JCBoavida
Vitórias da Revolução Cubana
SE EM CUBA É TÃO BOM, POR QUE ALGUNS PARTEM EM BALSAS? Essa pergunta reaparece como um refrão sempre que imagens dramáticas cruzam as telas: homens e mulheres lançando-se ao mar em embarcações improvisadas, desafiando correntes, fome e morte rumo aos Estados Unidos. A travessia existe porque a geografia permite, pouco mais de 100 quilômetros separam a ilha de Miami. No mapa, é um traço curto. Na história, é um abismo cavado por décadas de hostilidade política. A partir daí nasce o slogan fácil: “se Cuba fosse boa, ninguém sairia”. Só que a vida real não cabe em slogans.
Primeiro, a honestidade: Cuba não é um paraíso, e os cubanos nunca disseram que fosse. O que a ilha construiu foi algo mais raro: um projeto social que garante saúde, educação, moradia e alimentação como direitos universais, não como mercadorias. Isso não elimina dificuldades. Há faltas pontuais, há limitações tecnológicas, há infraestrutura que precisa avançar. Mas essas carências não surgem do nada. Elas têm causa, nome e endereço.
Há mais de seis décadas, os Estados Unidos impõem a Cuba um bloqueio econômico que não é abstração: é cotidiano. Ele encarece tudo, restringe importações, dificulta acesso a tecnologia, corta crédito, trava transações financeiras e pune empresas de terceiros países que ousem negociar com a ilha. É uma política desenhada para asfixiar, não para “estimular reformas”. Mesmo assim, Cuba resiste, com alianças, criatividade e sacrifício. A ilha manteve cooperação e comércio com parceiros como Venezuela, China, Brasil e Rússia. Ainda assim, o cerco segue. E cobra seu preço.
É nesse contexto que surgem as balsas. Não como prova de “falência moral”, mas como consequência de um jogo desigual. Pouco se diz que Washington criou um incentivo legal exclusivo para cubanos: quem consegue chegar ao território norte-americano recebe benefícios automáticos, status privilegiado, portas abertas. Nenhum outro latino recebe isso. Hondurenhos, salvadorenhos, guatemaltecos e mexicanos enfrentam muros, jaulas, deportações. Por que, então, apenas os cubanos ganham tapete vermelho? Porque a migração vira arma de propaganda: cada chegada é explorada para sustentar a narrativa de que Cuba “expulsa” seu povo.
Mas a realidade teima em contrariar a caricatura.
Cuba eliminou ou reduziu drasticamente três chagas históricas da América Latina:
– fome estrutural,
– analfabetismo,
– criminalidade violenta.
Quem parte não foge de guerra civil, nem de terror, nem de fome generalizada. Parte, como milhões no mundo, em busca de consumo e renda, estimulados por uma política seletiva que transforma sua decisão individual em peça de xadrez geopolítico.
E aqui entra um ponto crucial e frequentemente silenciado: os Estados Unidos querem que a imigração esvazie Cuba de profissionais qualificados. O objetivo não é “acolher pessoas”, mas provocar colapso. Médicos, engenheiros, cientistas, professores, formados com investimento público cubano, são atraídos para fora para enfraquecer serviços essenciais na ilha. É uma drenagem planejada de cérebros. Um ataque indireto, porém eficaz, contra o coração do projeto social cubano.
O mesmo vale para o esporte. Atletas cubanos, treinados desde cedo em um sistema que prioriza o coletivo, são alvos constantes de assédio. Promessas de contratos, agentes oportunistas, pressões durante competições internacionais. Alguns cedem. Outros resistem. Quando saem, a narrativa é imediata: “fuga da liberdade”. O que não se diz é que muitos enfrentam precarização, contratos leoninos, invisibilidade após o auge, e a saudade de um país que os formou não apenas para vencer, mas para pertencer.
Há também os que chegam e descobrem, tarde demais, que o mito não garante dignidade. Em Miami, muitos cubanos viram mão de obra barata, úteis enquanto alimentam discursos políticos. Não são poucos os que sonham em voltar, ao perceber que o brilho prometido se apaga rápido quando a vida real cobra aluguel, saúde e pertencimento.
A verdade é simples e poderosa: todo país tem emigrantes. Brasileiros, argentinos, colombianos, mexicanos, europeus, todos partem. Só no caso cubano a migração é transformada em acusação ideológica. Só Cuba é julgada por um critério que ninguém mais suporta.
Quando o bloqueio cair, e ele cairá, cairá junto a distorção. Cairá a política que recompensa a travessia perigosa. Cairá a engrenagem que tenta quebrar a ilha roubando seus profissionais, seus atletas, sua esperança. E o mundo verá com mais nitidez o que sempre esteve ali: um povo tenaz, que resiste sem ódio, que constrói com pouco, que compartilha o que tem, que insiste em dignidade mesmo sob cerco.
Apoiar Cuba não é negar seus desafios. É reconhecer a coragem de quem, apesar de tudo, escolheu cuidar de gente em vez de acumular lucro; educação em vez de ignorância; vida em vez de desespero. É ficar do lado de um povo que, mesmo quando o mar parece a única saída, continua acreditando na terra que o formou.



Japão (1945–1952, ocupação militar direta, invasão, ataque atômico)
Itália (1947–1948, interferência eleitoral massiva e operações da CIA contra a esquerda)
Grécia (1947–1949, apoio militar e financeiro na guerra civil e consolidação de regime aliado)
China (1945–1953, apoio militar aos nacionalistas, confronto indireto na Guerra da Coreia)
Coreia do Sul (1945–presente, ocupação inicial, guerra, bases militares e tutela estratégica)
Coreia do Norte (1950–1953, guerra total com bombardeios em larga escala)
Irã (1953–presente, golpe de Estado, sanções, operações encobertas, assassinato seletivo)
Guatemala (1954–presente, golpe de Estado, repressão prolongada e apoio a regimes militares)
Taiwan (1950–presente, apoio militar, diplomático e estratégico contínuo)
Filipinas (1946–presente, contrainsurgência, apoio militar interno e bases estratégicas)
Indonésia (1958–1965, apoio a rebeliões, golpe militar e massacres em massa)
Cuba (1959–presente, invasão fracassada, sabotagens, bloqueio econômico e operações encobertas)
Congo (1960–1965, desestabilização, apoio a golpe e assassinato de Patrice Lumumba)
República Dominicana (1961–1966, intervenção política seguida de invasão militar direta)
Vietnã (1961–1975, guerra em larga escala, invasão terrestre e bombardeios massivos)
Brasil (1961–2016, apoio ao golpe militar, tutela durante ditadura e lawfare institucional)
Guiana (1964, interferência eleitoral e desestabilização política)
Laos (1964–1973, guerra secreta e bombardeios massivos)
Peru (1965–presente, interferência política, pressão diplomática e cooperação militar)
Camboja (1969–1990, bombardeios em massa e apoio indireto a forças armadas)
Chile (1964–1973, interferência eleitoral, sabotagem econômica e golpe de Estado)
Argentina (1976–1983, apoio político, militar e de inteligência à ditadura)
Uruguai (1973–1985, apoio à repressão estatal e cooperação em inteligência)
Angola (1975–1992, financiamento e apoio a forças armadas na guerra civil)
Moçambique (1977–1992, apoio indireto a forças insurgentes)
Etiópia (1977–1978, envolvimento estratégico indireto na guerra regional)
Turquia (1980–presente, apoio e legitimação de golpe militar e regime aliado da OTAN)
Polônia (1980–1989, financiamento e apoio político a movimentos oposicionistas)
El Salvador (1980–1992, apoio militar e financeiro durante guerra civil)
Nicarágua (1981–1990, financiamento, treinamento e coordenação dos Contras)
Honduras (1980–presente, base regional, apoio a golpe e cooperação militar)
Líbano (1982–1984, intervenção militar direta)
Granada (1983, invasão militar)
Líbia (1986–2011, bombardeios, sanções, desestabilização e mudança de regime)
Panamá (1989–1990, invasão militar e deposição de governo)
Iraque (1991–presente, guerra, sanções, bombardeios, invasão e ocupação)
Kuwait (1991, intervenção militar no contexto da Guerra do Golfo)
Haiti (1991–2004, pressão diplomática, intervenções e mudança de governo)
Somália (1992–presente, intervenção militar, bombardeios e operações especiais)
Bósnia (1995, bombardeios da OTAN liderados pelos EUA)
Sudão (1998, ataques aéreos contra alvos estratégicos)
Sérvia /
Iugoslávia (1999, bombardeios da OTAN e desintegração estatal)
Kosovo (1999–presente, ocupação indireta e tutela internacional)
Afeganistão (2001–2021, invasão, ocupação militar e mudança de regime)
Paquistão (2004–presente, ataques com drones e operações encobertas)
Síria (2011–presente, apoio a grupos armados, sanções e bombardeios)
Paraguai (2012, apoio diplomático ao impeachment relâmpago)
Ucrânia (2014–presente, apoio político, militar, financeiro e guerra por procuração)
Bolívia (2019, apoio político e diplomático à derrubada do governo)
Palestina (Israel/Gaza) (1967–presente, apoio militar, financeiro, diplomático e logístico dos EUA à ocupação israelense e às operações militares em Gaza)
Venezuela (2014–presente, sanções econômicas, invasão, sequestro)