medo de idiotas.


September 10, 2015



A ignorância nem sempre é uma bênção. A ignorância misturada com uma boa dose de medo face ao estranho, facilmente se torna e desemboca num ódio pouco fundamentado mas fundamentalista que tantas vezes ao longo da história deu, e passando a expressão, em “merda”.

E esse ódio que por aí vejo, que por aí se sente e que por aí se tem levantado leva-me hoje a escrever sobre a onda de migração para a europa resultante de conflitos bélicos que de uma ou de outra forma estamos todos a par. Esta obrigação ou sentimento de obrigação de partilhar o meu ponto de vista, resulta, não só do meu interesse geral nos problemas sócio e geopolíticos que se apresentam contemporaneamente e do meu gosto para discutir e partilhar visões mas sobretudo, desta vez, pela vergonha que senti ou que sinto em ser parte da humanidade.

Não obstante, e acabado este género de prólogo, a minha opinião sobre o tema, e fácil será de perceber que está muito longe de ser a mesma de aqueles que com quem infelizmente partilho um código genético suficientemente semelhante para me encontrar agrupado na mesma espécie, é resumida a uma frase: A Europa e o mundo ocidental tem uma obrigação moral e civilizacional para abrir as fronteiras e ajudar em todas as vertentes todos, e sem exceção, refugiados de guerra de todos os países que se encontrem sobre contingências bélicas. Esta obrigação resulta por um lado da responsabilidade humanística da questão e por outro da própria interferência do ocidente nestes cenários de guerra e até por questões históricas de ingerência política e estrutural de todo o continente africano e médio oriente.

O ato de abrigar todos os homens, mulheres e crianças que fogem a um conflito armado deveria ser argumento único para uma sociedade ficar satisfeita de estar na vanguarda da defesa da humanidade no geral e em particular na defesa dos oprimidos e mais desfavorecidos. Mas não o é e não o sendo vemo-nos todos, todos os humanistas, a ter de descer a um nível na escada da evolução para explicar a ignorantes, fascistas, racistas, xenófobos, intolerantes, cristãos radicais entre outros, a necessidade de fazer valer sempre a maior de todas as virtudes que é a defesa intransigente da vida humana. E que da mesma forma que nós os democratas e humanistas temos de ser tolerantes perante a idiotice crónica, eles também o vão ter de ser com os refugiados acolhidos porque assim nós o exigimos. Caso contrário, a justiça deve ser implacável com qualquer movimento extremista e qualquer tipo de ofensa gratuita, verbal ou física a quem aqui vem tentar refazer a vida.

Na generalidade todas as forças e instituições de esquerda, onde eu próprio milito ativamente têm cumprido o seu papel na defesa desta causa, mas congratulo-me ainda por ver responsáveis por entidades com as quais não me identifico como a Igreja Católica através do seu papa ou a Alemanha de Angela Merkel a tomarem posições firmes na defesa aos refugiados. Nem tudo é e chega a ser tão mau e assim se restaura um pouco a fé na humanidade.

Mas tudo o resto volta a fazer com que chegue a ter vergonha de ser humano e não fossem as opiniões e argumentos que leio tão graves que pensaria que se trataria de um qualquer fraco sketch de humor. E de facto só a falta de perspicácia ou inteligência pode justificar certos argumentos que se tornam fatalmente irónicos e que acabam por fazer escárnio dos próprios autores. Argumentos do revivalismo fascista a apelar a um sebastianismo de Salazar ou Hitler para defender uma pátria livre sem multiculturalismo, percebem a ironia? Talvez não porque muitos dos que proferem eventualmente não estariam dentro dos padrões étnicos e raciais requisitados sobretudo por Hitler ou fariam parte da vaga migrante que saiu do país com o Salazar ao comando. Ou argumentos de uma possível islamização do continente europeu apoiados em estatísticas mirabolantes de que 10% (já li dos 10% a 100%) dos muçulmanos são terroristas, ou que nos vão obrigar a usar todos burcas e violar as nossas mulheres e crianças ou melhor, que nos vão obrigar a construir mesquitas e converter tudo e todos às suas formas de vida, tornam-se ridículos e fazem dos que proferem estas anormalidades fundamentalistas religiosos, percebem a ironia? Talvez não porque o cristianismo é que é a verdadeira religião e o resto são terroristas. Aliás, na cabeça destes seres humanos, com o devido respeito a quem como eu pertence à mesma espécie, é que um cristão que cometa um homicídio é um criminoso, um muçulmano é um terrorista independentemente dos motivos criminais de um e de outro. Chamar lixo humano a migrantes quando vimos dum país que em toda a sua história migrou pelas mais variadíssimas razões (e sim também chegámos a sair do país para fugir da guerra ou da ditadura) torna a quem usa estes argumentos no lixo humano, uma espécie de “quem o diz é quem o é”, percebem a ironia? Talvez não. Ah! e não, os sírios e os restantes islamitas não nascem de AK47 numa mão e bomba na outra.

É triste ler e ler e continuar a ler notícias de gente, pessoas, humanos, homens, mulheres e crianças que morrem todos os dias a atravessarem o mar a fugir de uma guerra que não é deles. Mais triste, muito mais triste é ler e ler e continuar a ler que se refugiam nos seus medos e levantam as bandeiras neofascistas e falsamente patrióticas para defenderem coisas que no século XXI são indefensáveis. E sim, xenófobas e racistas é exatamente o que este tipo de gente é e é por isso que são acusados de tal e portanto não há que ter medo de chamar os bois pelos nomes, passando ou não a expressão.

A acrescentar aproveito para chamar a atenção às fontes de informação que citam para suportar os vossos medos xenófobos; porque ir à internet e ler em blogs que entraram 4.000 soldados do estado islâmico ou que na Noruega 100% dos violadores são estrangeiros ou que até 2020 haverá um califado em Portugal, é só e mais uma vez idiotice e fica-vos mal, sejam mais inteligentes.

Para terminar, gostaria de acreditar que nós somos mais e melhores do que eles, e com eles refiro-me aos fascistas, racistas e xenófobos (sim, não vou parar de vos catalogar só porque esse fascismo, racismo ou xenofobia advém da ignorância) e que portanto continuo a ter fé na humanidade e que caminhamos sempre numa melhor direção e para um futuro melhor. Sempre com a premissa e dou-me orgulhoso por isso, que posso chamar irmão seja a quem for independentemente da sua religião, raça, etnia ou opção política. É isto que faz de mim livre e é isto que faz de mim feliz mas acima de tudo é o que faz de mim humano. E porra, deve ser tão triste ser tão limitado e tão pequeno.


Um abraço a todos.


Alexandre Hoffmann
em Ala Magna

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O tremoço, este nosso amigo

Há poucas semanas andavamos em arrumações e descobrimos um saco de tremoços esquecido numa prateleira, já com 3 anos e que ainda por cima esteve em tempos numa arca frigorífica para os defender do bicho. Tudo indicava que teriam perdido a sua capacidade germinativa e por isso fizemos um teste e embrulhámos alguns em algodão molhado como fazíamos na escola. Passados 3 dias tinham este belo aspecto e por isso resolvemos lançá-los à terra para obtermos alguma produção.



Dissemos lançar à terra e não semear, porque na verdade o tremoço não gosta de ser enterrado. Se o fizermos, ele torna à superfície, teimosamente, devido à sua maneira de ser que exige ser ele a escolher a forma de se agarrar à terra. Por isso a primeira fase foi esta:



Como se seguiram dias de chuva persistente, num instante os tremoços perderam a sua secura, incharam e escolheram a melhor forma para se segurarem à terra



Poucos dias depois já estavam mais crescidos e incomodados com o chapéu protector ...



... e num instante começaram a livrar-se deles mostrando com alguma cautela a plantinha que vinha a emergir.




Agora vamos ter que esperar uns meses para criarem vagem e depois o amadurecimento da semente para ser colhida, malhada, escolhida e ensacada.
O tremoço pertence à família Fabaceae e à espécie Lupinus
O seu nome teve origem na palavra árabe al-turmus. Na vizinha Espanha é conhecido por altramuz, tramúz, entremozo e chocho.
As primeiras referências a esta planta surgem no Egipto há cerca de 3.000 anos.
O tremoço é utilizado na alimentação humana e na dos animais, no enriquecimento dos solos, na indústria farmacêutica e na fitoremediação
Sempre pensámos que os tremoços eram péssimos para a saúde devido aos resquícios na memória de uma lenda repetidamente ouvida nos nossos tempos de criança em que teriam sido amaldiçoados pela Nossa Senhora.
Fugia a Sagrada Família no seu burrico quando, ao passarem por um campo de tremoceiros já maduros, estes chocalharam ao serem pisados e empurrados pelas patas do animal, denunciando o local de fuga aos seus perseguidores. A santa não lhes perdoou a fraqueza e lançou uma maldição que consistia em nunca matarem a fome a quem os comesse, o que se tornou num bem para as cervejarias e tascas que sabedoras desse castigo continuam a servir pires com tremoços que não matam a fome a ninguém e bem salgadinhos ainda têm a virtude de provocar mais sede e assim aumentarem o consumo das bebidas.
Algumas pessoas não sabem que os tremoços que comemos, foram primeiramente cozidos e depois cobertos de água mudada com frequência por diversos dias até perderem o seu amargo original. Se não houver este procedimento, são completamente intragáveis e altamente tóxicos.
Esse amargor é devido à presença de vários alcalóides como a anagirina (usada como cardiotónica e teratogénica), a esparteína (usado como ocitócico e antiarrítmico) a lupanina, (influenciando os centros respiratórios e vasomotores), a luteona e a wighteona. A intoxicação identifica-se por náuseas, vómitos, tonturas, dores abdominais, mucosas secas, hipotensão, retenção urinária, taquicardia.
Esta toxicidade desaparece após a fervura e o demolhar por vários dias, tornando o tremoço doce e um alimento de eleição beneficiando as pessoas e animais que se alimentem dele.
O tremoço é um excelente adubo em verde quando enterrado nas terras porque tem a faculdade de fixar o nitrogénio do ar, absolutamente necessário para o crescimento de novas plantas o que o torna também responsável pelo aparecimento de novos ecossistemas. As suas raízes conseguem descompactar e reduzir a erosão dos solos, ajudando à infiltração de água. Óptimo para melhorar a estrutura física dos solos. Resistente às geadas, gosta de Invernos húmidos e Verões secos
O tremoço é uma leguminosa tal como o feijão, a fava, o chícharo, o grão de bico, a ervilha, a lentilha, as giestas, os tojos, as olaias, etc
Tem o dobro das proteínas do que a maioria de outras leguminosas. É rico em ferro, fósforo, vitamina E, vitaminas do complexo B, biotina e ácido pantoténico
Estudos feitos na União Europeia, comprovam a sua acção no controlo dos níveis de açúcar no sangue, na redução do apetite, na diminuição da quantidade de colesterol no sangue, nos efeitos sobre a obstipação intestinal e por último ajudando a evitar o aumento da obesidade.
Costumam também ser referidas as suas propriedades emolientes, diuréticas e cicatrizantes, o combate a parasitas intestinais e também o seu estímulo na renovação das células favorecendo a regeneração da pele.
Em França existe um produto comercializado para o fortalecimento capilar utilizando peptídeos, vitaminas e oligoelementos retirados ao tremoceiro.
Há uma série de tratamentos caseiros que aconselham a ingestão de um ou mais tremoços amargos com a água de demolhar (ambos tóxicos) todas as manhãs em jejum para baixar o colesterol, os valores glicémicos ou as dores artríticas, mas nem nos arriscamos a divulgar aqui por ignorarmos o seu impacto nos organismos de cada um.
Depois de várias pesquisas, não conseguimos encontrar muitas receitas utilizando os tremoços. Apenas um rizotto que passamos para aqui:
Derreta manteiga e junte cebola e bacon, até ficarem fritos sem queimar. Junte depois os tremoços, o arroz e refogue bem. Acrescente um pouco de vinho e deixe evaporar. Deite um cubo de caldo de carne e a água suficiente para cozinhar o arroz. Quando estiver cozido, junte um pouco de nata e queijo ralado. Deixe arrefecer um pouco e acrescente um ovo apenas desmanchado.
E uma outra de bolinhos utilizando farinha de tremoço que desconhecemos se é comercializada em Portugal:
Misture muito bem 50 gr de açúcar com 90 gr de manteiga. Junte 100 gr de farinha de tremoço e 50 gr de amêndoas bem trituradas. Mexa energicamente até formar uma pasta homogénea. Faça pequenas bolinhas e coloque em tabuleiro untado. Leve ao forno por 20 a 30 minutos
Também vimos sugestões para introduzir tremoços nas saladas de alface, tomate, agrião ou misturados nas verduras que acompanham o bacalhau, o salmão fumado, com alguns cozidos de carne ou a acompanhar pratos de queijo.
Não queríamos finalizar este texto sem nos referirmos ao grupo de investigadores pertencente ao departamento de Botânica e Engenharia Biológica do Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa que conseguiu criar um fungicida natural de toxicidade nula a partir de uma proteína do tremoço germinado, designada de BLAD (Banda de Lupinus Alpus Doce).
O produto denominado Problad além de uma forte actividade fungicida tem um poderoso efeito bioestimulante sobre as plantas. Pode ser utilizado na vinha, nos relvados desportivos, nas culturas de estufa propícias à proliferação de fungos, na agricultura biológica em geral.
Como pode ser ingerido pelo homem, evita o cumprimento do intervalo de segurança exigido por lei no uso de pesticidas químicos. É um produto completamente inovador a nível internacional e está a ser objecto de homologação nos Estados Unidos e na União Europeia, esperando-se que ainda este ano comece a ser lançado no mercado mundial.

Ana Ramon 

É só escolher a hora . . .


sábado, 5 de setembro de 2015

Deep Purple - Perfect Strangers

Ele comprou uma velha torre de água abandonada… O que fez com ela… Vais ficar sem palavras!



Um homem decidiu comprar uma velha torre de água que estava abandonada e entregue ao tempo e à degradação, até que um dia mais tarde se transformaria em ruínas. E então transformou-a em algo fenomenal e nunca antes visto! Vais ficar apaixonado, assim como eu fiquei!

Ele transformou-a numa magnífica casa! É um homem que não tem falta de dinheiro e por isso tem de arranjar motivos para o gastar. Claro que a longo prazo e para a velhice não será uma boa ideia tendo em conta a quantidade de escadas que a casa tem, mas, para ele isso não será problema.

Como quem pode, pode, e quando vires o seu interior vais ficar sem palavras…

Vê as imagens e impressiona-te:


























Fonte: www.alucinados.pt/homem-rico-comprou-uma-torre-de-agua-abandonada-e-transforma-a-numa-casa

sábado, 29 de agosto de 2015

MADRUGADA - Vocal




You better run, you better run
You better not wait too long
You better run, you better run
You better run for you have a heart
So let's start, so let's start
So let's start, tear it all apart
You better run, you better run
You better run for you have a heart
Well, oh, well, oh, you know it's only so much I can take
I buried my head in that pillow for a million days
So, oh, oh well, I'm sorry but I do not care to wait
Dare not walk through the light
Dare not walk through the light

Your vision's travelled far today
So why don't you run away
Your vision's travelled far today
Like in the times when you say

I have a cry, I have a cry, and I will not be contained
I have a cry, I have a cry, and I will not be contained, no
Oh well, oh you know it is only so much I can take
Buried my head in that pillow a million days oh, oh
Oh well, I'm sorry but I do not care to wait
Oh, dare not walk through the light
Dare not walk through the light, oh

Oh, dare not walk through the light
Dare not walk through the light

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Palace Hotel do Buçaco - Aveiro - Portugal


Situado no coração da Mata Nacional do Buçaco, a escassos quilómetros da Mealhada, no distrito de Aveiro, em Portugal, o Palace Hotel do Buçaco é um verdadeiro palácio de conto de fadas em plena floresta encantada. Foi o último palácio mandado construir pelos reis de Portugal. Embora o projecto, em estilo neo-manuelino, datado do último quartel do século XIX, a conclusão da obra verificou-se em 1906, exactamente dois anos antes do Regicídio. Hoje transformado em hotel de luxo, o Palace é uma opção de sonho para quem puder ainda usufruir do acolhimento e do conforto requintados que ele proporciona.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Deep Purple - Woman From Tokyo


Fly into the rising sun,
Faces, smiling everyone
Yeah, she is a whole new tradition
I feel it in my heart

My woman from Tokyo
She makes me see
My woman from Tokyo
She's so good to me

Talk about her like a Queen
Dancing in a Eastern Dream
Yeah, she makes me feel like a river
That carries me away

My woman from Tokyo
She makes me see
My woman from Tokyo
She's so good to me

But I'm at home and I just don't belong ...

So far away from the garden we love
She is what moves in the soul of a dove
Soon I shall see just how black was my night
When we're alone in Her City of light

Rising from the neon gloom
Shining like a crazy moon
Yeah, she turns me on like a fire
I get high

My woman from Tokyo
She makes me see
My woman from Tokyo
She's so good to me

Emmylou Harris moved to tears by First Aid Kit at Polar Music Prize

Steve Miller Band The Joker Live From Chicago

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Uma resposta Monumental . . .


Como um grego ensina a um alemão a história das dívidas

https://www.youtube.com/watch?v=QZeg8blIvFA

Reflexões do Júlio Isidro



NÃO, NÃO ESTOU VELHO !!!

NÃO SOU É SUFICIENTEMENTE NOVO PARA JÁ SABER TUDO !

Passaram 40 anos de um sonho chamado Abril.
E lembro-me do texto de Jorge de Sena….
Não quero morrer sem ver a cor da liberdade.
Passaram quatro décadas e de súbito os portugueses ficam a saber, em espanto, que são responsáveis de uma crise e que a têm que pagar…. civilizadamente, ordenadamente, no respeito das regras da democracia, com manifestações próprias das democracias e greves a que têm direito, mas demonstrando sempre o seu elevado espírito cívico, no sofrer e ….calar.

Sou dos que acreditam na invenção desta crise.

Um “directório” algures decidiu que as classes médias estavam a viver acima da média. E de repente verificou-se que todos os países estão a dever dinheiro uns aos outros…. a dívida soberana entrou no nosso vocabulário e invadiu o dia a dia.
Serviu para despedir, cortar salários, regalias/direitos do chamado Estado Social e o valor do trabalho foi diminuído, embora um nosso ministro tenha dito decerto por lapso, que “o trabalho liberta”, frase escrita no portão de entrada de Auschwitz.
Parece que alguém anda à procura de uma solução que se espera não seja final.
Os homens nascem com direito à felicidade e não apenas à estrita e restrita sobrevivência.
Foi perante o espanto dos portugueses que os velhos ficaram com muito menos do seu contrato com o Estado que se comprometia devolver o investimento de uma vida de trabalho.
Mas, daqui a 20 anos isto resolve-se.
Agora, os velhos atónitos, repartem o dinheiro entre os medicamentos e a comida.
E ainda têm que dar para ajudar os filhos e netos num exercício de gestão impossível.
A Igreja e tantas instituições de solidariedade fazem diariamente o milagre da multiplicação dos pães.
Morrem mais velhos em solidão, dão por eles pelo cheiro, os passes sociais impedem-nos de sair de casa, suicidam-se mais pessoas, mata-se mais dentro de casa, maridos, mulheres e filhos mancham-se de sangue, 5% dos sem abrigo têm cursos superiores, consta que há cursos superiores de geração espontânea, mas 81.000 licenciados estão desempregados.
Milhares de alunos saem das universidades porque não têm como pagar as propinas, enquanto que muitos desistem de estudar para procurar trabalho.
Há 200.000 novos emigrantes, e o filme “Gaiola Dourada” faz um milhão de espectadores.
Há terras do interior, sem centro de saúde, sem correios e sem finanças, e os festivais de verão estão cheios com bilhetes de centenas de euros.
Há carros topo de gama para sortear e autoestradas desertas. Na televisão a gente vê gente a fazer sexo explícito e explicitamente a revelar histórias de vida que exaltam a boçalidade.
Há 50.000 trabalhadores rurais que abandonaram os campos, mas há as grandes vitórias da venda de dívida pública a taxas muito mais altas do que outros países intervencionados.
Há romances de ajustes de contas entre políticos e ex-políticos, mas tudo vai acabar em bem...estar para ambas as partes.
Aumentam as mortes por problemas respiratórios consequência de carências alimentares e higiénicas, há enfermeiros a partir entre lágrimas para Inglaterra e Alemanha para ganharem muito mais do que 3 euros à hora, há o romance do senhor Hollande e o enredo do senhor Obama que tudo tem feito para que o SNS americano seja mesmo para todos os americanos. Também ele tem um sonho…
Há a privatização de empresas portuguesas altamente lucrativas e outras que virão a ser lucrativas. Se são e podem vir a ser, porque é que se vendem?
E há a saída à irlandesa quando eu preferia uma…à francesa.
Há muita gente a opinar, alguns escondidos com o rabo de fora.
E aprendemos neologismos como “in conseguimento” e “irrevogável” que quer dizer exactamente o contrário do que está escrito no dicionário.
Mas há os penaltis escalpelizados na TV em câmara lenta, muito lenta e muito discutidos, e muita conversa, muita conversa e nós, distraídos.
E agora, já quase todos sabemos que existiu um pintor chamado Miró, nem que seja por via bancária. Surrealista…
Mas há os meninos que têm que ir à escola nas férias para ter pequeno- almoço e almoço.
E as mães que vão ao banco alimentar contra a fome , envergonhadamente , matar a fome dos seus meninos.
É por estes meninos com a esperança de dias melhores prometidos para daqui a 20 anos, pelos velhos sem mais 20 anos de esperança de vida e pelos quarentões com a desconfiança de que não mudarão de vida, que eu não quero morrer sem ver a cor de uma nova liberdade.
Júlio Isidro

BARCELONA - A Sagrada Família em ... 2026.


Vejam só a maravilha que vai ficar o "delírio genial" do GAUDI ! ! !

http://www.youtube.com/watch_popup?v=RcDmloG3tXU

Os pobrezinhos - Uma delícia sociológica de António Lobo Antunes


"Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria: - Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina Teresinha.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres dinheiro, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto (- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro) de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar

e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis"

Por António Lobo Antunes.

Mafra National Palace aerial view

Sunset Party Figueira da Foz Aerial View - 11th July 2015

sábado, 22 de agosto de 2015

Fabuloso sexteto vocal interpreta "Hotel California"

BREVE MEMÓRIA DA OCUPAÇÃO DA GRÉCIA PELA ALEMANHA DE HITLER - texto de ALFREDO BARROSO (*) no jornal «i»




24 de Junho de 2015 às 15:00


Da percepção que a generalidade das pessoas tem do terror nazi durante a II Guerra Mundial não consta, por desconhecimento, o sofrimento brutal infligido aos gregos pelas tropas de Hitler entre 1941 e 1944.
Todavia, como afirma o grande historiador inglês Mark Mazower em “Inside Hitler’s Greece – The Experience of Occupation, 1941-1944” (publicado em 1993), Atenas sofreu “a fome mais atroz que a Europa ocupada alguma vez conheceu fora dos campos de concentração”.
Para se ter uma pequena ideia da dimensão da tragédia, só no primeiro ano da ocupação nazi, entre Outubro de 1941 e Outubro de 1942, e só nas aglomerações urbanas de Atenas e do Pireu, 49.188 gregos morreram de fome, segundo uma estimativa muito por baixo. Durante todo o período da ocupação nazi, entre 1941 e 1944, terão morrido de fome cerca de 500 mil gregos. De facto, afirma Mark Mazower, “a inflação e a destruição que a Grécia conheceu não têm paralelo em toda a Europa ocupada”.
A comunidade judaica da Grécia, uma das mais antigas da Europa, foi praticamente aniquilada. E a repressão brutal e sangrenta levada a cabo pela Wehrmacht para tentar jugular a resistência grega – sobretudo o EAM/ELAS (Frente Nacional de Libertação/Exército Popular de Libertação Nacional, que chegou a ter cerca de um milhão de aderentes) – cifrou-se em dezenas de milhares de mortos.
O país que o próprio Hitler considerava o “símbolo da civilização humana” foi alvo da repressão mais brutal e desumana que se possa imaginar. Hitler considerava que na sua “nova ordem europeia” os seus súbditos apenas existiam para proporcionar ao Reich matérias--primas, mercadorias e mão-de-obra, e em nenhum caso poderiam esperar vir a ser associados políticos da Alemanha.
Talvez ninguém tenha expressado mais cruamente o pensamento de Hitler do que Hermann Göring ao dirigir-se aos comissários do Reich e aos comandantes dos territórios ocupados, em 6 de Agosto de 1942: “Por toda a parte nos territórios ocupados vejo pessoas a empanturrar-se, enquanto o povo alemão tem fome. Por amor de Deus, vocês não estão aí para trabalhar em prol da prosperidade dos povos que vos foram confiados, mas para lhes tirar tudo o que puderem. Espero que se consagrem a esse objectivo com todas as vossas forças. Essa preocupação permanente pelo bem-estar dos estrangeiros tem de cessar de uma vez por todas[…] Estou-me perfeitamente nas tintas para que os vossos administrados morram de fome. Eles que morram, desde que nenhum alemão morra de fome.”
No magnífico romance “Um Apartamento em Atenas”, publicado em 1945 pelo escritor americano Glenway Wescott (1901-1987), as forças de ocupação alemãs ordenam à família Helianos (um casal com dois filhos) que aloje no seu apartamento no centro de Atenas um obstinado e preconceituoso capitão do serviço de Intendência da Wehrmacht, Ernest Robert Kalter, que às tantas diz aos seus hospedeiros forçados: “Vocês, os gregos, estão todos cheios de doenças venéreas.”
O oficial nazi apropria-se da sala de estar, do quarto principal e da casa de banho, obrigando o casal Helianos a dormir na cozinha. Além disso, o casal tem de cozinhar para ele, lavar-lhe a roupa e estar permanentemente ao seu serviço. Entretanto, os filhos – o rebelde Alex e a misteriosa Leda – passam fome, enquanto o capitão Kalter dá os restos das suas copiosas refeições a um velho bull terrier.
Voltando à realidade descrita por Mark Mazower – de que não está longe a ficção de Wescott, que se baseia, aliás, num caso verdadeiro – “os cadáveres macilentos eram abandonados nas ruas durante horas até que as carroças municipais viessem buscá-los. Eram amontoados e depois levados para o cemitério mais próximo”. Mais: “O espectáculo dos cadáveres amontoados nas ruas mergulhava as pessoas numa angústia profunda” e muitas acabaram por enlouquecer depois de testemunhar e viver esse terror.
Nasci em Roma em 21 de Janeiro de 1945, poucos meses antes do fim da II Guerra Mundial. Vim para Lisboa em 1946, morar em casa dos meus avós paternos. Já com nove ou dez anos de idade, folheei às escondidas um álbum de fotos sobre o Holocausto nazi, que o meu avô tinha na sua pequena biblioteca, intitulado, se não me falha a memória, em inglês: “We Have not Forgotten”. Nunca mais esqueci o que vi.
Tal como os portugueses e quaisquer outros povos, os gregos também têm memória da sua própria história, designadamente, a que o seu país viveu em meados do tão sangrento século XX. Todavia, a Grécia nunca obteve o pagamento pela Alemanha das reparações que lhe eram devidas, apesar dos crimes contra a humanidade que foram cometidos contra os gregos pelos nazis durante a ocupação da Grécia pela Alemanha de Hitler. Porque os outros países aceitaram fechar os olhos.
Nota final: Escrevi este texto indignado com os insultos que têm sido lançados contra o governo grego e contra o Syriza por vários governantes portugueses,mas também por alguns dirigentes do PS, e sobretudo por jornalistas e comentadores outrora de extrema-esquerda, que se passaram para a direita e ainda não conseguiram exorcizar os seus velhos demónios. Que este texto lhes faça bom proveito. Se o lerem.

(*) Cronista, jornalista,ex-deputado e ex-secretário de Estado

TROIKA - Poderosa e Descontrolada.

Documentário do canal franco-alemão "Arte" sobre as intervenções da Troika.
É um documentário para ver com calma já que nunca o veremos na televisão. Não deve dar muito jeito ao poder instalado.
Tradução da Isabel Atalaia, que respondeu ao apelo do Aventar para que fosse legendado e disponibilizado aos portugueses.

https://www.youtube.com/watch?v=5-l4OK6NQX8

AYN RAND (1950)





A 2 de fevereiro de 1905 nasceu em S. Petersburgo a filósofa e escritora americana Alissa Zinovievna Rosenbaum, mais conhecida como Ayn Rand, falecida em Março de 1982 em Nova York.

Ficou famosa esta frase dela, que se aplica como uma luva ao que vivemos no mundo, em particular em Portugal nos dias de hoje:

"Quando te deres conta de que para produzir necessitas obter a autorização de quem nada produz,
quando te deres conta de que o dinheiro flui para o bolso daqueles que traficam não com bens, mas com favores,

quando te deres conta de que muitos na tua sociedade enriquecem graças ao suborno e às influências, e não ao seu trabalho, e que as leis do teu país não te protegem a ti, mas protegem-nos a eles contra ti,

quando enfim descobrires ainda que a corrupção é recompensada e a honradez se converte num auto-sacrifício,

poderás afirmar, taxativamente, sem temor de te equivocares, que a tua sociedade está condenada".

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Timelapse - O'Porto (de Paulo Ferreira)

O Porto é uma cidade portuguesa, capital do distrito homónimo, situada no noroeste de Portugal e pertencente à região Norte e sub-região do Grande Porto.
A cidade do Porto é conhecida como a Cidade Invicta e como a Capital do Norte. Tem uma velha ligação socio-económica à Inglaterra e é a cidade onde vive a maior comunidade britânica em Portugal , sendo mesmo considerada a cidade portuguesa com o temperamento mais «centro-europeu» e onde se encontram as raízes judaicas mais antigas e consistentes dos portugueses, através de uma herança «marrana» milenar, onde melhor se pode verificar, em Portugal, o velho adágio centro-europeu da ética protestante que recupera o espírito de 'nação' judaico e que gerou o livre jogo do capitalismo e da economia de mercado: "Stadtluft macht frei" ("O ar da cidade liberta"). É a cidade que deu o nome a Portugal – desde muito cedo (c. 200 a.C.), quando se designava de Portus Cale, vindo mais tarde a tornar-se a capital do Condado Portucalense, de onde se formou Portugal e de onde, mais tarde, se construiu o Império Português, visto que foi construído, maioritariamente, por pessoas da Região Norte. É ainda uma cidade conhecida mundialmente pelo seu vinho, pelas suas pontes e arquitectura contemporânea e antiga, o seu centro histórico, classificado como Património Mundial pela UNESCO, pela qualidade dos seus restaurantes e pela sua gastronomia, pela sua principal equipa de futebol, o Futebol Clube do Porto, bem como pela sua principal universidade pública: a Universidade do Porto, colocada entre as 200 melhores a nível mundial e entre as 100 melhores universidades da Europa.
Em 2012 e 2014, a cidade do Porto foi eleita "Melhor Destino Europeu", distinção atribuída anualmente pela European Consumers Choice. Em 2013, foi eleita o "Melhor Destino de férias na Europa" pela Lonely Planet. Também no ano de 2014, a revista Business Destinations, que organiza anualmente os Bussiness Destinations Travel Awards, considerou que a Alfândega do Porto é o melhor espaço para “reuniões e conferências” da Europa, elegendo este centro de congressos pela sua qualidade e inserção urbana.
Porto, uma cidade maravilhosa que está à procura de ser descoberta.
Veja a segunda parte em: vimeo.com/123362932
Proibida a utilização deste vídeo para fins comerciais.
Para licenciamento: geral@ptimelapse.pt

EN:
Porto is a Portuguese city, capital of the homonymous district, located in the northwest of Portugal and belongs to the northern region and sub-region of Greater Porto.
The city of Porto is known as the City and Invicta as the Capital of the North. It has an old socio-economic link to England and is the city where the largest British community in Portugal, and even considered the Portuguese city with more temper 'Central European' and where are the oldest and most consistent of the Portuguese Jewish roots through a 'Marrano' ancient heritage, which can be seen best in Portugal, the old adage central European Protestant ethic that recovers the spirit of 'nation' Jewish and that generated the free play of capitalism and the market economy "macht frei Stadtluft" ("city air liberates"). It is the city that gave its name to Portugal - very early (. C 200 BC), when designated for Portus Cale, coming later to become the capital of Portucalense, where he graduated and Portugal where more later, they built the Portuguese Empire, since it was built, mostly by people from the North. It is also a known worldwide for its wine, its bridges and old architecture and contemporary city, its historical center, classified as World Heritage by UNESCO, the quality of its restaurants and its gastronomy, its main football team, Football Clube do Porto, as well as its main public universities: the University of Porto, ranked among the top 200 in the world and among the 100 best universities in Europe.
In 2012 and 2014, the city of Porto was voted "Best European Destination" award granted annually by the European Consumers Choice. In 2013, was voted the "Best Vacation Destination in Europe" by Lonely Planet. Also in 2014, the Business Destinations magazine, which annually organizes the Bussiness Destinations Travel Awards, considered the Customs Port is the best space for "meetings and conferences" Europe by electing this convention center for its quality and urban integration .
O'Porto, a wonderful city that is looking to be discovered.
See second part here: vimeo.com/123362932

Timelapse - O'Porto from ptimelapse on Vimeo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O Amor

Via Lia Rosatto

E alguém disse:
Fala-nos do Amor:

- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem
vos possa ferir.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz
poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor
vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis
que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes
sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo
para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.

Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes ser
o pão sagrado no festim de Deus.

Tudo isto vos fará o amor,
Para poderdes conhecer os segredos
do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes
o coração da Vida.

Mas, se no vosso medo,
buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez
e sair do campo do amor,
a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir,
mas nunca todos os vossos risos,
e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo,
e só recebe de si mesmo.

O amor não possui
nem quer ser possuído.

Porque o amor basta ao amor.

E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso.

O amor não tem outro desejo
senão consumar-se.

Mas se amarem e tiverem desejos,
deverão se estes:
Fundir-se e ser um regato corrente
a cantar a sua melodia à noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor,
e sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com o coração cheio
e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio dia
e meditar no êxtase do amor.

Voltar a casa ao crepúsculo
e adormecer tendo no coração
uma prece pelo bem amado,
e na boca, um canto de louvor.

Khalil Gibran



O Direito ao Delírio - Eduardo Galeano*

Via Anabela de Araújo

"Mesmo que não possamos adivinhar o
tempo que virá, temos ao menos o direito
de imaginar o que queremos que seja.
As Nações Unidas tem proclamado extensas listas de
Direitos Humanos, mas a imensa maioria da humanidade
não tem mais que os direitos de: ver, ouvir, calar.
Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?
Que tal se delirarmos por um momentinho?
Ao fim do milénio vamos fixar os olhos mais para lá da
infâmia para adivinhar outro mundo possível.
O ar vai estar limpo de todo veneno que não venha dos
medos humanos e das paixões humanas.
As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pela televisão.
A televisão deixará de ser o membro mais importante da família.
As pessoas trabalharão para viver
em lugar de viver para trabalhar.
Se incorporará aos Códigos Penais
o delito de estupidez que cometem os que vivem por ter ou ganhar ao invés de viver por viver somente, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca.
Em nenhum país serão presos os rapazes
que se neguem a cumprir serviço militar,
mas sim os que queiram cumprir.
Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida
à quantidade de coisas.
Os cozinheiros não pensarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas.
Os historiadores não acreditarão que os países
adoram ser invadidos.
O mundo já não estará em guerra contra os pobres,
mas sim contra a pobreza.
E a indústria militar não terá outro remédio senão
declarar-se quebrada.
A comida não será uma mercadoria nem a comunicação
um negócio, porque a comida e a comunicação
são direitos humanos.
Ninguém morrerá de fome, porque ninguém
morrerá de indigestão.
As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua.
As crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá crianças ricas.
A educação não será um privilégio de quem possa pagá-la
e a polícia não será a maldição de quem
não possa comprá-la.
A justiça e a liberdade, irmãs siamesas,
condenadas a viver separadas, voltarão a juntar-se,
voltarão a juntar-se bem de perto,
costas com costas.
Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo
de saúde mental, porque elas se negaram a esquecer
nos tempos de amnésia obrigatória.
A perfeição seguirá sendo o privilégio
tedioso dos deuses, mas neste mundo,
neste mundo avacalhado e maldito, cada noite será vivida como se fosse a última e
cada dia como se fosse o primeiro."