domingo, 28 de janeiro de 2018
O Traidor
Um amigo encontra outro no WC a urinar sentado na sanita:
- Mas o que é isto? Os homens urinam de pé! O que te aconteceu???
- Olha...
na 2ª feira passada saí com uma loira, 1,80 m, seios fartos, um corpo inacreditável, e na hora H murchei!
na 3ª saí com uma morena, 20 anos, corpo firme, Carinha laroca, e na hora H murchei!
na 4ª foi com uma ruiva, murchei!
na 5ª com uma quarentona enxuta, tudo em baixo...
O amigo, indignado, pergunta-lhe:
- Eh pá, tudo bem, murchar faz parte, acontece a qualquer um, mas por quê urinar sentado???
- Então...
tu achas que depois disto tudo eu ainda vou dar a mão a este traidor?
Recordando José Saramago . . .
«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»
José Saramago - "Cadernos de Lanzarote", - Diário III - pag. 148, 1995
LATIM, uma Língua maravilhosa !
O vocábulo "maestro" vem do latim "magister" e este, por sua vez, do advérbio "magis" que significa "mais" ou "mais que".
Na antiga Roma o "magister" era o que estava acima dos restantes, pelos seus conhecimentos e habilitações!
Por exemplo um "Magister equitum" era um Chefe de cavalaria, e um "Magister Militum" era um Chefe Militar.
Já o vocábulo "ministro" vem do latim "minister" e este, por sua vez, do advérbio "minus" que significa "menos" ou "menos que".
Na antiga Roma o "minister" era o servente ou o subordinado que apenas tinha habilidades ou era jeitoso.
*COMO SE VÊ, O LATIM EXPLICA A RAZÃO POR QUE QUALQUER IMBECIL PODE SER MINISTRO ... MAS NÃO MAESTRO !*
Na antiga Roma o "magister" era o que estava acima dos restantes, pelos seus conhecimentos e habilitações!
Por exemplo um "Magister equitum" era um Chefe de cavalaria, e um "Magister Militum" era um Chefe Militar.
Já o vocábulo "ministro" vem do latim "minister" e este, por sua vez, do advérbio "minus" que significa "menos" ou "menos que".
Na antiga Roma o "minister" era o servente ou o subordinado que apenas tinha habilidades ou era jeitoso.
*COMO SE VÊ, O LATIM EXPLICA A RAZÃO POR QUE QUALQUER IMBECIL PODE SER MINISTRO ... MAS NÃO MAESTRO !*
M i l a g r e !
Uma solteirona descobre que uma amiga ficou grávida com apenas uma oração que fez na igreja de uma aldeia próxima.
Dias depois, a solteirona foi a essa igreja e disse ao padre:
- Bom dia, padre.
- Bom dia, minha filha. Em que posso ajudá-la?
- Sabe, padre, eu soube que uma amiga minha veio aqui há umas semanas atrás e ficou grávida só com uma Ave-Maria. É verdade, padre?
- Não, minha filha, não foi com uma Ave-Maria... Foi com um padre nosso... mas ele já foi transferido!
Será que "isto" é verdade ?!
O melhor restaurante de Lisboa!
Comentários, para quê ?
Sem querer fazer publicidade...
Quando for a Lisboa, aproveite para almoçar bem e barato e,
sobretudo, para conhecer os verdadeiros representantes do
povo da Lusitânia - vá olhando à volta e certamente compreenderá....
O melhor restaurante de Lisboa (preço/qualidade)
The best of Portugal...(but is not for you!...)
ENTRADA:
Caviar beluga - 1 €
EMENTA: 3€
gambas, camarão tigre, lavagante, sapateira, queijo da Serra, presunto
de Barrancos, garoupa e bife do lombo - vinho: Palácio da Bacalhoa
NOTA: Naturalmente nos outros dias a ementa varia mas é igualmente boa, garantidamente!
BEBIDAS (obviamente são pagas à parte, nada de confusões...:
Mini - 0,10€
Vodka Eristoff - 1,50€
Gin Bombay Sapphire - 1,65€
Whisky Famous Grouse - 2€ (mas temos outros, novos e de mais idade)
1 garrafa de champanhe Krug - 3 €
Café - 0,05€
(não, não me enganei - os zeros estão no sítio certo, são mesmo 5 cêntimos ...)
MORADA?:
Palácio de S. Bento (Assembleia da República)
1249-068 LISBOA
CONTACTO: Tel: 21 391 9000
NOTA: Apareça sempre que quiser - mas traga um deputado à trela...senão não entra, que isto "não é para o povo".
sábado, 27 de janeiro de 2018
“Vemos Ouvimos e Lemos, Não Podemos Ignorar”
“Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror”
Extrato do poema “ Cantata da Paz”
De Sophia de Mello Breyner Andresen
Quase todas(os) nós conhecemos o poema, ou pelo menos o refrão da Cantata da Paz
da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen, pois ele foi cantado durante muitos
anos por várias vozes e entre elas, talvez a mais ouvida tenha sido a de Francisco
Fanhais.
A grandeza da poesia é a sua universalidade. Sophia de Mello Breyner estava a pensar
em África e no Vietname, como este poema refere, no entanto hoje a África e o
Vietname são outros, e os relatórios continuam a dizer-nos que a fome não foi
erradicada, que o fosso entre ricos e pobres aumentou, que o terror está a dominar as
nações: umas a instaurá-lo, querendo difundi-lo, outras a defenderem-se dele, querendo
isolar-se. E o que a poesia nos diz, é que o nosso sentir (o nosso, homens e mulheres
livres e de bons costumes) é universal.
Mas, vemos, ouvimos e lemos o quê? O que nos aparece? O que nos expõem ou impõem? O que procuramos?
Olhamos e não vemos, ou não queremos ver, ou olhamos e prestamos atenção?
Ouvimos e não escutamos, ou ouvimos, escutamos e entendemos?
Vemos, ouvimos e lemos. Como?
Como espectadores? Como atuantes?
Damos sentido às palavras que lemos? Ou
Murmuramos e não falamos ou
Desfrutamos e não amamos?
O que sentimos perante aquilo que vemos, ouvimos e lemos? Envolvimento ou distanciação?
Não podemos ignorar! Será que não ignoramos muitas vezes? E, se não ignoramos, o que fazemos?
Vemos, ouvimos e lemos e permitimos que se ignore.
Sim, muitas vezes permitimos.
Permitimos
porque nos tornamos cegos, surdos e mudos, devido à alienação, à ganância e à inveja e ao comodismo.
As notícias que nos chegam através dos “Mídea”, são muitas vezes mais sensacionalistas do que a procura isenta dos factos. Procuram muitas vezes chocar e não informar. Somos bombardeados com todo o género de notícias tantas vezes ao dia, com as mesmas desgraças às horas das refeições, que por vezes o cidadão comum vira a cara para o lado, para não ver tanta miséria e sofrimento. Por vezes, nem nos damos conta de que a notícia já não faz eco dentro de nós. É a banalização da notícia, de tantas vezes que se ouve ou vê cria o habito e a indiferença.
Diariamente somos confrontados com a globalização da comunicação. A “competição” pelo primeiro lugar em dar a notícia, mostrar um vídeo, disparar uma foto, transformase numa luta renhida. Perdem-se valores, cautelas e sensatez, na falta de edição e sensibilidade. Tudo e nada é notícia, desde os flagelos, ao terrorismo e atentados à liberdade.
Mas o que vemos, ouvimos e lemos é-nos transmitido através de veículos cuja idoneidade cívica, política e moral, urge questionar. É sabido que são usados filtros na informação que nos é transmitida, que variam consoante a vontade política e social de momento. É sem dúvida uma teia difícil de penetrar, controlar e contornar.
Muitas vezes, em conflito com o nosso pensamento, somos conduzidos a manifestarmonos e a tomarmos posições sobre assuntos dos quais pouco sabemos, como que se a simples opinião politica e socialmente bem aceite, fosse suficiente para aliviar as nossas consciências e bastasse o suficiente para nada mais fazer.
Ouvimos premissas, cujas bases desconhecemos, olhamos a factos sem saber o contexto e o enquadramento que levaram a determinadas decisões.
Mas mesmo assim, o Cidadão actual crê-se conhecedor e como tal opinador privilegiado dos diversos aspectos da actualidade, que como acabamos de dizer, são muitas vezes alvo de projecções pouco credíveis e até mesmo manipuladas, fazendo lembrar a célebre alegoria de Platão do homem na caverna de costas voltadas ao Mundo real.
Mas independentemente desta verdade/informação em segunda mão, o certo é que não podemos ficar indiferentes face ao mundo de notícias que nos chega ao conhecimento, e que nos dá conta duma falta de valores humanos aterrorizadora.
E porque vemos, ouvimos e lemos é que não podemos ignorar e sobretudo não podemos deixar de agir.
1 - Factos que mais nos preocupam
Os problemas de hoje são problemas de todos e afectam vários países e povos, pelo que a abordagem começa a ser global.
São muitos os que fogem das guerras, no futuro iremos ter provavelmente, refugiados ambientais em consequência da degradação acelerada do ambiente, que ultrapassa fronteiras e países.
Todos os dias ouvimos falar sobre a dignidade da vida humana, e a importância do sofrimento na vida das pessoas, e estamos na eminência de permitir que se conflua o seu término a uma simples escolha, sem o importante esclarecimento das opções alternativas, bem como das principais variáveis envolventes. Num contexto social particularmente sensível, em que se discute a forma de legislar sobre o fim da vida humana, não podemos ignorar a maneira como se discute a eutanásia, tentando reduzir a morte de um ser humano a um simples acto médico. Passa-se para segundo plano a importância de amar e ser amado independentemente da condição física.
Vemos, ouvimos e lemos que existe um mar, um mar perto de nós, que é também sepultura de milhares que aspiram à liberdade. De facto, no momento actual, é a crise dos refugiados que logo nos ocorre. Drama humano de enormes proporções, drama de quem parte, de quem fica, e de quem acolhe. Em zonas longínquas ou mais próximas são de novo as pessoas, e em particular os mais frágeis, que protagonizam e encarnam o que as (más) decisões políticas têm de pior.
Não podemos ignorar os relatos diários de mães e filhas vítimas de relacionamentos abusivos, muitas vezes também elas protagonistas dos mesmos crimes que se perpetuam perante a sistemática desvalorização da violência que se exerce no seio da família.
Não podemos ignorar a existência dos sem-abrigo no nosso país, de fome, miséria, casas desabitadas, degradadas e pessoas a viver nas ruas, à chuva, ao frio, ao vento, ao calor… Como é possível, empresários lançarem novos produtos, pensando em lucro e não em solidariedade, quando colocam no mercado sacos cama para aquecer os semabrigo, mas esquecem que deveriam antes disponibilizar estas verbas para a reconstrução das habitações que as autarquias têm em seu poder, dando-lhes condições de habitabilidade, para poderem realojar pessoas sem lar inserindo-as na sociedade.
Numa foto de refugiados que vi recentemente, há 7 homens e 1 mulher e até aqui nada de especial! Ao observar atentamente, vemos que a mulher tem os pés descalços, cuida de três crianças, e dessas três, traz uma ao colo e outras às costas. Nenhum homem a ajuda e todos eles trazem sapatos calçados, porque nas suas culturas a mulher não representa nada. Ela apenas serve para ser escrava dos homens. A história das mulheres 4 continua a não ter nada a ver com a história dos homens. A armadilha da indiferença apanha-nos a todos, pois aquilo que nos choca à primeira vez, quase nos deixa indiferente nas vezes seguintes. De tal maneira a realidade se torna insuportável aos nossos olhos, que instintivamente descolamos dela. Abstraímos e tentamos não sentir nada, pois as dores de sentir ser-nos-iam realmente intoleráveis.
Vemos, ouvimos e lemos que em nome de um Deus, homens e mulheres de todos os credos e fés são queimados, degolados, assassinados a sangue frio ou violados coletivamente.
Não podemos ignorar que a geo democracia ainda está longe da sua plenitude, e a cada dia que passa é lentamente devorada por outros interesses mais globalizantes e símbolos de servidão.
Não podemos ignorar as assimetrias sociais que se vivem perto e longe de nós, cuja solução seria fácil se não fossem a ambição, os poderes instituídos, os lóbis financeiros e as engenharias económicas.
Na realidade, uma “ténue linha do acaso,” que fez uns nascerem no lado certo da fronteira, tem sido ignorada ao longo dos séculos. Nobreza e povo, burguesia e proletários, brancos e negros, cristãos e hereges, nómadas, mulheres, homossexuais, idosos, tudo serve, como sempre serviu, para retirar ao Outro o valor da sua dignidade.
Todos fomos Charlie, todos nos colorimos das bandeiras de França e Bélgica, mas face aos recentes acontecimentos em Orlando ninguém é gay, ninguém levanta a vós para defender uma comunidade com a qual poucos fazem questão de se identificar, particularmente se for de diferente orientação sexual.
Vemos, ouvimos e lemos, que milhares de crianças têm o seu futuro completamente comprometido por não terem acesso à educação. “Uma criança sem acesso a educação é um estigma da humanidade e temos que mudá-lo”, afirmou Kailash Satyarthi, Prémio Nobel da Paz.
Muitas destas situações e tragédias ocorrem na União Europeia, onde os alicerces fundamentais da nossa história são baseados na liberdade, democracia e solidariedade, princípios esses gravados na carta dos direitos fundamentais. Estamos numa aldeia global, onde se assiste ao evoluir do conceito de cidadania. Os problemas de hoje são problemas de todos e afectam vários países e povos, pelo que a abordagem têm de ser abrangente. Graças à ampliação dos meios de comunicação, a informação circula cada vez mais rapidamente ao nível planetário, o que leva a que comecem a nascer movimentos globais que envolvem cidadãos de vários países.
2 - Reflexão e Acção
Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar"... Os 3 patamares desta frase dão origem a um triângulo em que, na sua base, temos os órgãos dos olhos e ouvidos, ascendendo à parte neurológica associada ao processo da leitura e terminando o triângulo no cimo, ao nível da consciência, condição essencial para que não se possa ignorar.
Um outro triângulo, agora descendente, está presente na união entre olhos, ouvidos e o coração, uma outra forma de não se ignorar, bem presente no célebre Principezinho, de Saint-Exupéry.
Nós somos Cidadãs Livres, somos Maçonas, somos mulheres comprometidas com a comunidade e com o país e com o mundo, Vemos Ouvimos e Lemos não podemos ignorar. Este refrão é um grito de inquietação contra a indiferença que tantas vezes nos atinge. É um apelo que nos encoraja e nos leva à reflexão, à mudança, à construção de um mundo mais solidário, mais humanista. À construção de um templo de homens e mulheres, unidos pela compaixão, pelo respeito pelo outro, pela intervenção ativa e luta sistemática pela paz.
Mas qual é o papel da Maçonaria ou o que a Maçonaria tem feito no que diz respeito particularmente a este tema dos refugiados ou outro tipo de intervenção social? O nosso trabalho não é confinado ao templo e não termina à meia-noite. Lá fora todas e todos temos um papel individual, não poderemos deixar de colaborar agindo no nosso país. Cada um de nós deverá ser um agente da mudança, não só na comunidade, mas também na nossa família.
Recuemos ao século XVII e recordemos as palavras do Padre António Vieira, sábias, visionárias até tendo em conta o que é hoje a modernidade e os seus conflitos políticos, sociais e religiosos. Dizia ele, que um dia muitos serão julgados pelo que fizeram e muitos mais pelo que não fizeram e pelo que silenciaram.
Hannah Arendt, a filósofa política alemã, de origem judaica, uma das principais combatentes do nazismo, considerava que o mal não é apenas o fruto de homens doentes, mas é sobretudo o resultado da cumplicidade da maioria que ouve e vê, mas ignora e permite.
Quantas vezes colocamos a questão: E se fosse connosco? Se víssemos uma jovem a ser esbofeteada pelo namorado? E se víssemos um casal de homossexuais ser verbalmente agredido e humilhado porque estão de mão dada? E se víssemos um idoso a ser maltratado? Paremos 2 minutos para pensar: Sim, se fosse connosco, o que faria cada uma de nós? Agia? Calava? Acelerava o passo e fugia? E se aquela namorada fosse a nossa filha? E se aquele idoso fossemos nós? E se a notícia que lemos esta manhã no jornal dissesse respeito a uma situação de violência e violação dos direitos humanos na casa do nosso vizinho? Agíamos? Ou seria mais fácil ignorar?
Maçonas e Maçons, nós que defendemos os valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade não nos podemos demitir de ser agentes de mudança dos problemas sociais. É essencial sermos membros ativos da sociedade na busca da equidade, da igualdade de oportunidades e de todos vivermos em harmonia numa sociedade mais justa e mais fraterna.
É preciso que cada um de nós chame a atenção do outro e apele à intervenção, é preciso que cada um de nós dê pequenos grandes passos, mesmo em casa faça exercícios plenos de cidadania como a reciclagem do lixo. É preciso ainda que os meios de comunicação social colaborem como mensageiros de massas e um grande exemplo disso é precisamente o programa de televisão “E Se Fosse Consigo?”, que quase involuntariamente nos leva a pensar qual seria a nossa própria reacção, perante determinada situação, a acontecer ali, diante de nós, violadora dos direitos humanos.
Uma maçona, não se pauta por dogmas nem tão pouco por pensamentos estereotipados. O seu pensar é livre, objectivo, claro, por forma a poder ser consequente e agir em prol da humanidade. Por isso há que lutar contra esta remissão para o “ fundo da caverna” onde são projectadas as verdades de outrem, cuja adequação nem sempre é verdadeira nem inocente. Hoje mais do que nunca, porque temos a ilusão de tudo saber, tudo conhecer em tempo real, estamos muito mais vulneráveis à manipulação do pensamento. Esta situação exige de nós uma maior atenção e pensamento crítico.
O trabalho da obreira é interior por certo. Mas é também exterior, na medida em que tem que continuar fora o trabalho feito em L:.
É urgente que a Maçonaria Feminina assuma um papel mais interventivo na vida da sociedade portuguesa em particular e da Humanidade em geral.
A História perguntar-nos-á a razão porque nada dissemos perante o êxodo de milhares de seres humanos que morreram à porta da Europa. Questionar-nos–à porque nada fizemos perante o flagelo da corrupção que grassou impunemente. Pedir-nos-á conta do silêncio que nos ensurdeceu e nos paralisou.
A Maçonaria Feminina, pilar indelével e sustentáculo imprescindível da Maçonaria Universal, tem de assumir a sua posição e defender a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, numa enorme bateria de acção conjunta.
Pelo sinal nos reconhecemos. Reconheçamo-nos como mulheres interventivas e operativas.
3 - Esperança e trabalho
Nunca mais ignorar-te, Humanidade!!
Se não posso salvar-te (e como o desejo!),
Quero hoje começar a escrever contigo e para nós,
A história que tenhamos orgulho de ver, de ouvir e de ler.
A história que todos os dias fará História por ser o nosso sonho,
A nossa melodia fantástica,
Bela e plena de liberdade e esperança e que por isso,
Não a calemos nem deixemos de ouvir nunca.
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror”
Extrato do poema “ Cantata da Paz”
De Sophia de Mello Breyner Andresen
Quase todas(os) nós conhecemos o poema, ou pelo menos o refrão da Cantata da Paz
da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen, pois ele foi cantado durante muitos
anos por várias vozes e entre elas, talvez a mais ouvida tenha sido a de Francisco
Fanhais.
A grandeza da poesia é a sua universalidade. Sophia de Mello Breyner estava a pensar
em África e no Vietname, como este poema refere, no entanto hoje a África e o
Vietname são outros, e os relatórios continuam a dizer-nos que a fome não foi
erradicada, que o fosso entre ricos e pobres aumentou, que o terror está a dominar as
nações: umas a instaurá-lo, querendo difundi-lo, outras a defenderem-se dele, querendo
isolar-se. E o que a poesia nos diz, é que o nosso sentir (o nosso, homens e mulheres
livres e de bons costumes) é universal.
Mas, vemos, ouvimos e lemos o quê? O que nos aparece? O que nos expõem ou impõem? O que procuramos?
Olhamos e não vemos, ou não queremos ver, ou olhamos e prestamos atenção?
Ouvimos e não escutamos, ou ouvimos, escutamos e entendemos?
Vemos, ouvimos e lemos. Como?
Como espectadores? Como atuantes?
Damos sentido às palavras que lemos? Ou
Murmuramos e não falamos ou
Desfrutamos e não amamos?
O que sentimos perante aquilo que vemos, ouvimos e lemos? Envolvimento ou distanciação?
Não podemos ignorar! Será que não ignoramos muitas vezes? E, se não ignoramos, o que fazemos?
Vemos, ouvimos e lemos e permitimos que se ignore.
Sim, muitas vezes permitimos.
Permitimos
porque nos tornamos cegos, surdos e mudos, devido à alienação, à ganância e à inveja e ao comodismo.
As notícias que nos chegam através dos “Mídea”, são muitas vezes mais sensacionalistas do que a procura isenta dos factos. Procuram muitas vezes chocar e não informar. Somos bombardeados com todo o género de notícias tantas vezes ao dia, com as mesmas desgraças às horas das refeições, que por vezes o cidadão comum vira a cara para o lado, para não ver tanta miséria e sofrimento. Por vezes, nem nos damos conta de que a notícia já não faz eco dentro de nós. É a banalização da notícia, de tantas vezes que se ouve ou vê cria o habito e a indiferença.
Diariamente somos confrontados com a globalização da comunicação. A “competição” pelo primeiro lugar em dar a notícia, mostrar um vídeo, disparar uma foto, transformase numa luta renhida. Perdem-se valores, cautelas e sensatez, na falta de edição e sensibilidade. Tudo e nada é notícia, desde os flagelos, ao terrorismo e atentados à liberdade.
Mas o que vemos, ouvimos e lemos é-nos transmitido através de veículos cuja idoneidade cívica, política e moral, urge questionar. É sabido que são usados filtros na informação que nos é transmitida, que variam consoante a vontade política e social de momento. É sem dúvida uma teia difícil de penetrar, controlar e contornar.
Muitas vezes, em conflito com o nosso pensamento, somos conduzidos a manifestarmonos e a tomarmos posições sobre assuntos dos quais pouco sabemos, como que se a simples opinião politica e socialmente bem aceite, fosse suficiente para aliviar as nossas consciências e bastasse o suficiente para nada mais fazer.
Ouvimos premissas, cujas bases desconhecemos, olhamos a factos sem saber o contexto e o enquadramento que levaram a determinadas decisões.
Mas mesmo assim, o Cidadão actual crê-se conhecedor e como tal opinador privilegiado dos diversos aspectos da actualidade, que como acabamos de dizer, são muitas vezes alvo de projecções pouco credíveis e até mesmo manipuladas, fazendo lembrar a célebre alegoria de Platão do homem na caverna de costas voltadas ao Mundo real.
Mas independentemente desta verdade/informação em segunda mão, o certo é que não podemos ficar indiferentes face ao mundo de notícias que nos chega ao conhecimento, e que nos dá conta duma falta de valores humanos aterrorizadora.
E porque vemos, ouvimos e lemos é que não podemos ignorar e sobretudo não podemos deixar de agir.
1 - Factos que mais nos preocupam
Os problemas de hoje são problemas de todos e afectam vários países e povos, pelo que a abordagem começa a ser global.
São muitos os que fogem das guerras, no futuro iremos ter provavelmente, refugiados ambientais em consequência da degradação acelerada do ambiente, que ultrapassa fronteiras e países.
Todos os dias ouvimos falar sobre a dignidade da vida humana, e a importância do sofrimento na vida das pessoas, e estamos na eminência de permitir que se conflua o seu término a uma simples escolha, sem o importante esclarecimento das opções alternativas, bem como das principais variáveis envolventes. Num contexto social particularmente sensível, em que se discute a forma de legislar sobre o fim da vida humana, não podemos ignorar a maneira como se discute a eutanásia, tentando reduzir a morte de um ser humano a um simples acto médico. Passa-se para segundo plano a importância de amar e ser amado independentemente da condição física.
Vemos, ouvimos e lemos que existe um mar, um mar perto de nós, que é também sepultura de milhares que aspiram à liberdade. De facto, no momento actual, é a crise dos refugiados que logo nos ocorre. Drama humano de enormes proporções, drama de quem parte, de quem fica, e de quem acolhe. Em zonas longínquas ou mais próximas são de novo as pessoas, e em particular os mais frágeis, que protagonizam e encarnam o que as (más) decisões políticas têm de pior.
Não podemos ignorar os relatos diários de mães e filhas vítimas de relacionamentos abusivos, muitas vezes também elas protagonistas dos mesmos crimes que se perpetuam perante a sistemática desvalorização da violência que se exerce no seio da família.
Não podemos ignorar a existência dos sem-abrigo no nosso país, de fome, miséria, casas desabitadas, degradadas e pessoas a viver nas ruas, à chuva, ao frio, ao vento, ao calor… Como é possível, empresários lançarem novos produtos, pensando em lucro e não em solidariedade, quando colocam no mercado sacos cama para aquecer os semabrigo, mas esquecem que deveriam antes disponibilizar estas verbas para a reconstrução das habitações que as autarquias têm em seu poder, dando-lhes condições de habitabilidade, para poderem realojar pessoas sem lar inserindo-as na sociedade.
Numa foto de refugiados que vi recentemente, há 7 homens e 1 mulher e até aqui nada de especial! Ao observar atentamente, vemos que a mulher tem os pés descalços, cuida de três crianças, e dessas três, traz uma ao colo e outras às costas. Nenhum homem a ajuda e todos eles trazem sapatos calçados, porque nas suas culturas a mulher não representa nada. Ela apenas serve para ser escrava dos homens. A história das mulheres 4 continua a não ter nada a ver com a história dos homens. A armadilha da indiferença apanha-nos a todos, pois aquilo que nos choca à primeira vez, quase nos deixa indiferente nas vezes seguintes. De tal maneira a realidade se torna insuportável aos nossos olhos, que instintivamente descolamos dela. Abstraímos e tentamos não sentir nada, pois as dores de sentir ser-nos-iam realmente intoleráveis.
Vemos, ouvimos e lemos que em nome de um Deus, homens e mulheres de todos os credos e fés são queimados, degolados, assassinados a sangue frio ou violados coletivamente.
Não podemos ignorar que a geo democracia ainda está longe da sua plenitude, e a cada dia que passa é lentamente devorada por outros interesses mais globalizantes e símbolos de servidão.
Não podemos ignorar as assimetrias sociais que se vivem perto e longe de nós, cuja solução seria fácil se não fossem a ambição, os poderes instituídos, os lóbis financeiros e as engenharias económicas.
Na realidade, uma “ténue linha do acaso,” que fez uns nascerem no lado certo da fronteira, tem sido ignorada ao longo dos séculos. Nobreza e povo, burguesia e proletários, brancos e negros, cristãos e hereges, nómadas, mulheres, homossexuais, idosos, tudo serve, como sempre serviu, para retirar ao Outro o valor da sua dignidade.
Todos fomos Charlie, todos nos colorimos das bandeiras de França e Bélgica, mas face aos recentes acontecimentos em Orlando ninguém é gay, ninguém levanta a vós para defender uma comunidade com a qual poucos fazem questão de se identificar, particularmente se for de diferente orientação sexual.
Vemos, ouvimos e lemos, que milhares de crianças têm o seu futuro completamente comprometido por não terem acesso à educação. “Uma criança sem acesso a educação é um estigma da humanidade e temos que mudá-lo”, afirmou Kailash Satyarthi, Prémio Nobel da Paz.
Muitas destas situações e tragédias ocorrem na União Europeia, onde os alicerces fundamentais da nossa história são baseados na liberdade, democracia e solidariedade, princípios esses gravados na carta dos direitos fundamentais. Estamos numa aldeia global, onde se assiste ao evoluir do conceito de cidadania. Os problemas de hoje são problemas de todos e afectam vários países e povos, pelo que a abordagem têm de ser abrangente. Graças à ampliação dos meios de comunicação, a informação circula cada vez mais rapidamente ao nível planetário, o que leva a que comecem a nascer movimentos globais que envolvem cidadãos de vários países.
2 - Reflexão e Acção
Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar"... Os 3 patamares desta frase dão origem a um triângulo em que, na sua base, temos os órgãos dos olhos e ouvidos, ascendendo à parte neurológica associada ao processo da leitura e terminando o triângulo no cimo, ao nível da consciência, condição essencial para que não se possa ignorar.
Um outro triângulo, agora descendente, está presente na união entre olhos, ouvidos e o coração, uma outra forma de não se ignorar, bem presente no célebre Principezinho, de Saint-Exupéry.
Nós somos Cidadãs Livres, somos Maçonas, somos mulheres comprometidas com a comunidade e com o país e com o mundo, Vemos Ouvimos e Lemos não podemos ignorar. Este refrão é um grito de inquietação contra a indiferença que tantas vezes nos atinge. É um apelo que nos encoraja e nos leva à reflexão, à mudança, à construção de um mundo mais solidário, mais humanista. À construção de um templo de homens e mulheres, unidos pela compaixão, pelo respeito pelo outro, pela intervenção ativa e luta sistemática pela paz.
Mas qual é o papel da Maçonaria ou o que a Maçonaria tem feito no que diz respeito particularmente a este tema dos refugiados ou outro tipo de intervenção social? O nosso trabalho não é confinado ao templo e não termina à meia-noite. Lá fora todas e todos temos um papel individual, não poderemos deixar de colaborar agindo no nosso país. Cada um de nós deverá ser um agente da mudança, não só na comunidade, mas também na nossa família.
Recuemos ao século XVII e recordemos as palavras do Padre António Vieira, sábias, visionárias até tendo em conta o que é hoje a modernidade e os seus conflitos políticos, sociais e religiosos. Dizia ele, que um dia muitos serão julgados pelo que fizeram e muitos mais pelo que não fizeram e pelo que silenciaram.
Hannah Arendt, a filósofa política alemã, de origem judaica, uma das principais combatentes do nazismo, considerava que o mal não é apenas o fruto de homens doentes, mas é sobretudo o resultado da cumplicidade da maioria que ouve e vê, mas ignora e permite.
Quantas vezes colocamos a questão: E se fosse connosco? Se víssemos uma jovem a ser esbofeteada pelo namorado? E se víssemos um casal de homossexuais ser verbalmente agredido e humilhado porque estão de mão dada? E se víssemos um idoso a ser maltratado? Paremos 2 minutos para pensar: Sim, se fosse connosco, o que faria cada uma de nós? Agia? Calava? Acelerava o passo e fugia? E se aquela namorada fosse a nossa filha? E se aquele idoso fossemos nós? E se a notícia que lemos esta manhã no jornal dissesse respeito a uma situação de violência e violação dos direitos humanos na casa do nosso vizinho? Agíamos? Ou seria mais fácil ignorar?
Maçonas e Maçons, nós que defendemos os valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade não nos podemos demitir de ser agentes de mudança dos problemas sociais. É essencial sermos membros ativos da sociedade na busca da equidade, da igualdade de oportunidades e de todos vivermos em harmonia numa sociedade mais justa e mais fraterna.
É preciso que cada um de nós chame a atenção do outro e apele à intervenção, é preciso que cada um de nós dê pequenos grandes passos, mesmo em casa faça exercícios plenos de cidadania como a reciclagem do lixo. É preciso ainda que os meios de comunicação social colaborem como mensageiros de massas e um grande exemplo disso é precisamente o programa de televisão “E Se Fosse Consigo?”, que quase involuntariamente nos leva a pensar qual seria a nossa própria reacção, perante determinada situação, a acontecer ali, diante de nós, violadora dos direitos humanos.
Uma maçona, não se pauta por dogmas nem tão pouco por pensamentos estereotipados. O seu pensar é livre, objectivo, claro, por forma a poder ser consequente e agir em prol da humanidade. Por isso há que lutar contra esta remissão para o “ fundo da caverna” onde são projectadas as verdades de outrem, cuja adequação nem sempre é verdadeira nem inocente. Hoje mais do que nunca, porque temos a ilusão de tudo saber, tudo conhecer em tempo real, estamos muito mais vulneráveis à manipulação do pensamento. Esta situação exige de nós uma maior atenção e pensamento crítico.
O trabalho da obreira é interior por certo. Mas é também exterior, na medida em que tem que continuar fora o trabalho feito em L:.
É urgente que a Maçonaria Feminina assuma um papel mais interventivo na vida da sociedade portuguesa em particular e da Humanidade em geral.
A História perguntar-nos-á a razão porque nada dissemos perante o êxodo de milhares de seres humanos que morreram à porta da Europa. Questionar-nos–à porque nada fizemos perante o flagelo da corrupção que grassou impunemente. Pedir-nos-á conta do silêncio que nos ensurdeceu e nos paralisou.
A Maçonaria Feminina, pilar indelével e sustentáculo imprescindível da Maçonaria Universal, tem de assumir a sua posição e defender a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, numa enorme bateria de acção conjunta.
Pelo sinal nos reconhecemos. Reconheçamo-nos como mulheres interventivas e operativas.
3 - Esperança e trabalho
Nunca mais ignorar-te, Humanidade!!
Se não posso salvar-te (e como o desejo!),
Quero hoje começar a escrever contigo e para nós,
A história que tenhamos orgulho de ver, de ouvir e de ler.
A história que todos os dias fará História por ser o nosso sonho,
A nossa melodia fantástica,
Bela e plena de liberdade e esperança e que por isso,
Não a calemos nem deixemos de ouvir nunca.
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
Advogados de Lula fazem Coletiva de Imprensa após ex-presidente ser cond...
Os advogados do ex-presidente da república Luís Inácio Lula da Silva, reuniram-se em coletiva de imprensa para prestar esclarecimentos sobre o processo que condenou o cliente a 12 anos de prisão, impossibilitando-o de disputar as eleições de 2018. Segundo o advogado Cristiano Zanin, as acusações contra o ex-presidente estão no campo da cogitação: “Nenhum dos votos indicou nem o uso da função pública e tampouco o recebimento de qualquer vantagem indevida. Prevaleceu o conceito de atos indeterminados” O advogado ainda afirmou que o direito de defesa foi censurado: "Claramente a palavra do Ministério Público mostrou como a força-tarefa da Lava Jato vem atuando neste em outros casos. Qual é o pensamento? O pensamento é de censura à defesa, é de censura à academia, é de censura ao povo."
Texto perfeito para este momento !
Por Mari Malheiros
Lula não precisa da minha defesa. Ele tem muita gente no mundo inteiro que faz isso de forma brilhante. Também não sou ingênua de achar que esse julgamento representa a falência do Judiciário. O Judiciário está falido pra classe trabalhadora há muito tempo, é só ver o número de negros, pobres e jovens nos presídios.
O que tá em jogo hoje é a democracia. Lula, com todas as suas contradições, é o retirante nordestino, pobre, operário que chegou ao cargo mais importante do país através da legalidade democrática. Os treze anos de Governo do PT foram legitimados por quatro eleições validadas pelo TSE, que é o órgão competente para tal. Não vou entrar no mérito do que esse cara fez porque só não enxerga quem não quer. Não é essa a questão.
O que se questiona é a condenação de Lula enquanto Aécio, Alckmin, Richa, Temer e companhia continuam cometendo crimes. É o mesmo que o Judiciário tentar dizer "Se enxerguem, bando de operários pobres, política é pra classe dominante, vocês são só o serviço braçal. Quem quiser ser como Lula vai acabar dessa forma".
Gente, um juiz disse que Lula não pode ter um triplex (e já foi provado, desenhado, que não é dele). Vocês tem noção do absurdo disso? Um triplex! FHC tem um apartamento de luxo na área mais nobre de Paris (uma das mais caras do mundo) e ninguém disse que ele não pode ter esse apartamento.
Observem que eu usei a palavra "tentar". O Judiciário tenta dizer, mas não consegue. O Judiciário só detém o monopólio da legalidade, mas não passa disso. Os projetos dos movimentos sociais são maiores, feitos de sonhos e lutas, vontade, fé, desejo de transformação da vida. Não é disputa de poder. É utopia, mística, horizonte. É a vida com toda sua poesia. E isso, isso é muito maior que a lei. O filme "Um sonho de liberdade" tem uma das grandes frases do cinema: não podem tirar algo que está dentro de nós. É esse sopro, dentro de quem tá na luta, que nos move...
Independente do resultado do julgamento de hoje, as ruas continuam sendo nossas, e a luta continuará sendo feita. Hoje é só uma batalha, a guerra vai continuar.
Eu que me Aguente Comigo
Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.
Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.
Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Os fracassos serão nossas vitórias ! - Eduardo Casanova
“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu” - Darcy Ribeiro
Foto tirada por Italo Gurgel
Foto tirada por Italo Gurgel
terça-feira, 23 de janeiro de 2018
Assim que te quero
É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.
Pablo Neruda.
Pintura de Tony Chow
domingo, 21 de janeiro de 2018
sábado, 20 de janeiro de 2018
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
Ser forte é disfarçar tudo o que dói
É sorrir tudo o que chora.
Ser forte é quando a coragem afasta o medo
É viveres um amor em segredo.
Ser forte é quando a mentira te morde e tu curas a ferida
É não desistires de ti, mesmo perdida.
Ser forte é abrir a porta a quem se ama numa despedida
É deixar que seja feliz lá longe com outra vida.
Ser forte é sentires frio e dares calor
É receberes traição e dares amor.
Ser forte é resistir à lágrima de um tempo que doeu
É perder o sonho onde a saudade gemeu.
Ser forte é testar o limite da fraqueza
É silenciares os gritos da tristeza.
Ser forte é ajudar o amigo a levantar
É remares quando estás afundar.
Ser forte é quando perdoas algo que não queres lembrar
É esqueceres quem amas porque não te soube amar.
Ser forte é resistires a um abraço
Quando tens vontade de abraçar.
Ser forte é não deixares que te manipulem
É resistires a quem te quer enganar.
Obrigada vida, por me teres ensinado a ser forte!
Obrigado tempo, por me saberes moldar!
Carla Tavares
É sorrir tudo o que chora.
Ser forte é quando a coragem afasta o medo
É viveres um amor em segredo.
Ser forte é quando a mentira te morde e tu curas a ferida
É não desistires de ti, mesmo perdida.
Ser forte é abrir a porta a quem se ama numa despedida
É deixar que seja feliz lá longe com outra vida.
Ser forte é sentires frio e dares calor
É receberes traição e dares amor.
Ser forte é resistir à lágrima de um tempo que doeu
É perder o sonho onde a saudade gemeu.
Ser forte é testar o limite da fraqueza
É silenciares os gritos da tristeza.
Ser forte é ajudar o amigo a levantar
É remares quando estás afundar.
Ser forte é quando perdoas algo que não queres lembrar
É esqueceres quem amas porque não te soube amar.
Ser forte é resistires a um abraço
Quando tens vontade de abraçar.
Ser forte é não deixares que te manipulem
É resistires a quem te quer enganar.
Obrigada vida, por me teres ensinado a ser forte!
Obrigado tempo, por me saberes moldar!
Carla Tavares
quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Francisco Torres está com Poesia, Pintura & Música e Beirão Francisco.
21 de Fevereiro de 2014 ·
·
******** Calçada do Carriche ********
Luísa, sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobre a calçada.
Saiu de casa
de madrugada:
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
uma golada,
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho,
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina,
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
António Gedeão
em "Teatro do Mundo"
http://youtu.be/legjWFLBzak
Pintor: Paula Rego
Texto de Carlos Mattos Gomes que desmonta a personalidade de Marcelo Rebelo de Sousa
"Populismo — de Pisistratus a Marcelo, a mesma cartilha
O grego (ateniense) Pisistratus é considerado pelos estudiosos da política como o primeiro populista demagogo na história ocidental. É o mais antigo populista demagogo. Marcelo Rebelo de Sousa não é o primeiro populista demagogo de Portugal, mas é o de maior sucesso, o mais activo e a funcionar 24 horas por dia.
Pisistratus pretendeu ser arconte de Atenas, o detentor dos poderes reunidos do basileu, o rei, e do comandante dos exércitos, o polemarco. Marcelo Rebelo de Sousa, além dos poderes do basileu e do polemarco pretende concentrar o poder do arconte tesmótetas, o que preparava as leis e velava pela sua execução.
Marcelo quer ser rei, general, chefe do governo e presidente da assembleia. Qualquer coisa entre um cocktail e um shot.
Pisistratus descobriu cedo que o povo era facilmente iludido por gestos simbólicos e a sua primeira medida como arconte foi transformar-se num “homem do povo”. Marcelo fez também a mesma descoberta com tenra idade, no início da carreira. Filho de ministro do Estado Novo, jornalista, professor de Direito, jurisconsulto, chefe partidário, administrador de casas ducais, amigo de banqueiros e comentador televisivo surgiu também como a voz do povo e um homem do povo que beija ao vivo velhinhas, dá de comer a sem-abrigo e bebe ginginhas no Barreiro, além de ir a Fátima em peregrinação e à bola para aclamação! São os afetos! Tão populares e consoladores como os coiratos à porta dos estádios.
Pisistratus, o pai do populismo, fazia campanha como herói triunfante, e era carregado aos ombros do povo como guerreiro vitorioso sem jamais ter participado numa batalha ou vivido um desafio. Marcelo também não possui no currículo nenhum feito heróico, nem de relevo que o ice ao Olimpo, a não ser o banho no Tejo e umas voltas em Lisboa ao volante de um táxi, mas fala como se tivesse soprado a Lua, saneado as contas públicas, apagado os incêndios infernais, enchido as barragens, canonizado os pastorinhos de Fátima, distribuído a raspadinha e impedido as invasões dos produtos chineses.
Ao longo dos séculos todos os Pisistratus fingiram demonstrar empatia para com os sofrimentos dos mais carentes e excluídos da sociedade, como Marcelo tão bem finge. Mas a comiseração dos populistas tem como único objetivo a obtenção do voto, do aplauso fácil, da aclamação. É o que faz mover Marcelo. Sempre que acreditarmos nos carinhosos abrações e nas selfies de Marcelo devemos ter a consciência de estar a ser hipnotizados por um Pisistratus moderno.
O populista apela à simpatia do povo para construir o seu poder. Baseia o seu discurso na denúncia dos males que as classes privilegiadas causam no povo. Apresenta-se como redentor dos humildes. O populista divide a sociedade em dois grupos homogéneos e antagónicos: o ‘povo simples’ e a ‘elite corrupta”. O populista assume-se como o único que representa o povo contra os corruptos, mesmo contra as leis. Aí temos de novo Marcelo, o sorriso de Marcelo, o palpite de Marcelo, o recado de Marcelo, a facada de Marcelo.
O populista universal é um narciso apaixonado por si, que se orgulha tanto da sua irresponsabilidade como da sua inimputabilidade. Marcelo é o demagogo que se coloca acima da lei da divisão de poderes em nome do povo que vota em quem tem o dever de elaborar as leis. O demagogo, como Marcelo, entende que fala directamente com o povo, que é a voz de deus, embora, logo de seguida, beije as mãos dos padres com beata genuflexão.
Um populista narcísico como Marcelo, se chegar à conclusão que alguém pode fazer-lhe sombra, tentará minar o seu prestígio e reputação. Balsemão e Portas queixam-se dessas caneladas que deixaram nódoas.
Marcelo Rebelo de Sousa está constantemente preocupado com fantasias de poder e sucesso. Crê ser especial e faz tudo para lhe reconhecerem essa qualidade. Exige admiração dos outros e sente “estar no seu direito” aproveitar-se dos outros para benefício próprio.
As acções e as aparições de Marcelo Rebelo de Sousa, os seus gestos e as suas expressões de afectos têm como finalidade fazer dele o centro das atenções.
Acredita que possui todas as qualidades. Prefere atuar sozinho, sem dar espaço aos outros ou delegar funções. Apenas exige que os outros façam o que lhe convém. É essa a razão do jogo perverso de gato e rato que impôs a António Costa após os incêndios do Verão. Os incêndios no centro do país mostraram Marcelo Rebelo de Sousa como um jogador com ases na manga e dados viciados.
Ele é e faz tudo para o ser o “funcionário do dia”, o “funcionário da semana”, do mês, do ano, “o funcionário modelo”. Na antiga União Soviética seria um herói do trabalho. Quer que a sua fotografia, a sua imagem fique pendurada nas paredes dos locais que visita, que todos saibam quem ele é e o que fez.
O populista, com a sua doentia necessidade de reconhecimento, é um tipo inseguro, que não confia em si próprio. Perigoso porque está à mercê dos sabujos que lhe preenchem o vazio, dizendo e gritando que ele é o bom, o capaz, o conseguidor, o salvador, ou que produzem os elogios que o fazem sentir-se inchado, diante do espelho.
Vemos Marcelo Rebelo de Sousa na televisão e podemos achá-lo engraçado, mas na verdade ele é um populista. Um populista simpático, mas um demagogo egoísta e narcísico.
Os portugueses votaram maioritariamente nele. Há que o aceitar como é e decifrá-lo."
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
. . . quanta sabedoria !
Amizade e o Amor
Perguntei a um sábio ,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas ,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.
William Shakespeare
sábado, 13 de janeiro de 2018
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
Pete Seeger - "Forever Young"
May God bless and keep you always
May your wishes all come true
May you always do for others
And let others do for you
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young
May you grow up to be righteous
May you grow up to be true
May you always know the truth
And see the lights surrounding you
May you always be courageous
Stand upright and be strong
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young
May your hands always be busy
May your feet always be swift
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift
May your heart always be joyful
May your song always be sung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young
https://www.youtube.com/watch?v=Ezyd40kJFq0
May your wishes all come true
May you always do for others
And let others do for you
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young
May you grow up to be righteous
May you grow up to be true
May you always know the truth
And see the lights surrounding you
May you always be courageous
Stand upright and be strong
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young
May your hands always be busy
May your feet always be swift
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift
May your heart always be joyful
May your song always be sung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young
https://www.youtube.com/watch?v=Ezyd40kJFq0
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
sábado, 6 de janeiro de 2018
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
sábado, 30 de dezembro de 2017
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
A consagração final de Lula será consumada por seus carrascos.
Por Carlos Fernandes
- 15 de dezembro de 2017
O trio do TRF 4Para que um destino se cumpra, a vida exige seus sacrifícios.
Fato corrente na história da humanidade, os homens e mulheres que mudaram de alguma maneira a forma de se ver o mundo pagaram com a vida sua ousadia.
Talvez a primeira grande vítima de uma justiça parcial e previsível, o grego Sócrates preferiu sucumbir à cicuta a negar seus ensinamentos. Num entardecer, aos pés da Acrópole, um dos pilares da filosofia universal tombava injustiçado pelo medo, pela ignorância e pela cobiça de seus juízes.
Séculos mais tarde, outro revolucionário sentia na carne o gosto amargo dos cravos. Conta as Escrituras que, traído por um dos seus mais próximos discípulos, o homem que não fez outra coisa a não ser pregar a paz, a compreensão e o amor, agonizou até à morte em meio ao júbilo ensandecido de uma multidão.
Por lutar pela independência de seu país, Joana D’Arc, a jovem filha de camponeses, após 20 meses de julgamento, ardeu nas chamas da inquisição acusada de bruxaria.
A lista, como sabem, é interminável.
No Brasil não seria diferente. Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Olga Benário, enfim, todos aqueles que lutaram por um país livre, justo e igualitário foram tachados de criminosos por uma sociedade ainda hoje servil e preconceituosa.
Na esteira da história, cobram de Lula – o primeiro operário a chegar à presidência desse país – o seu quinhão de culpa.
Responsável pela mais bem-sucedida política de combate à pobreza e à miséria que se teve notícia em toda a América Latina, o retirante nordestino que escapou da fome e da seca ousou querer para o seu povo um destino que não fosse de servidão e subserviência.
Ao incluir os pobres pela primeira vez nos interesses do Estado, o torneiro mecânico desmantelou uma estrutura secular de dominação e privilégio que remonta ao Brasil escravocrata.
Esse crime capital em particular não poderia ser perdoado.
Lula passou a ser odiado pela elite desse país que apesar de não ter tido um único privilégio subtraído, não suportou a ideia de ter de compartilhar os “seus” espaços com pessoas cuja posição social até então não as autorizava.
Permitir que negros, mulheres, homossexuais, índios e minorias em geral passassem a ocupar um lugar de destaque e decisão seja nos altos escalões do poder, seja na vida cotidiana de cada brasileiro, caracterizou-se como uma afronta pessoal a cada machista, homofóbico, preconceituoso e elitista de nossa peculiar classe média.
Alimentados com o que de pior pôde ser produzido em matéria de jornalismo irresponsável praticado a exaustão pela grande mídia nacional, uma horda de analfabetos políticos, muitos deles diretamente beneficiados pelas políticas inclusivas de Lula, se autoproclamaram guardiões da moral tupiniquim e partiram para a mais insana defesa de um modelo de nação do qual eles próprios são excluídos.
Deposta ilegal e violentamente sua sucessora, a possibilidade real de Lula voltar ao poder fez com que todo e qualquer resquício da mínima aparência de normalidade institucional que tentaram manter fosse dado às favas.
A cada pesquisa divulgada de intenção de voto, mais urgente se mostra a “solução final”. Lula não pode, em hipótese alguma, ser candidato.
Os inquisidores modernos foram acionados. Danem-se as aparências, acelerem os processos, atropelem os ritos normais, forjem atalhos. Lula não pode ser candidato.
A fogueira já tem data para ser acesa. No dia 24 de janeiro de 2018, os torquemadas da era moderna iniciarão o mesmo processo que já foi de Sócrates, de Cristo, de Joana.
Não estarão julgando um crime propriamente dito, estarão julgando um homem. Mais do que isso, estarão julgando uma ideia, uma afronta ao establishment, uma desobediência ao estado “natural” das coisas.
Forjado por uma vida inteira de privações e necessidades, Lula faz exatamente o que se espera de um homem como ele: luta incansavelmente com as forças de um sertanejo que não admite ser injustiçado.
Lula sabe que não precisa mais da presidência da República para sua biografia. Duas vezes eleito e dono da maior aprovação que um presidente já teve em toda a história desse país, ele já entrou para a história. Lula precisa mesmo da presidência da República é para dá-la novamente ao povo brasileiro.
O resultado do seu julgamento já está dado. A justiça não estará presente no momento de seu pronunciamento. Não esteve em nenhum momento do processo. A única possibilidade de reversão seria uma brutal mobilização dos movimentos progressistas nas ruas a partir de já.
À parte tudo isso, a condenação de Lula por um Tribunal de Exceção servirá apenas para consagrar a história de um homem que dedicou a sua vida a uma causa improvável: um Brasil para todos.

OS MEUS AMIGOS
Amigos cento e dez e talvez mais
Eu já contei! Vaidades que eu sentia.
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.
Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu, já farto de os ver, me escapulia,
Às suas curvaturas vertebrais.
Um dia adoeci profundamente,
Ceguei. Dos cento e dez, houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.
Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!
Camilo Castelo Branco (1825-1890)
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
Após 36 horas de trabalho de parto, mulher dá a luz em banheiro de sua casa "Nunca me senti tão poderosa e realizada em toda minha vida", revela Marissa Heckel em postagem feita nas redes sociais.
Após 36 horas de trabalho de parto, Marissa conseguiu dar à luz a uma bebê super saudável. Para contar um pouco sobre sua experiência, ela compartilhou nas redes sociais uma foto do nascimento e a imagem ganhou rapidamente grande comoção dos internautas.
"Ficar sem assistência foi uma oportunidade pra provar que Deus fez nossos corpos para parir - hospitais nunca foram o normal. Dei à luz meu filho no meu banheiro depois de um trabalho de parto de 36 horas. O tempo exato que levei no nascimento da minha filha", disse.
No relato, a americana contou que durante o parto ela tentou aliviar as dores com banhos, mas não foi o suficiente. "Escolhi encarar a dor em pé, encostada na parede. Apenas dizia a mim mesma: 'a dor é apenas temporária'".
Além disso, ela disse que a bolsa estourou e o líquido amniótico jorrou, em 5 momentos diferentes, por toda sua cama. No entanto, no período expulsivo do parto, Marissa sentiu que ficar sobre a cama não parecia o melhor a fazer, portanto com a ajuda do marido ela se dirigiu até o banheiro quando sentiu vontade de fazer força.
Para ajudar no processo do nascimento, Marissa sentou no banheiro com o objetivo de fazer mais força. Quando o marido conseguiu ver a cabeça do bebê, incentivou Marissa a continuar fazendo força. "Ele me encorajou a seguir", afirma.
Então, ela se levantou para prosseguir no parto. "Segurei no porta-toalhas e deixei meu corpo dar o último empurrão e ele (bebê) estava finalmente fora. Meu marido ficou parado, em estado de choque, tirando as fotos. Nunca me senti tão poderosa e realizada em toda minha vida. Nossos corpos são realmente incríveis", relembra.
De acordo com Marissa, o processo não teria sido tão fácil sem o apoio que teve do marido: "Quando as contrações e a pressão começaram meu marido estava ao lado da cama, segurando minha mão. Na verdade, foi romântico, embora nesse ponto eu praticamente já estivesse rugindo".
Em entrevista ao site PopSugar, Marissa revelou um pouco sobre como foi o nascimento do seu primeiro filho e como esse momento acabou traumatizando ela. "Fui intimidada por não querer uma epidural e fui assediada durante todo meu trabalho para receber uma. Também fui forçada a deitar nas costas durante o parto e foi-me dito para "empurrar" contra o meu corpo. Meu marido e eu decidimos que um nascimento não assistido em nossa casa seria muito mais. Nunca tive medo durante todo o processo", comenta
A postagem feita por Marissa teve como intuito incentivar outras mães a optarem pelo parto natural. "Se você está com medo ou achando que não consegue fazer isso, (saiba que) você consegue! Não tenha medo, nossos corpos são feitos para isso".
sexta-feira, 22 de dezembro de 2017
quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
domingo, 17 de dezembro de 2017
EU SEI QUE VOU TE AMAR.- Vinicius de Moraes y Maria Creuza (Letra y subt...
EU SEI QUE VOU TE AMAR
POR TODA A MINHA VIDA EU VOU TE AMAR
EM CADA DESPEDIDA EU VOU TE AMAR
DESESPERADAMENTE EU SEI QUE VOU TE AMAR
EM CADA VERSO MEU SERÁ
PRÁ TE DIZER
QUE EU SEI QUE VOU TE AMAR
POR TODA A MINHA VIDA
EU SEI QUE VOU CHORAR
A CADA AUSÊNCIA TUA EU VOU CHORAR
MAS CADA VOLTA TUA HÁ DE APLACAR
QUE ESSA AUSÊNCA TUA ME CAUSOU
EU SEI QUE VOU SOFRER
A ETERNA DESVENTURA DE VIVER
A ESPERA DE VIVER AO LADO TEU
POR TODA A MINHA VIDA
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
O cativeiro psicológico e o medo de ir mais longe

Recentemente chegaram à minha casa dois gatos que passaram por uma situação peculiar. Após 4 anos vivendo em uma casa com total acesso a todos os espaços e convivendo ativamente com as pessoas com quem moravam foram, por motivos que não vêm ao caso aqui, confinados a um espaço único da casa, no caso, o quintal. O espaço era limitado e infinitamente menor do que o que eles estavam vivendo até então. O contato com as pessoas da casa passou a ser quase que somente nos momentos de troca de água, ração e limpeza da areia higiênica.
O que chamou minha atenção foi o seguinte: esses dois gatos estavam muito assustados e com muito medo justamente do que? Do excesso de espaço. O quintal aqui é bem amplo e eles simplesmente, ao chegarem, não tinham coragem de avançar no espaço inteiro. Limitavam-se a um pequeno espaço, que consideravam seguro, e agiam como se tivesse um campo de força invisível que os impedisse de avançar mais. Quando arriscavam-se, voltavam correndo para aquele espacinho que delimitaram como seguro.
Isso me fez refletir muito sobre isso: se gatos que viveram mais tempo com uma maior liberdade, tendo acesso a um mundo bem maior (antes, o mundo para eles era a casa inteira), ao serem confinados durante meses, acostumam-se com esse espaço menor e limitado, passando, então, a desconfiar de tudo que está fora desse espaço delimitado – ainda que esse espaço seja ruim e não apropriado para eles -, imagine só gatos que nascem e são criados já em um pequeno cativeiro?
Ora, isso se parece muito com a zona de conforto – ou de desconforto – em que nos instalamos tantas e tantas vezes e da qual temos tanto receio de sair. Muitas vezes, agimos como gatos assustados que, mesmo tendo um mundo muito mais amplo e interessante à sua disposição, não têm coragem de sair daquele pequeno espaço delimitado que os deixa seguros, mesmo que esse seja muitas vezes ruim e insuficiente.
Isso me lembrou o texto de Étienne de La Boétie, chamado Discurso da Servidão Voluntária. Esse texto, publicado por volta de 1570 e escrito quando ele tinha apenas 18 anos de idade, discute justamente essa questão: por que as pessoas obedecem determinadas regras se não tem, muitas vezes, nada nem ninguém que as faça obedecer de forma forçosa? Ele diz que mais do que tentar entender o que um tirano precisa ter e fazer para poder exercer poder sobre as massas, vale tentar entender por que as massas obedecem sem resistir.
É como se, inicialmente, fosse necessário fechar a porta impedindo a entrada dos gatos na casa, mas, depois de um tempo, não precisasse mais da barreira física. Cria-se um cativeiro psicológico, de forma que os gatos não saem mais de seu espaço mesmo que nada os impeça de fato. Eles se acostumam com os impedimentos e barreiras e passam a temer deixar aquela situação.
Tenho a impressão de que o mesmo acontece conosco. Parte desse processo já começa na educação: desde muito pequenos já somos colocados em salas de aula, somos obrigados a ficar sentados e a seguir diversas regras que, com o passar do tempo, interiorizamos como verdades inabaláveis. E quando enxergamos possibilidades de novos e infinitos mundos que poderíamos explorar, nós simplesmente paralisamos, como se houvesse o tal campo de força invisível. Não damos um passo a mais, mesmo que não haja nada nem ninguém nos impedindo.
“A liberdade é a única coisa que os homens não desejam; e isso por nenhuma outra razão (julgo eu) senão a de que lhes basta desejá- la para a possuírem; como se recusassem conquistá-la por ela ser tão simples de obter” (Étienne de La Boétie).
Criamos um roteiro de vida a ser seguido, criamos conceitos sobre nós mesmos, criamos crenças e pré-conceitos, criamos até mundos paralelos e virtuais, como o Facebook, por exemplo, onde não precisamos nem mais sair do lugar. O cativeiro está mais do que perfeito, porque não há ninguém obrigando ninguém a ficar com a cara grudada na tela do celular tendo o mundo inteiro ao seu redor, mas ficamos! E, incrivelmente, acreditamos que esse é o mundo.
Há um tempo, reduzi drasticamente meu uso do Facebook, passando a usar apenas profissionalmente e entrando muito esporadicamente com o intuito de “interagir” com os amigos. E é impressionante a quantidade de tempo que sobra no dia, tempo em que você levanta a cabeça do seu cativeiro psicológico e descobre que existe um quintal enorme à sua frente, esperando para ser explorado. E esse quintal pode ser seu quintal mesmo, literalmente, mas pode ser um livro, pessoas de carne e osso, pode ser uma música que você escuta prestando atenção, um hobby, um cachorro alegre na sua frente. E você sai desse espacinho e começa a explorar o quintal e descobre que não assusta tanto, mais. E você não quer mais voltar para aquele espaço limitado. Você volta a se acostumar com o mundo amplo à sua volta.
O mesmo ocorre quando você descobre que, apesar de ter se formado em uma faculdade, existe um mundo inteiro de outras coisas legais para aprender, estudar. Que o diploma de médica veterinária não me impede de estudar filosofia. Que o casamento às vezes não é vitalício e que a solteirice também não é. Que existem infinitos roteiros de vida que podem lhe satisfazer, assim como roteiros de viagens.
“Assim é: os homens nascem sob o jugo, são criados na servidão, sem olharem para lá dela, limitam-se a viver tal como nasceram, nunca pensam ter outro direito nem outro bem senão o que encontraram ao nascer, aceitam como natural o estado que acharam à nascença. Mas o costume, que sobre nós exerce um poder considerável, tem uma grande força de nos ensinar a servir e (tal como de Mitrídates se diz que aos poucos foi se habituando a beber veneno) a engolir tudo até que deixamos de sentir o amargor do veneno da servidão” (Étienne de La Boétie).
Então, você descobre, inclusive, que pode, se desejar, voltar para seu espacinho anterior quando quiser, passar um tempo lá, usar seu Facebook de vez em quando, mas já não teme mais afastar-se e explorar novos mundos. Vai ficando mais corajoso, vai gostando desse mundo que se abre e ficando cada vez mais resistente ao cabresto psicológico. Vai voltando a ser aquele gato explorador, livre, que às vezes se assusta, às vezes faz umas traquinagens, às vezes não gosta do que encontra em suas explorações, mas que não se deixa limitar mais.
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
O LOUCO - Khalil Gibran
NO JARDIM dum manicómio
encontrei um rapaz
de rosto pálido e belo ,
cheio de espanto .
Sentei-me a seu lado
no banco , e perguntei-lhe :
- Porque estás aqui ?
Olhou-me assombrado ,
e disse :
- É uma pergunta indiscreta ,
mas vou responder .
Meu pai queria executar em mim
uma reprodução de si próprio ,
e o mesmo quis fazer meu tio .
Minha mãe queria converter-me
na imagem de seu ilustre pai .
Minha irmã fazia
do navegador seu esposo
o exemplo perfeito
que eu devia seguir .
Meu irmão pensava
que eu devia ser como ele ,
um excelente atleta .
Por sua vez os meus professores ,
o doutor em Filosofia ,
o mestre da Música ,
o de Lógica ,
estavam resolvidos ,
cada um deles ,
a que eu fosse apenas
o reflexo do seu rosto no espelho .
Foi assim que vim parar a este lugar .
Acho-o aliás mais cordato .
Pelo menos , aqui
posso ser eu próprio .
Depois , subitamente ,
voltou-se para mim e perguntou :
- Mas diz-me lá ,
também te trouxeram a este lugar
a educação e o bom conselho ?
- Não , respondi .
Eu sou um visitante .
Então ele disse-me :
- Ah ! Tu és um daqueles
que vivem no manicómio ,
do outro lado do muro .
segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
Sonhos de Abóbora
Ingredientes
– 1 Kg de abóbora, em cru
– 250 gr de Farinha de trigo com fermento
– 1 Colher de café de fermento
– 1 ou 2 Colheres de sopa de açúcar (facultativo)
– 2 Ovos
– Casca de laranja, e raspa de laranja
– Pau de canela
– Água q.b. e uma pitada de sal
– 1 Colher de sopa de aguardente (não usei)
– Óleo para fritar
– Açúcar e canela q.b. para polvilhar
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
Sei-te
Sei-te no cheiro que o vento espalha
e se me entranha nos poros.
Seja no aroma suave de uma flor
ou numa explosão dos sentidos,
o vento sempre apura
as partículas do teu odor.
E nos gemidos que o vento solta
soa o gosto de cada carícia tua.
Sabes-me...!
E imploro ao vento que retorne
a ti
e tatue na tua pele
todo o sabor que és em mim.
Rosa Santos
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
Por não querer nem governo nem Estado. Para uma narrativa política dos 35 anos dos Xutos
No dia da morte do Zé Pedro, republicamos este artigo de Fernando Ramalho. A mundividência dos Xutos seguiu sempre muito a par do viver quotidiano dos seus membros que, por sua vez e como será natural que suceda, é inseparável dos altos e dos baixos, dos sucessos e fracassos, de um percurso de 35 anos, que no caso dos Xutos é tudo menos linear.
9 de Março, 2014 - 00:18h

Entre 25 e 29 de Julho de 1983 tinha lugar, no Carvalhal, em Tróia, o festival «Dêem uma Oportunidade à Paz», uma iniciativa de grande dimensão organizada por um movimento unitário que, na altura, intervinha em torno dos problemas da paz, com particular destaque para a luta contra as armas nucleares. Tinha fomentado, por exemplo, cerca de um mês antes, um forte movimento contra a instalação de material nuclear norte-americano na Base Aérea de Beja. Do cartaz do festival faziam parte uns então relativamente desconhecidos Xutos & Pontapés. Quando entraram no palco, depararam-se com um cenário desolador. Explica Kalú: «O público estava muito longe do palco. (…) em vez de porem as pessoas ali à frente, rodearam a zona da mesa de mistura com grade onde só deixaram entrar os jornalistas, que entretanto estavam todos na copofonia atrás do palco, onde era o bar. Aquilo parecia mesmo o deserto, com as luzes via-se um cabo enorme e preto em cima da areia, a mesa, e o público lá ao fundo a dormir…»i Face àquilo, Zé Pedro, assim que entra no palco, pega no microfone e diz: «A grande diferença que existe entre nós e vocês é que gente já não acredita na Paz!»ii Aquela declaração não só teve o condão de atrair para a frente do palco, perante a incapacidade da organização do festival para «resolver o problema», a enorme massa humana que se amontoava, a muitos metros de distância, em sacos-cama, como despertou a curiosidade dos jornalistas. Os Xutos conseguiram mesmo, pela primeira vez, ser capa do semanário Se7e, na semana seguinte, com uma entrevista a Belino Costa. Aí, pode ler-se: «"Fiquei espantado quando o Zé Pedro fez tais afirmações", conta o Tim. "Ele exprimiu, afinal, o pensamento do grupo. De facto, já não acreditamos em manifestações pacifistas. Para o poder é bem melhor a existência de um Festival da Paz do que uma greve de estivadores. Por outro lado, a questão da Paz não se resume ao nuclear. Quando, por exemplo, em França se despedem 9 mil trabalhadores da Renault isso é uma forma de violência e guerra. Em Almada por certo que vai haver problemas quando começarem a despedir gente na Lisnave. Não será isso tão agitador quanto a passagem de armas nucleares em Portugal? Estamos muito mais preocupados com a violência do dia-a-dia do que com as armas nucleares!"»iii
Vale a pena determo-nos um pouco sobre o Portugal de 1983. Cerca de um mês e meio antes do referido festival, tomara posse o IX Governo Constitucional, o chamado governo do Bloco Central, composto por uma aliança entre o PS de Mário Soares e o PSD de Carlos da Mota Pinto. A situação económica e social era caótica e, em meados de Agosto, o Governo assinou uma «carta de intenções» com o FMI, um acordo para o que seria a segunda intervenção em Portugal daquela instituição desde o 25 de Abril. O impacto conjugado da débil situação económica e financeira e das medidas ultra-austeritárias do FMI foi brutal: inflação à volta dos 30 por cento, congelamento de salários e do investimento público, falências e despedimentos em catadupa, dezenas de milhares de trabalhadores com salários em atraso, quebra abrupta do consumo interno, etc. Ficaram na memória algumas declarações do primeiro-ministro Mário Soares, como «Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos»iv ou a célebre «Os problemas económicos em Portugal são fáceis de explicar e a única coisa a fazer é apertar o cinto»v.
Num tal ambiente, era o conflito, e não a paz, que estava na ordem do dia. A «violência do dia-a-dia» de que falava Tim era o substrato da ressaca pós-revolucionária, com todo o seu cortejo de desilusões e frustrações. No lugar do sonho da «cidade sem muros nem ameias» instalara-se a sensação da ausência de futuro. E os Xutos, ainda longe da condição de «instituição» que atingiriam daí a uns anos, eram actores nesse cenário. É desse período a canção «Futuro» – embora tenha sido editada apenas em 1990, no álbum Gritos Mudos – que, traduzindo o ar dos tempos, dizia precisamente: «Futuro que era brilhante / Embaciou-se a pouco e pouco / Os passos ficaram lentos / Dando certezas de louco / O desencanto é tão seco / Como a luz que me rodeia / E as coisas que não fiz / Envolvem-me como a teia.»
Em 1983, reduzidos a trio, depois do fracasso comercial de um álbum e dois singlesvi, os Xutos carregavam o fardo do desencanto. E o desencanto resultava não apenas da circunstância de terem sido apanhados no refluxo do chamado «boom do rock português»vii, mas sobretudo porque esse refluxo era uma das componentes de um viver quotidiano cada vez mais castrador e claustrofóbico. A vida era dura, e a música dos Xutos reflectia essa dureza. Mais: os Xutos, eles próprios, eram personagens das suas canções. Em 1983, Tim saltava de emprego em emprego, enquanto tentava terminar a licenciatura em Agronomia, Zé Pedro era escriturário e Kalú trabalhava na pequena empresa corticeira da família. Este último, mais de 20 anos depois, quando perguntado sobre como surgira a canção «Homem do Leme», respondia: «Foi uma das primeiras músicas que o Tim fez para a banda. Não sei bem porque é que ele a escreveu, mas revela os problemas sociais daquela altura. Éramos da classe operária e sentíamos as dificuldades naturais dos trabalhadores.»viiiManter, naquele contexto, uma banda de rock com pretensões de perenidade, recusando concessões estéticas e políticas, pareceria naturalmente uma tarefa impossível. Mas era justamente a determinação de seguir por esse caminho, apesar do desencanto, que constituía a estratégia de intervenção no conflito. Esta história, porém, começa uns anos antes, ainda na segunda metade da década de 1970.
Dantes, o tempo corria lento
Costuma-se localizar o início da história dos Xutos em 13 de Janeiro de 1979, no célebre concerto nos Alunos de Apolo, mas vale a pena recuar uns meses, até ao momento em que Zé Pedro, no meio de um InterRail, assiste a um festival punk em Mont-de-Marsan, em França, onde viu, entre outros, os The Clash: «Cheguei lá uns dias antes, Mont-de-Marsan era quase uma aldeia e as pessoas trancaram-se em casa com medo. Quando os punks começaram a chegar foi a grande confusão, entravam nas poucas lojas que tinham ficado abertas e aviavam-se sem pagar. (…) No terceiro dia do festival foi o Lou Reed. Entrei à borla, foi uma sorte porque os franceses tinham uma segurança com um ar super-organizado que conseguia manter as pessoas cá fora a cinquenta metros das portas, tinham isolado os acessos às portas com grades… e, mal o espectáculo começou, fecharam as portas da praça de touros. Aí começou o assalto – cocktails Molotov a voar, bidões de gasolina a arder (…) Quando voltei rapei o cabelo todo, meti um alfinete na boca (…)»ix
Se em Inglaterra o chamado movimento punk explodia como reacção ao establishment cultural e político, e na verdade à decadência de toda uma civilização que via implodir as expectativas de um futuro radioso e de progresso em que assentara o capitalismo dos «30 anos gloriosos» do pós-guerra, as particularidades da situação portuguesa acrescentavam alguma complexidade ao problema. Se havia coincidência na sensação de ausência de futuro, em Portugal essa sensação decorria do impacto no quotidiano do percurso de uma revolução que, apenas quatro anos antes, se construíra justamente a partir de uma promessa de futuro. Se é verdade que só com alguma generosidade se pode falar de algo como um movimento punk em Portugal – na verdade, até faria mais sentido dizer Lisboa… – no final dos anos 1970, seria muito apressado concluir que a pequena movida de umas poucas dezenas de pessoas que formavam bandas, produziam fanzines, trocavam discos, etc., não tinha a capacidade de traduzir um sentimento que se generalizava muito para lá dos seus intervenientes. Era um profundo tédio a marca de uma vida quotidiana cuja expectativa mais optimista que era capaz de gerar era a de uma vidinha previsível e vazia, da escola para o trabalho, do trabalho para casa. «Submissão», uma das primeiras canções dos Xutos – ainda que só tenha sido editada mais tarde, no lado B do single «Se Me Amas», de 1989 –, cantada por Zé Pedro, dizia: «Eu deixei a escola e fui trabalhar / Mas é pior do que andar a estudar / São oito horas por dia, é muito a aturar / É tanto tempo que nem dá para pensar».
A tensão entre o risco de uma vida miserável e a possibilidade do remedeio do trabalhinho honesto expressava uma oposição que era recusada à partida, e o que se questionava era precisamente um modo de viver que fazia depender uma eventual felicidade futura do sacrifício castrador do presente. E, também por isso, perdia sentido sequer tentar imaginar o futuro; do que se tratava era, pelo contrário, da negação prática, quotidiana, do tédio do presente, da recusa das meias tintas. Como se cantava em «Quero Mais», lado B do single «Sémen», de 1981, «Eu sei lutar até ao fim / É tudo ou nada». Na sua primeira aparição na TV, em Agosto de 1981, no programa da RTP Haja Música, à pergunta «Além da música, em que é que acreditam: têm alguma ideologia, alguma religião?», Zé Pedro respondia: «Eu, quanto a mim, reajo em cima dos acontecimentos, não é preciso haver nada estabelecido. Um gajo apresentar-se como ele é. Não há padrões»; a que acrescentava Tim: «Não há linha de orientação.»x
Numa curta-metragem de 1987, Um dia destes…xi – em que os próprios Xutos são protagonistas, com Anamar, Manuel Mozos, entre outros –, Edgar Pêra traça um retrato impressivo de um dia banal na vida da cidade nos tempos da «normalização democrática». Por entre uma sucessão rocambolesca de mal-entendidos acerca do desaparecimento de 250 contos que o paquete de uma loja deveria depositar no banco, um grupo de pessoas prepara, para o fim do dia, uma festa com um concerto de uma banda de rock – os Xutos – numa oficina automóvel, aproveitando a circunstância da previsível ausência do patrão. As várias personagens vão-se cruzando, de uma forma ou de outra, ao longo do dia e mobilizando para a noite, acabando todos por se encontrar na festa. Na sequência de uma queixa pelo desaparecimento dos 250 contos, o dono da oficina acaba por aparecer com a polícia, e termina a festa. No subtexto da trama está a claustrofobia do quotidiano, do trabalho para ganhar a vida, e a estratégia de fuga, a supressão do tempo mecânico do dia-a-dia pela quimera voraz do gozo e da festa, com tudo o que isso implicava de conflito e cumplicidades, de polarização e de imprevisibilidade. Como afirma Zé Pedro, numa peça do jornal Blitz de 1985, «"Renunciar ao estado de gozo é o pior que pode acontecer" – diz. – "É a tal cena da ganza e da ressaca: há os que optam por não se ganzarem para não terem ressacas e há os outros"»xii. «Dantes, o tempo corria lento, meu / Dantes, matava-se o tempo teu / Mas tudo isso passou / Foi o tempo que me matou», cantava-se em «Dantes», segunda faixa do álbum 1978-1982.
A história do segundo concerto da vida dos Xutos, que assinalava os 11 anos do Maio de 68xiii, em 5 de Maio de 1979, com os Raios e Coriscos, os Minas & Armadilhas e os Aqui d'El Rock – uma banda punk de marginais do Bairro do Relógio que chegou a editar dois singles, um deles, de 1978, com o significativo título «Há que Violentar o Sistema» –, no Liceu D. Pedro V, fornece uma imagem intensa da produção desse tempo suspenso, sem futuro, o tempo da cumplicidade, do gozo e da festa. Leia-se, por exemplo, o que escrevia Pedro Ferreira, na edição de Maio de 1979 da revista Música & Som, a propósito deste concerto: «Há quem não tome o fenómeno Punk a sério. O recente concerto no Liceu D. Pedro V, em Lisboa, pôs uma vez mais em causa essa atitude. O Punk tem uma vitalidade própria, como prova o aparecimento de novos (poucos, é pena) grupos do género, como o Raios e Coriscos, o Minas & Armadilhas SARL e o Xutos e Pontapés, que actuaram conjuntamente com o Aqui d’El Rock no Liceu referido. (…) Voltando ao concerto, foi significativo um dos verdadeiros rebeldes ter pedido o microfone para dar um grito; no fundo, o denominador comum daquela malta era o grito de "estamos vivos". Mas a comunicação entre o grupo no estrado e a audiência era unívoca, porque o som nebuloso e esmagador apagava a contestação, o pluralismo, ao mesmo tempo que criava a atmosfera intemporal do milagre: o cigarro que se pede, a cerveja que se bebe, os teus olhos nos meus olhos… milagre afectivo, comunicação outra entre indivíduos flutuando nas nuvens de ruído amigo, milagre musicalmente passivo, milagre na superfície… o Punk à superfície do milagre!»xiv Ainda a propósito desse concerto, relata Zé Pedro: «Estavam lá os punks da Amadora, gostaram tanto que não nos largaram porque queriam que fôssemos partir montras com eles para a Av. de Roma.»xv
Cercados na cidade
Há duas referências bastante recorrentes nas canções dos Xutos, sobretudo até ao terceiro quarto dos anos 1980: a cidade e o rio. Não é difícil imaginar que é do cenário concreto das suas vivências que se fala, da Zona Oriental de Lisboa, onde crescera e vivia Zé Pedro, a Almada, onde vivia Tim. Mas a verdade, porém, é que a cidade e o rio que surgem nas canções dos Xutos não são nunca nomeadosxvi. Se o rio é aqui visto como uma espécie de barreira que se interpõe entre duas margens sem esperança – por exemplo, em «Longa se Torna a Espera» (1984), «E quando eu apanhar finalmente / O barco para a outra margem / Outra que finde a viagem / Onde se espere por mim / Terei, terei mais uma vez a força / Para enfrentar tudo de novo / Como a galinha e o ovo / Num repetir de desgraças», ou em «Desemprego» (1987), «Sentado à beira do mar / Ouvindo as ondas rolar / E uma gaivota no ar / Flecte as asas ao virar / Dá-me um sinal p'ra voltar» –, já a cidade é a abstracção que designa o palco do conflito quotidiano – por exemplo, em «Cerco» (1985), «Quando o céu escurecer / E quando o chão reflectir / O colorido da cidade / Os ratos saem da esquadra / Defendendo a sociedade / E andam para a frente / E andam para trás / E o que magoa também satisfaz / E olham para um lado / E olham para o outro / E vêem-me a mim / Estou cercado / Na cidade», ou em «Esta Cidade» (1987), «A polícia já tem o meu nome / Minha foto está no ficheiro / Porque eu não me rendo / Porque eu não me vendo / Nem por ideais / Nem por dinheiro / E como eu sou e quero ser sempre assim / Um rio que corre sem princípio nem fim / O poder podre dos homens normais / Está a tentar dar cabo de mim».
A cidade abstracta das canções dos Xutos é então o cenário da repressão e do confronto com o poder, e os rostos desse poder são, em vários casos, como nos dois exemplos referidos, explicitamente o Estado e a polícia. Essa identificação clara do «outro lado da luta»xviiencontrava eco no posicionamento da banda face aos aspectos marcantes da situação política da época. Veja-se, por exemplo, a declaração de Zé Pedro, na abertura de um concerto no Rock Rendez-Vous, a 6 de Julho de 1984: «"Esquadrão da Morte", e nós lembramo-nos das FP-25 quando tocamos.»xviii E seguia a canção: «Por não querer aquilo que me é dado / Por não querer nem governo nem Estado / Por não ter nada e por tudo querer / Esquadrão da morte faz-me correr.» Note-se que, no mês anterior, tinha ocorrido aquela que ficou conhecida como a «Operação Orion», uma operação policial de grandes dimensões que resultou na detenção de cerca de 40 pessoas alegadamente associadas às FP-25.
A vida que se joga sem nenhuma razão
Para todos os efeitos, a mundividência dos Xutos seguiu sempre muito a par do viver quotidiano dos seus membros que, por sua vez e como será natural que suceda, é inseparável dos altos e dos baixos, dos sucessos e fracassos, de um percurso de 35 anos, que no caso dos Xutos é tudo menos linear. Quando, no início de 1987, editam o álbum Circo de Feras, o primeiro para uma editora multinacional e que abriria uma fase de enorme popularidade que duraria, grosso modo, até 1989/90, os tempos da banda de culto, de certa forma marginal, de combate, começavam a ficar para trás e inaugurava-se a era da banda profissional, reconhecida, tomada como uma espécie de porta-voz de uma geração tida como capaz de, com determinação e perseverança, enfrentar as dificuldades e ser bem-sucedida. Ainda que diferente do tom mais pop e optimista do álbum seguinte, 88, Circo de Feras é uma espécie de álbum de transição em que coexistem canções como «Esta Cidade» (já referida acima) e outras marcadas pela afirmação da esperança, como «Contentores» («É uma escolha que se faz / O passado foi lá atrás / E nasce de novo o dia / Nesta nave de Noé / Um pouco de fé») ou «Não Sou o Único» («E quando as nuvens partirem / O céu azul ficará / E quando as trevas se abrirem / Vais ver, o sol brilhará»). E, efectivamente, o sol brilhou. Ao longo de 1987, 1988 e grande parte de 1989, os Xutos percorrem o país com centenas de espectáculos, das aldeias recônditas do Interior aos pavilhões esgotados das grandes cidades. O 7.º Single, que inclui o mega-êxito «Minha Casinha», ultrapassa os 50 mil exemplares vendidos, tornando-se disco de platina, tal como sucede com os álbuns 88 e Ao Vivo. Os Xutos apanham finalmente o comboio da fama – uma geração inteira, rendida aos seus heróis, a cantar a «Casinha» e a «Maria».
E no entanto, quando nada o faria prever, o «repetir de desgraças» regressa. As vendas de discos desaparecem, os grandes concertos desaparecem, o público desaparece. Entre 1990 e 1995, os Xutos voltam a atravessar o calvário do desencanto. O álbum Gritos Mudos, editado em 1990, resulta num enorme flop comercial. O público já não aderia como antes, e os Xutos voltam às salas pequenas, com audiências que raramente ultrapassam as poucas centenas de pessoas. Tal como Circo de Feras, uns anos antes, Gritos Mudos é também um álbum de transição, mas desta vez ao contrário: enquanto o primeiro antecipava o sucesso, este parecia antecipar o abismo. Além de recuperar canções antigas nunca antes editadas como «Futuro» (já referida acima) ou «Gritos Mudos» («Gritos mudos chamando a atenção / Para a vida que se joga sem nenhuma razão»), o álbum incluía canções como «Gente de Merda» («Quero sair, mas não sei por onde / Não quero ficar, mas vou ficando / Vou arrastando toda esta angústia / Já não tenho forças») ou «Melga», uma crítica às políticas de Fernando Collor de Mello, presidente à época do Brasil, onde o álbum foi gravado («Já farto de ouvir promessas / Pensas que ainda vou nas conversas / De alguém que p'ra mim é uma melga»).
Numa entrevista ao Blitz, em Julho de 1990, as palavras de Tim transpiram um certo ambiente de amargura que a banda vivia, na decorrência quer do problema da queda das vendas e da popularidade quer das tensões internas que isso provocava: «(…) porque depois do trabalho que tivemos com a preparação do disco (…), agora que o disco está publicado, está tudo a bater ao lado… (…) Eu acho que o que faz o culto de uma banda é o trabalho dela. Quando isso é massificado, como no nosso caso, transforma-se em objecto de venda. Em certa fase foi isso que aconteceu. (…) Estou perfeitamente à vontade, até por não ter sido eu a criar esse culto, mas o público e a Imprensa. Por outro lado, no nosso caso, quero acreditar estarmos numa situação de transição. (…) os princípios nunca se devem expor, nunca se devem cristalizar. O que deve ser encarado é que há mudanças, ou para melhor ou para pior. Essas mudanças têm sempre contrapartidas e uma das contrapartidas que se tem é perder-se o culto ou uma certa franja de público.»xix
No Verão de 1990 estreia, no Clube Estefânia, a peça de 1978 Inimigosxx, do inglês Nigel Williams, encenada por José Wallerstein, com banda sonora dos Xutos, com a canção «Tu Aí». Numa escola de uma zona degradada dos subúrbios de Londres, meia dúzia de adolescentes são deixados entregues a si próprios numa sala de aula. Enquanto esperam a chegada do professor, inventam eles próprios estratégias de ocupação do tempo, acabando por traçar aquilo que, para uma classe média bem-sucedida, seria o retrato da forma como as classes desfavorecidas se viam a elas próprias. Explica o encenador: «Inimigos fala de uma sociedade democrática institucionalizada, com classe média desenvolvida, com operariado já instalado, é uma peça do "pré-Tatcherismo", não é? Aliás, eu acho que há um paralelismo entre essa situação e a situação política "cavaquista" que nós vivemos presentemente. Inimigos fala da massificação da INSTITUIÇÃO e dos problemas que se colocam às pessoas que vivem – e são a grande maioria – nas franjas das grandes cidades.»xxi De novo o tema da cidade, agora já numa situação diferente, perante novos problemas, que, no caso dos Xutos tinha de novo uma tradução na angústia de um futuro incerto: «Tu aí! / Espero alguém chegar / Queres assim / Alguém p'ra me orientar / Ficas aí? / Tenho que me aguentar / Até ao fim / Será que me vou salvar?»
Com os dois álbuns seguintes, Dizer Não de Vez e Direito ao Deserto – gravados em simultâneo mas editados, respectivamente, em 1992 e 1993 –, parece assistir-se a uma espécie de regresso dos Xutos às origens, a uma postura de combate e contestação, de amplificação dos problemas sociais e das lutas necessárias, mas igualmente de afirmação da determinação de, enquanto banda, não ceder à lógica do sucesso e às suas vicissitudes. Numa entrevista à revista Ritual, no início de 1993, afirmam: «É dizer NÃO a uma série de atitudes conformistas e passivas que nos têm estado a habituar a ter, como pessoas. Cada vez mais, as pessoas são iguais umas às outras, os problemas de uns são semelhantes aos dos outros, e anda-se a tentar oferecer às pessoas um ideal de vida que é casa-trabalho-trabalho-casa, e ainda por cima, compras um carro para ficares mais empenhado, teres que trabalhar mais… (…) Ainda nos incomoda essa posição de objectos de consumo. (…) Em certa medida, é um regresso às origens (…) Neste disco fizemos o que nos estava a apetecer fazer, o que nos deu na cabeça. (…) Conseguimos abstrair-nos da importância daquilo que estávamos a fazer e da importância que as pessoas lhe poderiam dar. E este tipo de abstracção só o conseguimos fazer até ao Cerco. A partir do Circo de Feras, todos queriam saber o que os Xutos & Pontapés iam fazer e isso começou a pesar de tal maneira que nos demos muito mal com essa história. (…) já não jogavas pelo prazer… Era só pela receita!»xxii
Os problemas sociais, mas também um certo sentido de luta e solidariedade, regressam em força às canções dos Xutos, como em «Dia de S. Receber» («Este dia a dia é duro / É duro de se levar / É de casa p'ró trabalho / E do trabalho p'ró lar // Já não chega o que nos tiram / À hora de pagar / É difícil comer solas estufadas ao jantar / De histórias mal contadas / Anda meio mundo a viver / Enquanto o outro meio / Fica à espera de receber»), «Velha Canção da Cortiça» («O sobreiro desnudado / Enfrenta o sol com a mesma estupidez / Com que um operário cansado / Regressa a casa mais uma vez / E tudo, tudo, se repete / E tudo, tudo, se repete / No ciclo da produção / Acelera-se o consumo / Para dar a sensação / De que esta vida tem rumo / E tudo, tudo, se repete / Seja em nove anos ou num só dia / Só nos velhos se reflecte / O extorquir da mais valia») ou «Direito ao Deserto» («Triste sina / De quem se julga mais fraco / A vossa sina / Ó carneirada mole / Ajudem-se / Ajudem-se / Não tenho medo dos lobos / Nem paciência para o teu pastor / Ovelha negra / Carneiro preto / Eu vou direito ao deserto»).
Evidentemente, os Xutos dos anos 1990 já não são os Xutos da década anterior. Não só toda a envolvente era diferente como o percurso sinuoso da banda até aí determinara problemas de outra natureza. Como é óbvio, estar atento aos problemas sociais, e reflectir essa observação nas canções que se escreve, não é a mesma coisa que ser actor do conflito quotidiano que esses problemas traduzem. Numa entrevista ao Independente no final de 1993, Zé Pedro explica o que mudou: «O que é que mudou na vida real? Agora somos profissionais da música e antigamente não éramos. De facto, agora as preocupações são outras. Sei lá, já não precisamos de andar de táxi.» E Tim acrescenta: «Nunca soubemos nem sabemos o que nos pode acontecer. As incertezas existem sempre. Dantes era o dinheiro para o táxi, agora é saber se temos dinheiro para fazer uma série de concertos em França. Coisas desse género.»xxiii
O que foi não volta a ser, mesmo que muito se queira
O final de 1995 marca o início de um novo percurso de sucesso que se mantém até hoje, com a edição do álbum Ao Vivo na Antena 3, uma revisitação de canções do já então vasto repertório da banda arranjadas em formato acústico. Uma momentânea inflexão estética revelou-se de grande eficácia do ponto de vista comercial. Mas esta nova fase de sucesso é fundamentalmente diferente da anterior, da do final dos anos 1980. Se nessa altura os Xutos eram vistos como uma espécie de porta-vozes de uma geração, dos seus anseios e expectativas, o que agora se iniciava era a elevação dos Xutos à condição de «instituição nacional». A partir daí, não era já apenas uma geração que os via como heróis, mas toda uma nação que os reconhecia como seus símbolos. O processo de «nacionalização» dos Xutos tem um ponto alto na comemoração dos 20 anos da banda, no início de 1999, com a edição de uma fotobiografia e da colectânea XX Anos XX Bandas, um álbum de tributo de 20 bandas e artistas nacionais, mas sobretudo com um concerto num praticamente esgotado Pavilhão Atlântico, a 20 de Março. Dois dias depois, no jornal Público, descreve-se o ambiente, numa peça significativamente intitulada «Uma festa portuguesa»: «Entre o público que quase encheu anteontem à noite o Pavilhão Atlântico, viu-se muita gente com a bandeira portuguesa pelos ombros. Afinal, era de uma celebração nacional que se tratava. Não eram apenas os 20 anos de uma banda, mas sim os 20 anos da mais portuguesa das bandas rock. Foi por isso apropriado que o concerto de aniversário dos Xutos & Pontapés tivesse acontecido no Parque das Nações, em Lisboa – tal como a Expo-98, os Xutos transformaram-se numa glória nacional. Não é que eles sejam uma banda nacionalista, ou que o concerto de sábado fosse concebido como uma exaltação patriótica. Mas, ao fim de 20 anos, os Xutos tornaram-se numa fonte de orgulho pátrio, alcançando um estatuto único no rock português. Há uma "portugalidade" intrínseca à banda de "Gritos Mudos" (…) Com toda a gente a seu lado e as luzes já acesas, os Xutos terminaram em apoteose com "A Minha Casinha", a mais lusitana das canções, cantada em coro pelo público. Depois do final, no caminho para casa, ainda se ouve no metropolitano um grupo de jovens a cantar o hino nacional e a gritar "Portugal, Portugal". Uma festa portuguesa, portanto.»xxiv
Cinco anos depois, a 10 de Junho de 2004, os Xutos seriam agraciados pelo Presidente da República Jorge Sampaio, em conjunto, entre outros, com a especialista em culinária Maria de Lurdes Modesto, com o grau de comendadores da Ordem de Mérito, que distingue «actos ou serviços meritórios que revelem desinteresse ou abnegação em favor da colectividade, no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas».
A partir daí, pode dizer-se, tudo o resto é história, e é uma história bem conhecida. O que, porventura, estará ainda por reflectir é o que terá sucedido para que uma banda cuja marca era o dissenso e a ruptura se tenha tornado símbolo de um consenso que, naturalmente, esbate as fronteiras que dividem os conflitos do quotidiano, que torna indistintos os «lados da luta». Não é fácil encontrar alguma indicação nesse sentido nas canções dos Xutos até ao final dos anos 1990 (nem mesmo depois disso…). Talvez uma análise mais aprofundada das condições políticas, sociais e culturais do Portugal da segunda metade dos anos 1990 possa fornecer algumas pistas, mas essa reflexão terá de ficar para uma próxima oportunidade.
Será então que podemos afirmar que os Xutos perderam a sua, digamos assim, veia contestatária e interventiva? Não necessariamente. Aliás, podemos encontrar esse olhar crítico em várias canções dos últimos anos. Veja-se, por exemplo, a canção «Ligações Directas», do último álbum da banda, Puro, sobre os recentes cortes de energia do Bairro do Lagarteiro, no Porto: «Quanto mais têm mais querem de mim / Como o gasóleo tudo pode subir / Só o teu salário continua a descer / Tu não crês em ligações directas / Olha aqui estas feridas abertas / Por onde escorreu o nosso dinheiro / E se derreteu um futuro inteiro / Tu, morrer de fome e de frio primeiro / Aqui no bairro do Lagarteiro.» Ou «Sem Eira nem Beira», do álbum homónimo de 2009: «Senhor engenheiro / Dê-me um pouco de atenção / Há dez anos que estou preso / Há trinta que sou ladrão / Não tenho eira nem beira / Mas ainda consigo ver / Quem anda na roubalheira / E quem me anda a foder.» É, porém, significativa a polémica que se gerou a propósito desta última canção quando, por razões que são óbvias pela referência ao «senhor engenheiro», foi vista como uma espécie de manifesto contra o primeiro-ministro de então, José Sócrates, intenção de imediato recusada pela banda. Pode ler-se numa peça do jornal Público: «Interpretar esta faixa, cantada pelo baterista Kalú, como um hino contra as políticas do Governo socialista é "deturpar" a intenção do grupo. "Não há aqui alvos a abater", diz [Zé Pedro], em resposta ao facto de o refrão começar com a frase Senhor engenheiro, dê-me um pouco de atenção. "Não queremos fazer um ataque político a ninguém. A letra exprime mais um grito de revolta. E é um alerta para o estado da Justiça e para uma classe política em geral que, volta e meia, toma atitudes que deixam os cidadãos desamparados", justifica. (…) Zé Pedro, que, diz, até "simpatiza" com o primeiro-ministro José Sócrates, aponta ainda que quando Tim, o vocalista, escreveu o texto para a música de Kalú, tiveram de optar entre "senhor engenheiro" e "senhor doutor": "Optámos por engenheiro por causa do actual primeiro-ministro, mas nunca quisemos fazer um ataque político directo."»xxv
Os Xutos que agora comemoram 35 anos de carreira são, evidentemente, diferentes dos Xutos que se lembravam das FP-25 quando tocavam «Esquadrão da Morte» ou que sentiam «as dificuldades naturais dos trabalhadores», tal como a realidade em que produzem a sua música mudou profundamente. Goste-se mais ou menos dos Xutos tornados símbolos nacionais, consensuais mesmo quando as suas canções são mais críticas, seria patético tanto qualquer tique saudosista quanto qualquer juízo moralista. Isso só poderia resultar de uma visão que atribui à arte e aos artistas um papel redentor que manifestamente não têm. Os Xutos de 1984 não salvaram a revolução e os Xutos de 2014 não salvarão a nação. O que porventura fará sentido, aproveitando a data redonda, é reflectir sobre a forma como a arte e os artistas se produzem em relação com a realidade quotidiana concreta, bem como, em sentido inverso, intervêm na produção dessa mesma realidade. E para essa reflexão, a história dos Xutos – toda a história dos Xutos – pode fornecer um excelente contributo.
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