domingo, 18 de fevereiro de 2018

Alice Capela


Alice Capela

N. 1941

Uma extraordinária história de vida clandestina na Resistência, que começou na infância e só terminou com a Revolução: décadas de coragem e dedicação ao trabalho clandestino nas tipografias do PCP e cinco anos passados na prisão de Caxias.

15 Outubro, 2017
Helena Pato

De cada vez que montavam uma casa clandestina, os funcionários do PCP tinham de inventar um novo perfil de vida familiar. Alice, levada para a clandestinidade com 12 anos, viu interpretar e assumiu muitos personagens. Com 13 anos viveu o primeiro duro golpe: o pai foi preso, muito torturado e condenado a nove anos de cadeia. Sozinha com a mãe, fugiram para um ponto de apoio do
partido e, pouco depois, tiveram de se separar. Sem descanso, Alice seguiu na luta, foi presa, muito torturada pela PIDE, impedida de contactar o filho e o marido e, por fim, condenada em Tribunal Plenário a anos de prisão. A vida de Alice está entrelaçada com a história das tipografias clandestinas do Partido Comunista Português. Alice Capela é uma mulher doce e forte.

Biografia


Maria Alice Diniz Parente Capela

Maria Alice Diniz Parente Capela nasceu (frágil) na Póvoa de Santa Iria, em 1941, filha e neta de militantes do PCP. O pai, operário, era militante, assim como a mãe e a avó. Apesar dos seus escassos meios de subsistência, tudo o que tinham era disponibilizado ao partido e a sua casa era um “ponto de apoio” para a luta clandestina. O pai de Alice entrou para a clandestinidade quando ela tinha 10 anos. A mulher e a filha segui-lo-iam um ano depois. Aos 12 anos, Alice já estava numa “casa do partido”:

Éramos três filhos e não pudemos ir todos. Como eu era fraquita dos pulmões fui eu, com grande dor da minha mãe”

A avó de Alice, também operária, ficou com os outros dois netos, de 13 e sete anos[1].

Aos 16 anos, em 1957, começou a trabalhar numa tipografia clandestina. Em 1958, foi com a mãe para uma «casa» onde também vivia Joaquim Carreira[2]. Depois da prisão deste, foi viver sozinha com Adelino Pereira da Silva. Quando tinha 18 anos, Dias Lourenço, histórico dirigente do PCP, levou-a para viver numa casa com Adelino Pereira da Silva e disse-lhes que simulassem um casal. Ao fim de três meses eram companheiros de facto[3]. Seguiu-se o inevitável numa altura em que não havia ainda a pílula e a contracepção era bastante falível: Alice engravidou. Em 1960 teve o seu único filho, Alfredo. Um parto em casa, com grandes dificuldades.

Vida nas casas clandestinas

Nas casas clandestinas por onde passou, Alice (pseudónimo Olga, em homenagem à companheira de Carlos Prestes) teve como tarefas principais apoiar o trabalho dos camaradas da direcção do partido, dactilografando textos e colaborando com artigos para as edições “3 Páginas” e “A Voz das Camaradas”. Foram-lhe criadas condições especiais para estas tarefas. Os camaradas arranjaram-lhe uma máquina de escrever e fizeram uma caixa em madeira com tampa amovível e com um visor em vidro (acolchoada interiormente para evitar a propagação do barulho), onde se ajustava a máquina, ficando apenas de fora o teclado, assente numa base também acolchoada, e o manípulo para fazer correr o carrinho do teclado.

Outra das tarefas de Alice nas tipografias era a de revisora de provas, após a impressão da folha ou folhas de prova.

Em Janeiro de 1963, ela e o companheiro desconfiaram que estavam prestes a ser descobertos[4] e saíram precipitadamente da casa que habitavam, levando as roupas e os papéis importantes. Porém, chegados à casa nova, Adelino deu conta de que esquecera documentos importantes e, embora contrariado pela companheira, voltou atrás, sendo então preso. Após a prisão dele, durante todo o ano de 1963, Alice passou por várias casas “pontos de apoio”, até acabar por voltar a juntar-se à mãe numa casa que funcionava como tipografia [onde se imprimia a propaganda e a imprensa clandestina do PCP]. Nessa casa ilegal da Damaia residiram Alice, o filho de dois anos, a sua mãe, Aurora Piedade Diniz, e um camarada, Duarte Pinto.



Adelino Pereira da Silva, a mãe de Alice Capela, a funcionária do PCP Aurora Dinis e o filho

Em 1964 mudaram para a Charneca do Lumiar, onde funcionava uma outra tipografia clandestina e foi então que Alice ensinou Duarte a compor e imprimir. Ali ficaram nessas actividades – o filho, com quatro anos, “estava muito bem instruído, e muito cedo percebeu os cuidados que tinha de ter” – até que, em Dezembro de 1964, foram os três presos[5].

Prisão


Alice, na sede da PIDE, em Dezembro de 1964, quando foi presa

Levados para Caxias, ela e a mãe foram colocadas juntas, numa mesma cela e com o menino. Alice não largava o filho, levando-o até para os interrogatórios. Chegou o dia que ela receava: a PIDE avisou-a de que se não arranjasse ninguém para ficar com ele, o enviavam para um asilo. Alice não sabia a quem o entregar, já que todos os familiares próximos estavam presos: o pai da criança (Adelino), os avós maternos e os avós paternos. Contactou o irmão mais velho, já casado, pediu-lhe que ficasse com o pequeno e ele assentiu. Passados 15 dias o tio trouxe-o à visita, no parlatório, mas Alice não foi autorizada nem sequer a dar-lhe um beijo.


Alice Capela com o filho Alfredo

Disse-lhe que tinha muitas saudades e ele respondeu: Já conheço o paizinho. O paizinho é bonito”

O tio tinha-o levado a Peniche para conhecer o pai.

Torturam-na, mas Alice não falou, não disse nada.

Estive cinco dias e cinco noites na tortura do sono. Não me podia sentar, nem deitar, tinha alucinações, via uma carantonha a sair da parede e depois via o meu bebé e estava a embalá-lo. Desatei aos gritos e eles enfiaram-me uma toalha molhada na cabeça. Eu gritava “assassinos, assassinos” e eles esbofeteavam-me, davam-me murros, atiravam-me contra a parede, insultavam-me, “puta, cabra”, diziam que eu estava amantizada com fulano de tal e que já tinham dito ao meu companheiro. “Ao teu filho vais vê-lo morto” e eu pensava nele (…). Queria ficar louca para aquilo terminar. Depois mudaram de táctica, apareceu um tipo que era a cara do Adelino, eu sabia que era um pide, mas ele com muitas amabilidades, a ver se me fazia falar, [com aquela delicadeza era perigoso, com outras podia resultar, mas eu desde pequenina que tinha sido avisada daquilo tudo]. Sempre disse que tinha ideia de que se fosse presa não falaria nunca, que tinha a certeza que não ia falar. O que me dava força era ouvir aqueles gritos dos nossos camaradas presos em Caxias que viam que eu estava a sair e que não tinha falado”

O sofrimento de Alice deixou-lhe marcas profundas[6].

Estava presa no Forte de Caxias há um ano e meio quando, no dia 6 de Abril de 1966, casou com Adelino Pereira da Silva, então a cumprir pena na Cadeia do Forte de Peniche. A ditadura fascista não reconhecia como legítimos filhos gerados fora de um casamento, pelo que ou Alice e Adelino oficializavam a sua união ou não podiam ver o filho.

Tivemos que nos casar por procuração, ele na prisão de Peniche, eu na prisão de Caxias.”

Não se viram no dia do casamento. Só depois de casar puderam começar a corresponder-se. As cartas, entre a cadeia de Caxias, onde ela se encontrava presa e o Forte de Peniche, onde ele estava, eram quase exclusivamente sobre o filho, Alfredo, que foi andando de casa em casa, acolhido por familiares e amigos.

Depois, já em liberdade


Alice, o marido, Adelino, com quem casou por procuração, ela na prisão de Caxias, ele na prisão de Peniche, e o filho, Alfredo, só voltaria a juntar-se em 1970.

Alice esteve presa cinco anos, saiu em liberdade condicional em Setembro de 1969 e, só depois, Adelino[7]. Quando foi libertada o filho tinha quase 10 anos.

Foi muito estranho, não sabia o que fazer, apanhei um táxi para Entrecampos e de lá o comboio para a Póvoa de Santa Iria, e falava alto com as pessoas no comboio, era a hora a que regressavam do trabalho, dizia o que me tinha acontecido… Bati à porta, o Alfredo vem a correr e agarrámo-nos ao pescoço um do outro e rodámos, rodámos, rodámos, ele dizia: «mãezinha, mãezinha, há tanto tempo que eu não tinha mãezinha»”

Corriam os últimos meses de 1970 quando Alice, Adelino e o filho se juntaram novamente, agora na legalidade, e puderam ter uma vida normal. Após a sua libertação, Alice ficara a viver na Póvoa de Santa Iria e, após a libertação de Adelino, foram ambos residir para o Barreiro.

Deu-se o 25 de Abril quando iam passar de novo à luta clandestina. Já não foi preciso.












NOTAS

[1]

Como eu era fraquita dos pulmões fui eu, com grande dor da minha mãe. (…) Foi um grande sofrimento para os meus irmãos, na cabeça deles a minha mãe escolheu-me a mim. Compreendo-os muito bem, os meus irmãos e todos os filhos de funcionários que tiveram de ser separados dos pais foram jovens que sofreram muito.”

[2] Joaquim Augusto da Cruz Carreira foi provavelmente o homem que manteve, durante mais tempo, ininterruptamente, uma tipografia clandestina a funcionar. [Para além de muitos anos de clandestinidade, conheceu por várias vezes as agruras do cárceres fascistas, totalizando 9 anos de prisão, em Caxias e Peniche].

[3] Dias Lourenço tinha pedido a Adelino Pereira da Silva que montasse uma casa clandestina, e explicou-lhe que vinha morar com ele uma mulher. Quando chegou à rua combinada, Adelino Pereira da Silva viu ao longe Alice com Dias Lourenço. E ela, ao vê-lo, pensou “que não podia ser aquele rapaz, não devia ser, seria demasiada sorte” – achou-o bonito.

[4] O traidor que denunciou Adelino e outros membros do PCP estava ligado ao sector estudantil. A PIDE tê-lo-á enviado para uma das colónias.

[5] Era a madrugada de 13 de Dezembro de 1964 quando lhes batem à porta. À pergunta «quem é?», do lado de fora responderam que era o leiteiro, mas «Àquela hora não podia ser, percebemos logo do que se tratava e começámos a queimar os papéis. Nisto, nove homens arrombam a porta com um pé de cabra e apontam-me uma arma, “Mãos no ar, somos da PIDE”. Eu e a minha mãe começámos a gritar quem éramos e o que se estava a passar para os vizinhos ouvirem. Mas eu não queria fazer muito barulho para não assustar o meu pequenino, de olhos esbugalhados a olhar para aqueles homens armados».

[6]

Não gosto de me lembrar disto, são memórias muito duras. Eu preparei-o, fazia-lhe um grande teatro, dizia que nos íamos encontrar depressa. No momento da separação, nas escadarias de Caxias, (…) ele gritava, os olhos cheios de lágrimas, deu um pontapé ao pide, que lhe respondeu com uma bofetada e eu gritei “bata-me a mim, mas não bata ao meu filho” e (…) dizia-lhe: “a mãezinha adora-te, depois quando sairmos daqui vamos fazer uma festa e a mãe vai contar-te muitas histórias”. Era pelo meu filho que fazia aquilo. Subia a escada e ouvia os gritos do Alfredo ao fundo”

[7] Julgado em Tribunal Plenário foi condenado a 4 anos de pena e às famigeradas “medidas de segurança” (de seis meses a 3 anos, prorrogáveis), que tiveram início em 1967. Foram sete longos anos de prisão, no Aljube, em Caxias e em Peniche, até à sua libertação em 1969.

Dados biográficos:

Público: Há vidas inteiras que contam a historia do país
Estudos sobre o Comunismo
Delas: Até Amanhã Mãe
Antifascistas da Resistência: Adelino Pereira da Silva

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Molho de tomate caseiro



Essa receita de molho de tomate caseiro é rápida e garante um alimento mais saudável, além de deixar o prato mais saboroso. Veja como preparar:
Ingredientes
3 a 4kg de tomates orgânicos bem maduros
- Água para bater
- 1 fio de azeite de oliva extra virgem
- 1 cebola picada
- Sal verde a gosto (receita no canal)
- 1/2 colher de sopa de açúcar mascavo ou demerara
Saiba mais: Tomate ajuda a prevenir o câncer de próstata
Modo de preparo

Corte grosseiramente os tomates e retire as sementes. Bata no liquidificador com um pouco de água, com pele e tudo. Refogue a cebola no azeite, adicione o sal verde e coloque o tomate batido.Pra tirar a acidez, adicione o açúcar.


Deixe refogar por 45 minutos em fogo baixo com a panela semi tampada, mexendo de vez quando. Se não for usar tudo logo, é só colocar em potinho e congelar.

VALIDADE: 3 meses no freezer -18ºC (geladeiras duas portas); 1 mês no congelador (geladeira uma porta); de 3 a 5 dias quando apenas refrigerado (geladeira).

O Sagrado Feminino


"Houve um tempo, em que todas as mulheres eram sagradas. E que eram vistas como deusas, como senhoras de seu próprio destino. Houve um tempo, em que o corpo era sagrado, em que o sexo era uma prece. Em que homens e mulheres respeitavam-se e reverenciavam-se. O Sagrado Feminino é uma tradição milenar, um estilo de vida que compartilha ensinamentos sobre nosso corpo, nossas emoções e nossos ciclos. Tais ensinamentos e muitas das suas práticas são realizados nos Círculos de Mulheres, que podem abranger todos esses temas ou se aprofundar em algum específico. Quando se fala em Sagrado Feminino, muitos já imaginam a exclusão do masculino. Pelo contrário, trata-se do Despertar da Consciência Divina, trazendo de volta a percepção de que toda forma de vida faz parte de um todo, inclusive o ser humano, homem e mulher. O Sagrado Feminino evoca a concepção de que a Divindade está também na vida manifesta, na matéria, nos animais, nos ciclos da natureza, nos seres humanos e na sexualidade. É um encontro de devoção para com a Vida. Coloque seus pés na terra, seu ventre para dançar, sinta os desejos do seu corpo, escute os desejos da sua alma..."


~ Marcella Nune
Att: Daniel Mirante


Momentos

Abri a janela
Bebi do teu sol
Estonteei
Estendi a mão
Não te cheguei
Cansei
No ar a leveza
E toda a certeza
Nas palavras ditas
Prescritas
Abri a janela
Apertei a fivela
Fechei a porta
Sem atritos
Momentos infinitos.


AC............... Alice Coelho
© All Rights Reserved



sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018


Foi tão curto o passeio
Pelas ruelas da cidade
Pisando um chão alheio
Dentro da tua fragilidade
Soltaram risos e sorrisos
Mãos atadas de instante
Motes soltos e improvisos
E gestos de luar aberrante
Foi um bocejo sem tempo
Estimulado pelo momento.


AC............... Alice Coelho
© All Rights Reserved

Leonard Cohen ♥ Lover, Lover, Lover ♥

Um achado sobre Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dôra Postado por Gabriel Vasconcelos em 18/ago/2017



UM EMOCIONANTE FILME que trata de uma médica que participou da luta armada, buscando resistir à ditadura militar, na década de 1970. O seu impressionante drama acabou quando ela se suicida em Berlim, de forma absolutamente trágica.

Antes de assistir o filme, acho importante ler a resenha do jornalista Paulo Nogueira, que foi companheiro da guerrilheira Maria Auxiliadora L. Barcelos, conhecida por "Dora".




“Além de constituir o relato mais completo de que tenho notícia sobre a guerrilheira, o filme é uma peça paradigmática do cinema militante, porque não se detém ao personagem alegórico e adota estratégias de forma e conteúdo raras para o seu tempo”

Há dois anos, Paulo Nogueira (DCM) escreveu artigo comovente sobre como descobriu tardiamente Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dôra, no documentário Brazil: A Report on Torture (1971), dos norte-americanos Haskell Wexler e Saul Landau. Indicação de sua filha, o filme foi realizado no Chile e reúne depoimentos sobre a tortura de integrantes do grupo de 70 militantes tro cados no sequestro do embaixador suíço pela luta armada na virada de 1970 para 1971.

Entre os “Setenta” estava a “jovem médica, bonita e articulada”, por quem Nogueira disse ter se apaixonado. Fisgado pela altivez com que Dôra denuncia as violações do regime militar, o jornalista fez rápida busca na internet para saber como ela estaria hoje. Descobriu, então, a sua tragédia. Cinco anos após aquelas filmagens, em junho de 1976, Dôra se atirou nos trilhos do metrô de Berlim Ocidental, pondo fim à própria vida. Tinha apenas 31 anos e sofria de depressão aguda.

Bem conhecida da militância por direitos humanos, a história penetra lentamente na memória coletiva. Gerações como a do jornalista e a de sua filha têm se deparado com Dôra em trechos de filmes, trabalhos acadêmicos, reportagens e perfis de vítimas da ditadura. Em 2010, durante congresso do Partido dos Trabalhadores, a última presidente eleita do país, Dilma Rousseff, homenageou a companheira de VAR-Palmares em discurso emocionado.

Ainda assim, chama atenção o desconhecimento do público sobre o filme Quando chegar o momento (1978), realizado pelo cineasta e amigo de Dôra Luiz Alberto Sanz.

Assim como ela, Sanz aderiu à luta armada (VPR), foi preso, torturado e banido como um dos “Setenta” para o Chile. Em 1973, após o golpe de Augusto Pinochet, enquanto Dôra seguiu para Bélgica, França e Alemanha, Sanz foi para a Suécia. No país escandinavo, trabalhou como estivador até conseguir um cargo técnico na cooperativa de cineastas Filmcentrum.

Como demonstrado na segunda parte do filme, Sanz teve sorte. Em geral, os exilados brasileiros só tinham acesso a atividades pouco intelectuais, porque suas formações não eram reconhecidas na Europa. Além disso, uma minoria conseguia acessar a universidade e voltar a estudar. Sem uma bolsa, precisavam trabalhar para sobreviver. No caso das mulheres, o trabalho mais comum era o de faxineira, como relatam as entrevistadas Célia Bona Garcia, em Paris, e Sandra de Souza, em Estocolmo.

Trabalhando com cinema, Sanz conheceu o sueco Lars Safstrom. Sensível à causa latino-americana, ele topou viabilizar Quando chegar o momento por meio de uma produtora que mantinha com o irmão. Menos de três meses após o suicídio, em setembro de 1976, o documentário começou a ser pensado junto a Reinaldo Guarany. Também exilado, Guarany foi o último namorado de Dôra e personagem quase onipresente no roteiro.

Além de constituir o relato mais completo de que tenho notícia sobre a guerrilheira, o filme é uma peça paradigmática do cinema militante, porque não se detém ao personagem alegórico e adota estratégias de forma e conteúdo raras para o seu tempo. É o caso do autor-personagem, que aparece diante das câmeras fazendo perguntas e construindo, ele mesmo, os fatos a serem filmados.

Em outras palavras, Sanz contrariou certa tendência dos cineastas políticos ao subjetivar Maria Auxiliadora em toda a sua história de fibra e dor, em vez de só mostrá-la como representante de um grupo maior, pretensamente homogêneo. Por outro lado, fez um filme moderno: sensível à fala das mulheres, esteticamente irrepreensível e formalmente próximo ao que Eduardo Coutinho faria cinco anos depois com Cabra Marcado para Morrer (1984) e, depois, Michael Moore levaria ao extremo a fim de popularizar o gênero.

Apoiado em arquivos filmados de Dôra, cartas escritas por ela e depoimentos de outros asilados, o filme conta a trajetória da militante desde a origem em Antônio Dias (MG) até o suplício em Berlim, esmiuçando as causas de sua depressão: embora tivesse ingressado na concorrida faculdade de medicina da Universidade de Berlim, ela continuava a ser perseguida, encarada como uma subversiva perigosa.

Durante a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, foi obrigada a comparecer três vezes por dia à polícia, o que prejudicou sua frequência no curso de alemão pago pela Igreja Evangélica. Caluniada na imprensa por membros da Democracia Cristã, foi processada por entrada ilegal no país, sendo defendida pela Anistia Internacional. Depois, em um contexto de crescente paranoia do Estado diante da intensificação de ações de grupos de extrema esquerda, como a Fração do Exército Vermelho (RAF, na sigla alemã), teve a circulação restrita. Foi proibida de sair de Berlim Ocidental ou mesmo morar em determinadas zonas da cidade. A suspensão do direito de ir e vir foi o gatilho definitivo para a depressão.

Um dos trechos revela sua paixão pela ginecologia e pela psiquiatria, especialidades que pretendia seguir. Neste ponto, parte de seus escritos são lidos, revelando toda a sua potência intelectual e reiterando a reflexão de gênero que o filme sutilmente propõe.
Diz Dôra: “Segundo Freud, a mulher é um homem castrado. O macho é soberano. Mas Freud ignora a origem da supremacia do macho. Engels mostra que a consciência da mulher não é definida unicamente pela sexualidade. Repete uma situação que depende da estrutura econômica da sociedade. O homem torna-se proprietário da mulher quando, na divisão do trabalho, a propriedade privada aparece. O destino da mulher está ligado ao socialismo”.

Com duração de 61 minutos, o filme foi pré-exibido em 1978, no XI Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, em Cuba. Depois, foi ao ar no Canal 1 da TV Sueca, às 20h do dia 30 de agosto daquele ano, uma quarta-feira. Bem recebido pela crítica, foi um sucesso de audiência. Liderou o ibope da noite a ponto de ser reprisado, dias depois, em pleno horário nobre. O título, conta Sanz, é homônimo a um verso da canção Apesar de você, de Chico Buarque.

Por óbvio, devido à censura do regime militar, ficou completamente desconhecido do público brasileiro por muitos anos, até que foi exibido pela primeira vez no país em 2014, durante a mostra “Arquivos da Ditadura”, no Centro Cultural da Justiça Federal (RJ). No ano passado, com a ajuda de seu filho, Sanz liberou o filme para o público na plataforma Vimeo. É uma obra importante, do tamanho da amizade de Dôra e Sanz.

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Assista Quando chegar o momento logo abaixo:
Quando chegar o momento (Dora) from Luiz Alberto Barreto Leite Sanz on Vimeo.

Ouvi (.....)

Ouvi tantas as palavras corridas
Carregadas de sons e melodias
Do fundo do seu ventre paridas
Apinhadas de promessas vadias
Com mãos rugosas de tão vazias
Na saudade o timbre da sua voz
A entoação
A falta duma folha branca escrita
Num percorrer do seu olhar veloz
Ouvi e não cansei de ter o tempo
Tão pequeno como um momento.


AC............... Alice Coelho

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Fafá de Belém - Vermelho (Ao Vivo)

A cor do meu batuque
Tem o toque, tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha cor
Vermelho!
A cor do meu batuque
Tem o toque, tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante Vermelhão
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha cor
Meu coração!
Meu coração é vermelho
Hei! Hei! Hei!
De vermelho vive o coração
He Ho! He Ho!
Tudo é garantido
Após a rosa vermelhar
Tudo é garantido
Após o sol vermelhecer
Vermelhou o curral
A ideologia do folclore
Avermelhou! Vermelhou a paixão
O fogo de artifício
Da vitória vermelhou
Vermelhou o curral
A ideologia do folclore
Avermelhou!
Vermelhou a paixão
O fogo de artifício
Da vitória vermelhou
A cor do meu batuque
Tem o toque, tem o som
Da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha cor
Vermelho!
A cor do meu batuque
Tem o toque, tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha cor
(Vermelho!)
Meu coração!
Meu coração é vermelho
Hei! Hei! Hei!
De vermelho vive o coração
He Ho! He Ho!
Tudo é garantido
Após a rosa vermelhar
Tudo é garantido
Após o sol vermelhecer
Vermelhou o curral
A ideologia do folclore
Avermelhou!
Vermelhou a paixão
O fogo de artifício
Da vitória vermelhou
Vermelhou o curral
A ideologia do folclore
Avermelhou!
Vermelhou a paixão
O fogo de artifício
Da vitória vermelhou

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018


Não estejas longe de mim um só dia, porque como, porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia, e te estarei esperando como nas estações quando em alguma parte dormitaram os trens. Não te vás por uma hora porque então nessa hora se juntam as gotas do desvelo e talvez toda a fumaça que anda buscando casa venha matar ainda meu coração perdido Ai que não se quebrante tua silhueta na areia, ai que não voem tuas pálpebras na ausência: não te vás por um minuto, bem-amada, porque nesse minuto terás ido tão longe que eu cruzarei toda a terra perguntando se voltarás ou se me deixarás morrendo.

PABLO NERUDA

domingo, 28 de janeiro de 2018


Qualquer música , ah qualquer
Logo que me tire dá alma
Está incerteza que quer
qualquer impossível calma


Qualquer música... Guitarra
Viola, harmonioso, realejo
Um canto que se desgarra...
Um sonho que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida
Jota, fado a confusão...
Dá última dança vivida
Que eu não sinta o coração

Fernando Pessoa.

FADO CUME . . . Um clássico do Fado Vadio .


O Traidor



Um amigo encontra outro no WC a urinar sentado na sanita:
- Mas o que é isto? Os homens urinam de pé! O que te aconteceu???

- Olha...​
​na 2ª feira passada saí com uma loira, 1,80 m, seios fartos, um corpo inacreditável, e na hora H murchei!
​na 3ª saí com uma morena, 20 anos, corpo firme, Carinha laroca, e na hora H murchei!
na 4ª foi com uma ruiva, murchei!
na 5ª com uma quarentona enxuta, tudo em baixo...

O amigo, indignado, pergunta-lhe:
- Eh pá, tudo bem, murchar faz parte, acontece a qualquer um, mas por quê urinar sentado???

- Então​...​
​tu achas que depois disto tudo eu ainda vou dar a mão a este traidor?

Great !


Recordando José Saramago . . .


«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»


José Saramago - "Cadernos de Lanzarote", - Diário III - pag. 148, 1995

LATIM, uma Língua maravilhosa !

O vocábulo "maestro" vem do latim "magister" e este, por sua vez, do advérbio "magis" que significa "mais" ou "mais que".

Na antiga Roma o "magister" era o que estava acima dos restantes, pelos seus conhecimentos e habilitações!

Por exemplo um "Magister equitum" era um Chefe de cavalaria, e um "Magister Militum" era um Chefe Militar.


Já o vocábulo "ministro" vem do latim "minister" e este, por sua vez, do advérbio "minus" que significa "menos" ou "menos que".

Na antiga Roma o "minister" era o servente ou o subordinado que apenas tinha habilidades ou era jeitoso.


*COMO SE VÊ, O LATIM EXPLICA A RAZÃO POR QUE QUALQUER IMBECIL PODE SER MINISTRO ... MAS NÃO MAESTRO !*

Porque é urgente salvar a Terra !


M i l a g r e !


Uma solteirona descobre que uma amiga ficou grávida com apenas uma oração que fez na igreja de uma aldeia próxima.

Dias depois, a solteirona foi a essa igreja e disse ao padre:
- Bom dia, padre.
- Bom dia, minha filha. Em que posso ajudá-la?
- Sabe, padre, eu soube que uma amiga minha veio aqui há umas semanas atrás e ficou grávida só com uma Ave-Maria. É verdade, padre?
- Não, minha filha, não foi com uma Ave-Maria... Foi com um padre nosso... mas ele já foi transferido!

Portugal em 1950 (filme) - um mimo


E não furou o balão !


Not what you think


Ser Feliz


Uma Marionete em Manhattan

Será que "isto" é verdade ?!


O melhor restaurante de Lisboa!

Comentários, para quê ?

Sem querer fazer publicidade...




Quando for a Lisboa, aproveite para almoçar bem e barato e,
sobretudo, para conhecer os verdadeiros representantes do
povo da Lusitânia - vá olhando à volta e certamente compreenderá....

O melhor restaurante de Lisboa (preço/qualidade)
The best of Portugal...(but is not for you!...)

ENTRADA:
Caviar beluga - 1 €
EMENTA: 3€
gambas, camarão tigre, lavagante, sapateira, queijo da Serra, presunto
de Barrancos, garoupa e bife do lombo - vinho: Palácio da Bacalhoa
NOTA: Naturalmente nos outros dias a ementa varia mas é igualmente boa, garantidamente!

BEBIDAS (obviamente são pagas à parte, nada de confusões...:
Mini - 0,10€
Vodka Eristoff - 1,50€
Gin Bombay Sapphire - 1,65€
Whisky Famous Grouse - 2€ (mas temos outros, novos e de mais idade)
1 garrafa de champanhe Krug - 3 €
Café - 0,05€
(não, não me enganei - os zeros estão no sítio certo, são mesmo 5 cêntimos ...)

MORADA?:
Palácio de S. Bento (Assembleia da República)
1249-068 LISBOA
CONTACTO: Tel: 21 391 9000

NOTA: Apareça sempre que quiser - mas traga um deputado à trela...senão não entra, que isto "não é para o povo".

sábado, 27 de janeiro de 2018

“Vemos Ouvimos e Lemos, Não Podemos Ignorar”

 “Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

 Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror”

Extrato do poema “ Cantata da Paz”
De Sophia de Mello Breyner Andresen

Quase todas(os) nós conhecemos o poema, ou pelo menos o refrão da Cantata da Paz
da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen, pois ele foi cantado durante muitos
 anos por várias vozes e entre elas, talvez a mais ouvida tenha sido a de Francisco
Fanhais.
A grandeza da poesia é a sua universalidade. Sophia de Mello Breyner estava a pensar
em África e no Vietname, como este poema refere, no entanto hoje a África e o
Vietname são outros, e os relatórios continuam a dizer-nos que a fome não foi
erradicada, que o fosso entre ricos e pobres aumentou, que o terror está a dominar as
nações: umas a instaurá-lo, querendo difundi-lo, outras a defenderem-se dele, querendo
isolar-se. E o que a poesia nos diz, é que o nosso sentir (o nosso, homens e mulheres
livres e de bons costumes) é universal.

Mas, vemos, ouvimos e lemos o quê? O que nos aparece? O que nos expõem ou impõem? O que procuramos?

Olhamos e não vemos, ou não queremos ver, ou olhamos e prestamos atenção?

Ouvimos e não escutamos, ou ouvimos, escutamos e entendemos?

Vemos, ouvimos e lemos. Como?

Como espectadores? Como atuantes?

Damos sentido às palavras que lemos? Ou

Murmuramos e não falamos ou

Desfrutamos e não amamos?

O que sentimos perante aquilo que vemos, ouvimos e lemos? Envolvimento ou distanciação?

Não podemos ignorar! Será que não ignoramos muitas vezes? E, se não ignoramos, o que fazemos?

Vemos, ouvimos e lemos e permitimos que se ignore.

Sim, muitas vezes permitimos.

Permitimos

porque nos tornamos cegos, surdos e mudos, devido à alienação, à ganância e à inveja e ao comodismo.

As notícias que nos chegam através dos “Mídea”, são muitas vezes mais sensacionalistas do que a procura isenta dos factos. Procuram muitas vezes chocar e não informar. Somos bombardeados com todo o género de notícias tantas vezes ao dia, com as mesmas desgraças às horas das refeições, que por vezes o cidadão comum vira a cara para o lado, para não ver tanta miséria e sofrimento. Por vezes, nem nos damos conta de que a notícia já não faz eco dentro de nós. É a banalização da notícia, de tantas vezes que se ouve ou vê cria o habito e a indiferença.

Diariamente somos confrontados com a globalização da comunicação. A “competição” pelo primeiro lugar em dar a notícia, mostrar um vídeo, disparar uma foto, transformase numa luta renhida. Perdem-se valores, cautelas e sensatez, na falta de edição e sensibilidade. Tudo e nada é notícia, desde os flagelos, ao terrorismo e atentados à liberdade.

Mas o que vemos, ouvimos e lemos é-nos transmitido através de veículos cuja idoneidade cívica, política e moral, urge questionar. É sabido que são usados filtros na informação que nos é transmitida, que variam consoante a vontade política e social de momento. É sem dúvida uma teia difícil de penetrar, controlar e contornar.

Muitas vezes, em conflito com o nosso pensamento, somos conduzidos a manifestarmonos e a tomarmos posições sobre assuntos dos quais pouco sabemos, como que se a simples opinião politica e socialmente bem aceite, fosse suficiente para aliviar as nossas consciências e bastasse o suficiente para nada mais fazer.

Ouvimos premissas, cujas bases desconhecemos, olhamos a factos sem saber o contexto e o enquadramento que levaram a determinadas decisões.

Mas mesmo assim, o Cidadão actual crê-se conhecedor e como tal opinador privilegiado dos diversos aspectos da actualidade, que como acabamos de dizer, são muitas vezes alvo de projecções pouco credíveis e até mesmo manipuladas, fazendo lembrar a célebre alegoria de Platão do homem na caverna de costas voltadas ao Mundo real.

Mas independentemente desta verdade/informação em segunda mão, o certo é que não podemos ficar indiferentes face ao mundo de notícias que nos chega ao conhecimento, e que nos dá conta duma falta de valores humanos aterrorizadora.

E porque vemos, ouvimos e lemos é que não podemos ignorar e sobretudo não podemos deixar de agir.


1 - Factos que mais nos preocupam

Os problemas de hoje são problemas de todos e afectam vários países e povos, pelo que a abordagem começa a ser global.

São muitos os que fogem das guerras, no futuro iremos ter provavelmente, refugiados ambientais em consequência da degradação acelerada do ambiente, que ultrapassa fronteiras e países.

Todos os dias ouvimos falar sobre a dignidade da vida humana, e a importância do sofrimento na vida das pessoas, e estamos na eminência de permitir que se conflua o seu término a uma simples escolha, sem o importante esclarecimento das opções alternativas, bem como das principais variáveis envolventes. Num contexto social particularmente sensível, em que se discute a forma de legislar sobre o fim da vida humana, não podemos ignorar a maneira como se discute a eutanásia, tentando reduzir a morte de um ser humano a um simples acto médico. Passa-se para segundo plano a importância de amar e ser amado independentemente da condição física.

Vemos, ouvimos e lemos que existe um mar, um mar perto de nós, que é também sepultura de milhares que aspiram à liberdade. De facto, no momento actual, é a crise dos refugiados que logo nos ocorre. Drama humano de enormes proporções, drama de quem parte, de quem fica, e de quem acolhe. Em zonas longínquas ou mais próximas são de novo as pessoas, e em particular os mais frágeis, que protagonizam e encarnam o que as (más) decisões políticas têm de pior.

Não podemos ignorar os relatos diários de mães e filhas vítimas de relacionamentos abusivos, muitas vezes também elas protagonistas dos mesmos crimes que se perpetuam perante a sistemática desvalorização da violência que se exerce no seio da família.

Não podemos ignorar a existência dos sem-abrigo no nosso país, de fome, miséria, casas desabitadas, degradadas e pessoas a viver nas ruas, à chuva, ao frio, ao vento, ao calor… Como é possível, empresários lançarem novos produtos, pensando em lucro e não em solidariedade, quando colocam no mercado sacos cama para aquecer os semabrigo, mas esquecem que deveriam antes disponibilizar estas verbas para a reconstrução das habitações que as autarquias têm em seu poder, dando-lhes condições de habitabilidade, para poderem realojar pessoas sem lar inserindo-as na sociedade.

Numa foto de refugiados que vi recentemente, há 7 homens e 1 mulher e até aqui nada de especial! Ao observar atentamente, vemos que a mulher tem os pés descalços, cuida de três crianças, e dessas três, traz uma ao colo e outras às costas. Nenhum homem a ajuda e todos eles trazem sapatos calçados, porque nas suas culturas a mulher não representa nada. Ela apenas serve para ser escrava dos homens. A história das mulheres 4 continua a não ter nada a ver com a história dos homens. A armadilha da indiferença apanha-nos a todos, pois aquilo que nos choca à primeira vez, quase nos deixa indiferente nas vezes seguintes. De tal maneira a realidade se torna insuportável aos nossos olhos, que instintivamente descolamos dela. Abstraímos e tentamos não sentir nada, pois as dores de sentir ser-nos-iam realmente intoleráveis.

Vemos, ouvimos e lemos que em nome de um Deus, homens e mulheres de todos os credos e fés são queimados, degolados, assassinados a sangue frio ou violados coletivamente.

Não podemos ignorar que a geo democracia ainda está longe da sua plenitude, e a cada dia que passa é lentamente devorada por outros interesses mais globalizantes e símbolos de servidão.

Não podemos ignorar as assimetrias sociais que se vivem perto e longe de nós, cuja solução seria fácil se não fossem a ambição, os poderes instituídos, os lóbis financeiros e as engenharias económicas.

Na realidade, uma “ténue linha do acaso,” que fez uns nascerem no lado certo da fronteira, tem sido ignorada ao longo dos séculos. Nobreza e povo, burguesia e proletários, brancos e negros, cristãos e hereges, nómadas, mulheres, homossexuais, idosos, tudo serve, como sempre serviu, para retirar ao Outro o valor da sua dignidade.

Todos fomos Charlie, todos nos colorimos das bandeiras de França e Bélgica, mas face aos recentes acontecimentos em Orlando ninguém é gay, ninguém levanta a vós para defender uma comunidade com a qual poucos fazem questão de se identificar, particularmente se for de diferente orientação sexual.

Vemos, ouvimos e lemos, que milhares de crianças têm o seu futuro completamente comprometido por não terem acesso à educação. “Uma criança sem acesso a educação é um estigma da humanidade e temos que mudá-lo”, afirmou Kailash Satyarthi, Prémio Nobel da Paz.

Muitas destas situações e tragédias ocorrem na União Europeia, onde os alicerces fundamentais da nossa história são baseados na liberdade, democracia e solidariedade, princípios esses gravados na carta dos direitos fundamentais. Estamos numa aldeia global, onde se assiste ao evoluir do conceito de cidadania. Os problemas de hoje são problemas de todos e afectam vários países e povos, pelo que a abordagem têm de ser abrangente. Graças à ampliação dos meios de comunicação, a informação circula cada vez mais rapidamente ao nível planetário, o que leva a que comecem a nascer movimentos globais que envolvem cidadãos de vários países.


2 - Reflexão e Acção

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar"... Os 3 patamares desta frase dão origem a um triângulo em que, na sua base, temos os órgãos dos olhos e ouvidos, ascendendo à parte neurológica associada ao processo da leitura e terminando o triângulo no cimo, ao nível da consciência, condição essencial para que não se possa ignorar.

Um outro triângulo, agora descendente, está presente na união entre olhos, ouvidos e o coração, uma outra forma de não se ignorar, bem presente no célebre Principezinho, de Saint-Exupéry.

Nós somos Cidadãs Livres, somos Maçonas, somos mulheres comprometidas com a comunidade e com o país e com o mundo, Vemos Ouvimos e Lemos não podemos ignorar. Este refrão é um grito de inquietação contra a indiferença que tantas vezes nos atinge. É um apelo que nos encoraja e nos leva à reflexão, à mudança, à construção de um mundo mais solidário, mais humanista. À construção de um templo de homens e mulheres, unidos pela compaixão, pelo respeito pelo outro, pela intervenção ativa e luta sistemática pela paz.

Mas qual é o papel da Maçonaria ou o que a Maçonaria tem feito no que diz respeito particularmente a este tema dos refugiados ou outro tipo de intervenção social? O nosso trabalho não é confinado ao templo e não termina à meia-noite. Lá fora todas e todos temos um papel individual, não poderemos deixar de colaborar agindo no nosso país. Cada um de nós deverá ser um agente da mudança, não só na comunidade, mas também na nossa família.

Recuemos ao século XVII e recordemos as palavras do Padre António Vieira, sábias, visionárias até tendo em conta o que é hoje a modernidade e os seus conflitos políticos, sociais e religiosos. Dizia ele, que um dia muitos serão julgados pelo que fizeram e muitos mais pelo que não fizeram e pelo que silenciaram.

Hannah Arendt, a filósofa política alemã, de origem judaica, uma das principais combatentes do nazismo, considerava que o mal não é apenas o fruto de homens doentes, mas é sobretudo o resultado da cumplicidade da maioria que ouve e vê, mas ignora e permite.

Quantas vezes colocamos a questão: E se fosse connosco? Se víssemos uma jovem a ser esbofeteada pelo namorado? E se víssemos um casal de homossexuais ser verbalmente agredido e humilhado porque estão de mão dada? E se víssemos um idoso a ser maltratado? Paremos 2 minutos para pensar: Sim, se fosse connosco, o que faria cada uma de nós? Agia? Calava? Acelerava o passo e fugia? E se aquela namorada fosse a nossa filha? E se aquele idoso fossemos nós? E se a notícia que lemos esta manhã no jornal dissesse respeito a uma situação de violência e violação dos direitos humanos na casa do nosso vizinho? Agíamos? Ou seria mais fácil ignorar?

Maçonas e Maçons, nós que defendemos os valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade não nos podemos demitir de ser agentes de mudança dos problemas sociais. É essencial sermos membros ativos da sociedade na busca da equidade, da igualdade de oportunidades e de todos vivermos em harmonia numa sociedade mais justa e mais fraterna.

É preciso que cada um de nós chame a atenção do outro e apele à intervenção, é preciso que cada um de nós dê pequenos grandes passos, mesmo em casa faça exercícios plenos de cidadania como a reciclagem do lixo. É preciso ainda que os meios de comunicação social colaborem como mensageiros de massas e um grande exemplo disso é precisamente o programa de televisão “E Se Fosse Consigo?”, que quase involuntariamente nos leva a pensar qual seria a nossa própria reacção, perante determinada situação, a acontecer ali, diante de nós, violadora dos direitos humanos.

Uma maçona, não se pauta por dogmas nem tão pouco por pensamentos estereotipados. O seu pensar é livre, objectivo, claro, por forma a poder ser consequente e agir em prol da humanidade. Por isso há que lutar contra esta remissão para o “ fundo da caverna” onde são projectadas as verdades de outrem, cuja adequação nem sempre é verdadeira nem inocente. Hoje mais do que nunca, porque temos a ilusão de tudo saber, tudo conhecer em tempo real, estamos muito mais vulneráveis à manipulação do pensamento. Esta situação exige de nós uma maior atenção e pensamento crítico.

O trabalho da obreira é interior por certo. Mas é também exterior, na medida em que tem que continuar fora o trabalho feito em L:.

É urgente que a Maçonaria Feminina assuma um papel mais interventivo na vida da sociedade portuguesa em particular e da Humanidade em geral.

A História perguntar-nos-á a razão porque nada dissemos perante o êxodo de milhares de seres humanos que morreram à porta da Europa. Questionar-nos–à porque nada fizemos perante o flagelo da corrupção que grassou impunemente. Pedir-nos-á conta do silêncio que nos ensurdeceu e nos paralisou.

A Maçonaria Feminina, pilar indelével e sustentáculo imprescindível da Maçonaria Universal, tem de assumir a sua posição e defender a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, numa enorme bateria de acção conjunta.

Pelo sinal nos reconhecemos. Reconheçamo-nos como mulheres interventivas e operativas.


3 - Esperança e trabalho

Nunca mais ignorar-te, Humanidade!!

Se não posso salvar-te (e como o desejo!),

Quero hoje começar a escrever contigo e para nós,

A história que tenhamos orgulho de ver, de ouvir e de ler.

A história que todos os dias fará História por ser o nosso sonho,

A nossa melodia fantástica,

Bela e plena de liberdade e esperança e que por isso,

Não a calemos nem deixemos de ouvir nunca.



quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Advogados de Lula fazem Coletiva de Imprensa após ex-presidente ser cond...

Os advogados do ex-presidente da república Luís Inácio Lula da Silva, reuniram-se em coletiva de imprensa para prestar esclarecimentos sobre o processo que condenou o cliente a 12 anos de prisão, impossibilitando-o de disputar as eleições de 2018. Segundo o advogado Cristiano Zanin, as acusações contra o ex-presidente estão no campo da cogitação: “Nenhum dos votos indicou nem o uso da função pública e tampouco o recebimento de qualquer vantagem indevida. Prevaleceu o conceito de atos indeterminados” O advogado ainda afirmou que o direito de defesa foi censurado: "Claramente a palavra do Ministério Público mostrou como a força-tarefa da Lava Jato vem atuando neste em outros casos. Qual é o pensamento? O pensamento é de censura à defesa, é de censura à academia, é de censura ao povo."

Texto perfeito para este momento !



Por Mari Malheiros

Lula não precisa da minha defesa. Ele tem muita gente no mundo inteiro que faz isso de forma brilhante. Também não sou ingênua de achar que esse julgamento representa a falência do Judiciário. O Judiciário está falido pra classe trabalhadora há muito tempo, é só ver o número de negros, pobres e jovens nos presídios.

O que tá em jogo hoje é a democracia. Lula, com todas as suas contradições, é o retirante nordestino, pobre, operário que chegou ao cargo mais importante do país através da legalidade democrática. Os treze anos de Governo do PT foram legitimados por quatro eleições validadas pelo TSE, que é o órgão competente para tal. Não vou entrar no mérito do que esse cara fez porque só não enxerga quem não quer. Não é essa a questão.


O que se questiona é a condenação de Lula enquanto Aécio, Alckmin, Richa, Temer e companhia continuam cometendo crimes. É o mesmo que o Judiciário tentar dizer "Se enxerguem, bando de operários pobres, política é pra classe dominante, vocês são só o serviço braçal. Quem quiser ser como Lula vai acabar dessa forma".

Gente, um juiz disse que Lula não pode ter um triplex (e já foi provado, desenhado, que não é dele). Vocês tem noção do absurdo disso? Um triplex! FHC tem um apartamento de luxo na área mais nobre de Paris (uma das mais caras do mundo) e ninguém disse que ele não pode ter esse apartamento.

Observem que eu usei a palavra "tentar". O Judiciário tenta dizer, mas não consegue. O Judiciário só detém o monopólio da legalidade, mas não passa disso. Os projetos dos movimentos sociais são maiores, feitos de sonhos e lutas, vontade, fé, desejo de transformação da vida. Não é disputa de poder. É utopia, mística, horizonte. É a vida com toda sua poesia. E isso, isso é muito maior que a lei. O filme "Um sonho de liberdade" tem uma das grandes frases do cinema: não podem tirar algo que está dentro de nós. É esse sopro, dentro de quem tá na luta, que nos move...

Independente do resultado do julgamento de hoje, as ruas continuam sendo nossas, e a luta continuará sendo feita. Hoje é só uma batalha, a guerra vai continuar.

Eu que me Aguente Comigo



Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.

Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Os fracassos serão nossas vitórias ! - Eduardo Casanova

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu” - Darcy Ribeiro
Foto tirada por Italo Gurgel

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Assim que te quero



É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.


Pablo Neruda.

Pintura de Tony Chow

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Ser forte é disfarçar tudo o que dói
É sorrir tudo o que chora.

Ser forte é quando a coragem afasta o medo
É viveres um amor em segredo.

Ser forte é quando a mentira te morde e tu curas a ferida
É não desistires de ti, mesmo perdida.

Ser forte é abrir a porta a quem se ama numa despedida
É deixar que seja feliz lá longe com outra vida.

Ser forte é sentires frio e dares calor
É receberes traição e dares amor.

Ser forte é resistir à lágrima de um tempo que doeu
É perder o sonho onde a saudade gemeu.

Ser forte é testar o limite da fraqueza
É silenciares os gritos da tristeza.

Ser forte é ajudar o amigo a levantar
É remares quando estás afundar.

Ser forte é quando perdoas algo que não queres lembrar
É esqueceres quem amas porque não te soube amar.

Ser forte é resistires a um abraço
Quando tens vontade de abraçar.

Ser forte é não deixares que te manipulem
É resistires a quem te quer enganar.

Obrigada vida, por me teres ensinado a ser forte!
Obrigado tempo, por me saberes moldar!

Carla Tavares

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018


Francisco Torres está com Poesia, Pintura & Música e Beirão Francisco.
21 de Fevereiro de 2014 ·
·



******** Calçada do Carriche ********

Luísa, sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobre a calçada.


Saiu de casa
de madrugada:
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
uma golada,
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho,
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina,
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão

em "Teatro do Mundo"
http://youtu.be/legjWFLBzak

Pintor: Paula Rego

​Texto de Carlos Mattos Gomes que desmonta a personalidade de Marcelo Rebelo de Sousa



"Populismo — de Pisistratus a Marcelo, a mesma cartilha

O grego (ateniense) Pisistratus é considerado pelos estudiosos da política como o primeiro populista demagogo na história ocidental. É o mais antigo populista demagogo. Marcelo Rebelo de Sousa não é o primeiro populista demagogo de Portugal, mas é o de maior sucesso, o mais activo e a funcionar 24 horas por dia.

Pisistratus pretendeu ser arconte de Atenas, o detentor dos poderes reunidos do basileu, o rei, e do comandante dos exércitos, o polemarco. Marcelo Rebelo de Sousa, além dos poderes do basileu e do polemarco pretende concentrar o poder do arconte tesmótetas, o que preparava as leis e velava pela sua execução.

Marcelo quer ser rei, general, chefe do governo e presidente da assembleia. Qualquer coisa entre um cocktail e um shot.

Pisistratus descobriu cedo que o povo era facilmente iludido por gestos simbólicos e a sua primeira medida como arconte foi transformar-se num “homem do povo”. Marcelo fez também a mesma descoberta com tenra idade, no início da carreira. Filho de ministro do Estado Novo, jornalista, professor de Direito, jurisconsulto, chefe partidário, administrador de casas ducais, amigo de banqueiros e comentador televisivo surgiu também como a voz do povo e um homem do povo que beija ao vivo velhinhas, dá de comer a sem-abrigo e bebe ginginhas no Barreiro, além de ir a Fátima em peregrinação e à bola para aclamação! São os afetos! Tão populares e consoladores como os coiratos à porta dos estádios.

Pisistratus, o pai do populismo, fazia campanha como herói triunfante, e era carregado aos ombros do povo como guerreiro vitorioso sem jamais ter participado numa batalha ou vivido um desafio. Marcelo também não possui no currículo nenhum feito heróico, nem de relevo que o ice ao Olimpo, a não ser o banho no Tejo e umas voltas em Lisboa ao volante de um táxi, mas fala como se tivesse soprado a Lua, saneado as contas públicas, apagado os incêndios infernais, enchido as barragens, canonizado os pastorinhos de Fátima, distribuído a raspadinha e impedido as invasões dos produtos chineses.

Ao longo dos séculos todos os Pisistratus fingiram demonstrar empatia para com os sofrimentos dos mais carentes e excluídos da sociedade, como Marcelo tão bem finge. Mas a comiseração dos populistas tem como único objetivo a obtenção do voto, do aplauso fácil, da aclamação. É o que faz mover Marcelo. Sempre que acreditarmos nos carinhosos abrações e nas selfies de Marcelo devemos ter a consciência de estar a ser hipnotizados por um Pisistratus moderno.

O populista apela à simpatia do povo para construir o seu poder. Baseia o seu discurso na denúncia dos males que as classes privilegiadas causam no povo. Apresenta-se como redentor dos humildes. O populista divide a sociedade em dois grupos homogéneos e antagónicos: o ‘povo simples’ e a ‘elite corrupta”. O populista assume-se como o único que representa o povo contra os corruptos, mesmo contra as leis. Aí temos de novo Marcelo, o sorriso de Marcelo, o palpite de Marcelo, o recado de Marcelo, a facada de Marcelo.

O populista universal é um narciso apaixonado por si, que se orgulha tanto da sua irresponsabilidade como da sua inimputabilidade. Marcelo é o demagogo que se coloca acima da lei da divisão de poderes em nome do povo que vota em quem tem o dever de elaborar as leis. O demagogo, como Marcelo, entende que fala directamente com o povo, que é a voz de deus, embora, logo de seguida, beije as mãos dos padres com beata genuflexão.

Um populista narcísico como Marcelo, se chegar à conclusão que alguém pode fazer-lhe sombra, tentará minar o seu prestígio e reputação. Balsemão e Portas queixam-se dessas caneladas que deixaram nódoas.

Marcelo Rebelo de Sousa está constantemente preocupado com fantasias de poder e sucesso. Crê ser especial e faz tudo para lhe reconhecerem essa qualidade. Exige admiração dos outros e sente “estar no seu direito” aproveitar-se dos outros para benefício próprio.

As acções e as aparições de Marcelo Rebelo de Sousa, os seus gestos e as suas expressões de afectos têm como finalidade fazer dele o centro das atenções.

Acredita que possui todas as qualidades. Prefere atuar sozinho, sem dar espaço aos outros ou delegar funções. Apenas exige que os outros façam o que lhe convém. É essa a razão do jogo perverso de gato e rato que impôs a António Costa após os incêndios do Verão. Os incêndios no centro do país mostraram Marcelo Rebelo de Sousa como um jogador com ases na manga e dados viciados.

Ele é e faz tudo para o ser o “funcionário do dia”, o “funcionário da semana”, do mês, do ano, “o funcionário modelo”. Na antiga União Soviética seria um herói do trabalho. Quer que a sua fotografia, a sua imagem fique pendurada nas paredes dos locais que visita, que todos saibam quem ele é e o que fez.

O populista, com a sua doentia necessidade de reconhecimento, é um tipo inseguro, que não confia em si próprio. Perigoso porque está à mercê dos sabujos que lhe preenchem o vazio, dizendo e gritando que ele é o bom, o capaz, o conseguidor, o salvador, ou que produzem os elogios que o fazem sentir-se inchado, diante do espelho.

Vemos Marcelo Rebelo de Sousa na televisão e podemos achá-lo engraçado, mas na verdade ele é um populista. Um populista simpático, mas um demagogo egoísta e narcísico.

Os portugueses votaram maioritariamente nele. Há que o aceitar como é e decifrá-lo."

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Leo Rojas - El Condor Pasa

Hanine - Arabia

Samvel Yervinyan - Yemu / SEVDA

. . . quanta sabedoria !



Amizade e o Amor

Perguntei a um sábio ,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas ,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.


William Shakespeare

sábado, 13 de janeiro de 2018



Vídeo censurado ! Este mundo está a tornar-se demasiado perigoso . . . os diferentes Estados estão a ser governados por "projectos de Gente" idiotas . . . aquilo não pode ser Gente ! ! !


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Pete Seeger - "Forever Young"

May God bless and keep you always
May your wishes all come true
May you always do for others
And let others do for you
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young

May you grow up to be righteous
May you grow up to be true
May you always know the truth
And see the lights surrounding you
May you always be courageous
Stand upright and be strong
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young

May your hands always be busy
May your feet always be swift
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift
May your heart always be joyful
May your song always be sung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young

https://www.youtube.com/watch?v=Ezyd40kJFq0

Ed Sheeran - Perfect (Acoustic Version)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A consagração final de Lula será consumada por seus carrascos.


Por Carlos Fernandes

- 15 de dezembro de 2017

O trio do TRF 4

Para que um destino se cumpra, a vida exige seus sacrifícios.

Fato corrente na história da humanidade, os homens e mulheres que mudaram de alguma maneira a forma de se ver o mundo pagaram com a vida sua ousadia.

Talvez a primeira grande vítima de uma justiça parcial e previsível, o grego Sócrates preferiu sucumbir à cicuta a negar seus ensinamentos. Num entardecer, aos pés da Acrópole, um dos pilares da filosofia universal tombava injustiçado pelo medo, pela ignorância e pela cobiça de seus juízes.


Séculos mais tarde, outro revolucionário sentia na carne o gosto amargo dos cravos. Conta as Escrituras que, traído por um dos seus mais próximos discípulos, o homem que não fez outra coisa a não ser pregar a paz, a compreensão e o amor, agonizou até à morte em meio ao júbilo ensandecido de uma multidão.

Por lutar pela independência de seu país, Joana D’Arc, a jovem filha de camponeses, após 20 meses de julgamento, ardeu nas chamas da inquisição acusada de bruxaria.

A lista, como sabem, é interminável.

No Brasil não seria diferente. Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Olga Benário, enfim, todos aqueles que lutaram por um país livre, justo e igualitário foram tachados de criminosos por uma sociedade ainda hoje servil e preconceituosa.

Na esteira da história, cobram de Lula – o primeiro operário a chegar à presidência desse país – o seu quinhão de culpa.

Responsável pela mais bem-sucedida política de combate à pobreza e à miséria que se teve notícia em toda a América Latina, o retirante nordestino que escapou da fome e da seca ousou querer para o seu povo um destino que não fosse de servidão e subserviência.

Ao incluir os pobres pela primeira vez nos interesses do Estado, o torneiro mecânico desmantelou uma estrutura secular de dominação e privilégio que remonta ao Brasil escravocrata.

Esse crime capital em particular não poderia ser perdoado.

Lula passou a ser odiado pela elite desse país que apesar de não ter tido um único privilégio subtraído, não suportou a ideia de ter de compartilhar os “seus” espaços com pessoas cuja posição social até então não as autorizava.

Permitir que negros, mulheres, homossexuais, índios e minorias em geral passassem a ocupar um lugar de destaque e decisão seja nos altos escalões do poder, seja na vida cotidiana de cada brasileiro, caracterizou-se como uma afronta pessoal a cada machista, homofóbico, preconceituoso e elitista de nossa peculiar classe média.

Alimentados com o que de pior pôde ser produzido em matéria de jornalismo irresponsável praticado a exaustão pela grande mídia nacional, uma horda de analfabetos políticos, muitos deles diretamente beneficiados pelas políticas inclusivas de Lula, se autoproclamaram guardiões da moral tupiniquim e partiram para a mais insana defesa de um modelo de nação do qual eles próprios são excluídos.

Deposta ilegal e violentamente sua sucessora, a possibilidade real de Lula voltar ao poder fez com que todo e qualquer resquício da mínima aparência de normalidade institucional que tentaram manter fosse dado às favas.

A cada pesquisa divulgada de intenção de voto, mais urgente se mostra a “solução final”. Lula não pode, em hipótese alguma, ser candidato.

Os inquisidores modernos foram acionados. Danem-se as aparências, acelerem os processos, atropelem os ritos normais, forjem atalhos. Lula não pode ser candidato.

A fogueira já tem data para ser acesa. No dia 24 de janeiro de 2018, os torquemadas da era moderna iniciarão o mesmo processo que já foi de Sócrates, de Cristo, de Joana.

Não estarão julgando um crime propriamente dito, estarão julgando um homem. Mais do que isso, estarão julgando uma ideia, uma afronta ao establishment, uma desobediência ao estado “natural” das coisas.

Forjado por uma vida inteira de privações e necessidades, Lula faz exatamente o que se espera de um homem como ele: luta incansavelmente com as forças de um sertanejo que não admite ser injustiçado.

Lula sabe que não precisa mais da presidência da República para sua biografia. Duas vezes eleito e dono da maior aprovação que um presidente já teve em toda a história desse país, ele já entrou para a história. Lula precisa mesmo da presidência da República é para dá-la novamente ao povo brasileiro.

O resultado do seu julgamento já está dado. A justiça não estará presente no momento de seu pronunciamento. Não esteve em nenhum momento do processo. A única possibilidade de reversão seria uma brutal mobilização dos movimentos progressistas nas ruas a partir de já.

À parte tudo isso, a condenação de Lula por um Tribunal de Exceção servirá apenas para consagrar a história de um homem que dedicou a sua vida a uma causa improvável: um Brasil para todos.




OS MEUS AMIGOS

Amigos cento e dez e talvez mais
Eu já contei! Vaidades que eu sentia.
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu, já farto de os ver, me escapulia,
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente,
Ceguei. Dos cento e dez, houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!

Camilo Castelo Branco (1825-1890)

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Após 36 horas de trabalho de parto, mulher dá a luz em banheiro de sua casa "Nunca me senti tão poderosa e realizada em toda minha vida", revela Marissa Heckel em postagem feita nas redes sociais.


O nascimento do bebê é um momento muito esperado e inexplicável para todas as mamães. Há 3 anos, a americana Marissa Heckel sofreu complicações em um parto realizado no hospital. Por isso, ela decidiu que na segunda gestação o parto seria diferente, optando por parir em casa, sem ajuda médica.

Após 36 horas de trabalho de parto, Marissa conseguiu dar à luz a uma bebê super saudável. Para contar um pouco sobre sua experiência, ela compartilhou nas redes sociais uma foto do nascimento e a imagem ganhou rapidamente grande comoção dos internautas.

"Ficar sem assistência foi uma oportunidade pra provar que Deus fez nossos corpos para parir - hospitais nunca foram o normal. Dei à luz meu filho no meu banheiro depois de um trabalho de parto de 36 horas. O tempo exato que levei no nascimento da minha filha", disse.

No relato, a americana contou que durante o parto ela tentou aliviar as dores com banhos, mas não foi o suficiente. "Escolhi encarar a dor em pé, encostada na parede. Apenas dizia a mim mesma: 'a dor é apenas temporária'".

Além disso, ela disse que a bolsa estourou e o líquido amniótico jorrou, em 5 momentos diferentes, por toda sua cama. No entanto, no período expulsivo do parto, Marissa sentiu que ficar sobre a cama não parecia o melhor a fazer, portanto com a ajuda do marido ela se dirigiu até o banheiro quando sentiu vontade de fazer força.

Para ajudar no processo do nascimento, Marissa sentou no banheiro com o objetivo de fazer mais força. Quando o marido conseguiu ver a cabeça do bebê, incentivou Marissa a continuar fazendo força. "Ele me encorajou a seguir", afirma.

Então, ela se levantou para prosseguir no parto. "Segurei no porta-toalhas e deixei meu corpo dar o último empurrão e ele (bebê) estava finalmente fora. Meu marido ficou parado, em estado de choque, tirando as fotos. Nunca me senti tão poderosa e realizada em toda minha vida. Nossos corpos são realmente incríveis", relembra.

De acordo com Marissa, o processo não teria sido tão fácil sem o apoio que teve do marido: "Quando as contrações e a pressão começaram meu marido estava ao lado da cama, segurando minha mão. Na verdade, foi romântico, embora nesse ponto eu praticamente já estivesse rugindo".

Em entrevista ao site PopSugar, Marissa revelou um pouco sobre como foi o nascimento do seu primeiro filho e como esse momento acabou traumatizando ela. "Fui intimidada por não querer uma epidural e fui assediada durante todo meu trabalho para receber uma. Também fui forçada a deitar nas costas durante o parto e foi-me dito para "empurrar" contra o meu corpo. Meu marido e eu decidimos que um nascimento não assistido em nossa casa seria muito mais. Nunca tive medo durante todo o processo", comenta

A postagem feita por Marissa teve como intuito incentivar outras mães a optarem pelo parto natural. "Se você está com medo ou achando que não consegue fazer isso, (saiba que) você consegue! Não tenha medo, nossos corpos são feitos para isso".

domingo, 17 de dezembro de 2017

EU SEI QUE VOU TE AMAR.- Vinicius de Moraes y Maria Creuza (Letra y subt...



EU SEI QUE VOU TE AMAR
POR TODA A MINHA VIDA EU VOU TE AMAR
EM CADA DESPEDIDA EU VOU TE AMAR
DESESPERADAMENTE EU SEI QUE VOU TE AMAR

EM CADA VERSO MEU SERÁ
PRÁ TE DIZER
QUE EU SEI QUE VOU TE AMAR
POR TODA A MINHA VIDA

EU SEI QUE VOU CHORAR
A CADA AUSÊNCIA TUA EU VOU CHORAR
MAS CADA VOLTA TUA HÁ DE APLACAR
QUE ESSA AUSÊNCA TUA ME CAUSOU

EU SEI QUE VOU SOFRER
A ETERNA DESVENTURA DE VIVER
A ESPERA DE VIVER AO LADO TEU
POR TODA A MINHA VIDA