segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

UM DOS GRANDES EQUÍVOCOS DAS ESQUERDAS EM NÍVEL MUNDIAL


Minha formação acadêmica sempre foi voltada para o conhecimento jurídico. Vale dizer, não sou um especialista na “ciência” política. Entretanto, tendo a idade que tenho, considerando a leitura diversificada que venho empreendendo de longa data e, principalmente, levando em linha de conta o meu “envolvimento” antigo com o chamado “pensamento de esquerda”, ouso fazer o comentário abaixo, não restrito à realidade brasileira. Julgo, ainda, que ele só é pertinente para os países do chamado “mundo ocidental”.
O crescimento da “direita”, em quase toda a Europa e as Américas, muito se deve aos erros dos governos ligados à “esquerda”, embora muitos não tenham chegado a implementar uma economia verdadeiramente socialista. Vale a pena ressaltar que vários foram os fatores que favoreceram essa “onda conservadora”. Entretanto, aqui nos interessa ressaltar apenas um deles.
Por outro lado, também foram vários os erros da esquerda ao logo destas últimas décadas, mas aqui nos interessa ressaltar também apenas um deles.
Entendo que um dos grandes erros da esquerda, em várias partes do planeta, foi acreditar na possibilidade de um “acordo sadio” com a elite econômica, fazendo concessões e alianças com a burguesia que, por definição, é gananciosa, retrógrada, preconceituosa e conservadora. Vale dizer, a esquerda acabou por negar o que lhe é essencial: a luta de classes (ainda que se entenda apenas como conflito de interesses entre as camadas da sociedade capitalista).
Certo que Karl Marx chegou a sugerir, de forma tópica, parcial e temporária, algumas alianças com a nova burguesia que se insurgia contra o absolutismo dos monarcas e contra a estrutura feudal que já agonizava, na época. Entretanto, segundo os melhores historiadores dos movimentos sociais, o empresariado jamais deixou de atender aos seus interesses de sua classe insurgente. Prestes e o antigo PCB também chegaram a crer neste tipo de aliança ...
Desta forma, acreditando em conciliações espúrias, a esquerda deixou de ser “marxista-leninista” e passou a agir para “melhorar o capitalismo”. A esquerda passou a governar como faria qualquer partido da burguesia tradicional, apenas procurando melhor distribuir a renda social e privilegiar as classes mais necessitadas da população. Lógico que não sabemos se a correlação de forças e as demais condições objetivas permitiriam que os governos de esquerdas pudessem fazer muito diferente ...
Sob certo aspecto, foi uma melhoria para os mais pobres, mas sob outro aspecto, foi um atraso para o desejável avanço das lutas sociais. Melhorar o capitalismo – ou melhor, torná-lo menos ruim - é prejudicar o caminhar em prol do verdadeiro socialismo.
Pode ter sido oportunismo. Pode ter sido ingenuidade. Pode até ser que os governos de esquerda não tivessem condições políticas para fazer diferente, como salientamos acima. Não importa, talvez fosse melhor que tais governos de esquerda fossem tirados autoritariamente do poder do que restassem desmoralizados ou desprestigiados.
Em outras palavras, não adianta chegar ao poder com alianças que desfiguram e descaracterizam os movimentos de esquerda.
Nesta perspectiva de desmoralização da esquerda mundial, talvez fosse até melhor o chamado “quanto pior melhor”. Ao menos cairia a máscara dos governos fascistas e estaria potencializada a “luta de classes”, condição necessária a uma real transformação social, condição necessária, mas não única, para a criação de um novo modelo de sociedade, de uma sociedade mais justa, fraterna e democrática.
Em suma, os governos ditos de esquerda acabaram por desmoralizar o correto pensamento de Marx, Engels, Lenin e tantos outros que o aperfeiçoaram e completaram. Hoje, ser de esquerda passou a ser sinônimo de incompetência, autoritarismo e corrupção.
A esquerda não poderia ter sido igual aos outros partidos políticos tradicionais, até porque era tudo o que desejava essa mídia empresarial e comprometida com o grande capital.
Agora, o que nos resta? Acho que, a curto prazo, nos resta muito pouco. Talvez um pouco de “romantismo” e saudosismo.
Entretanto, como tudo evolui dialeticamente, através das forças contrárias, as gerações futuras podem vir a ter gratas surpresas e manter acesa a indispensável utopia de um mundo melhor. Certamente, isto vai exigir conhecimento, estudo, inconformismo, rebeldia e muita luta social. Para isso, as novas gerações precisam conhecer a história das lutas pela emancipação das classe oprimidas.
Por causa destas espúrias alianças das esquerdas com o poder econômico mundial, ao menos, três gerações não poderão assistir à realização de seus sonhos: viver numa sociedade onde não haja explorados e exploradores, uma sociedade onde a competição seja substituída pela colaboração, onde o egoísmo seja substituído pela solidariedade. Enfim, uma sociedade onde o homem, e não o mercado, seja o centro e a razão de tudo.

Afranio Silva Jardim, professor associado de Direito da Uerj


" Hoje sei como se mede a verdadeira idade :
vamos ficando velhos quando não fazemos
novos amigos . Estamos morrendo a partir
do momento que não nos apaixonamos ."


Mia Couto

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018




ESTÁ TERMINANDO UM DOS ANOS MAIS TRÁGICOS DA MINHA VIDA. TEMO QUE O PRÓXIMO ANO SEJA AINDA PIOR.

O fato mais traumático que vivenciei, em toda a minha existência, foi a morte prematura da minha filha Eliete. Esta tragédia ocorreu no ano de 2014 e ainda não me recuperei desta irreparável perda ...

Revendo o meu passado, acho que posso afirmar que este ano de 2019, que ora se finda, foi o segundo ano mais danoso que vivi. Não vou aqui elencar as grandes decepções e perdas que me amarguraram no curso deste período. Vou ser mais genérico e sucinto.

Durante este ano de 2019, perplexo e atônito, assisti à derrocada de quase todos os valores pelos quais sempre pugnei. Foram décadas pregando a solidariedade e fraternidade, tudo no âmbito de uma sociedade mais justa, menos desigual, onde todos pudessem ter uma vida digna.

Lutamos contra o individualismo, a ganância, os preconceitos, a competição como fundamento de uma sociedade consumista (e vários outros aspectos negativos deste modelo de sociedade).

Entretanto, não posso deixar de consignar uma situação específica, qual seja, a injusta prisão do maior líder popular de toda a história de nosso país. Este absurdo jurídico, na minha opinião, maculou toda a trajetória do nosso sistema de justiça criminal. Esta prisão apequenou e apequena o nosso sistema de justiça criminal.

Agora, sou obrigado a reconhecer: perdemos, ainda que parcialmente e temporariamente. Eu perdi e acho que não tenho tempo de vida suficiente para ver surgir um verdadeiro socialismo democrático em nosso país...

Perdemos, porque a sociedade está submetida a um nefasto e longo obscurantismo. As pessoas estão ficando “infantilizadas” e a conjugação da ignorância com o fanatismo religioso transformou o nosso povo em “massa de manobra” de grupos empresariais que manipulam as redes sociais.

Não tenho mais dúvida de que vou deixar este mundo muito pior do que ele era quando, por uma incrível coincidência biológica, eu aqui nasci. Aqui vivi 68 anos e agora tenho de reconhecer que a “direita autoritária” chegou ao poder e, o que é pior, as pessoas elegeram para presidente um antigo militar que disse, pública e reiteradamente, que era favorável à tortura de seres humanos e ao extermínio de seus adversários ideológicos. Na verdade, todos perderam ou vão perder...

Perdemos, sim, para a truculência, para o ódio e para a ignorância. Entretanto, digo que detestaria estar no lugar dos que nos venceram, conforme célebre frase do grande Darci Ribeiro. Que falta está fazendo este grande escritor, político, acadêmico e intelectual inconformado !!!

De uma forma geral, o mundo está ficando muito pior. Quanto mais as pessoas se apegam às várias religiões, mais perversas e ignorantes elas se tornam. A ciência também está perdendo para as crendices. Invertendo a lógica das coisas, os “fiéis” se utilizam das suas religiões para disseminar os valores que, com elas, são incompatíveis. Não estamos mais na era da razão humana e, sim, na era da “confusão tecnológica”. A lógica está fora de moda !!!

Vejam a matéria cujo link coloco abaixo, publicada no site “The Intercept, Brasil”. Deprimente e nos cria um verdadeiro desassossego.

Não sei se conseguirei viver em um país governado pela extrema direita. Não sei se conseguirei permanecer “vivo entre tantos mortos”, como diz a bela música cantada pelo camarada argentino Victor Heredia, que tantas vezes coloquei aqui.

Vamos resistir. A cultura, o conhecimento, o companheirismo e a generosidade não podem perecer. Vamos resistir sem medo e sem perder a ternura jamais (Che).

Afranio Silva Jardim, ainda, professor associado de Direito da Uerj.

https://theintercept.com/…/benjamin-harnwell-socio-steve-b…/






Sobre este site

THEINTERCEPT.COM

Conversamos com o sócio de Steve Bannon

Escola na Itália quer guinar o mundo à direita.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018



Eu já te amava pelas fotografias.

Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na alegria.


Te amava por todos os teus complexos de derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.

Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.

E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!...

--- Adalgisa Nery, ''Escultura''




Mas quanta honra eu tenho por , de vez em quando , "tropeçar" em Gente e Textos assim . . . fico de alma cheia ! Obrigado , professor Afrânio .





ACABO DE RECEBER MEU PRESENTE DE NATAL !!!

Amilton Bueno de Carvalho, escritor, jurista, pensador, magistrado, grande e velho amigo, me fez recordar memoráveis momentos que vivemos juntos. Recordei, ainda, do amigo comum: James Tubenchlak.. Foi ele quem nos apresentou e se despediu de todos nós prematuramente...
O texto que, com orgulho e vaidade, reproduzo abaixo, me comoveu e me marcou de forma muito significativa.
Amilton muito me influenciou em minha formação política e jurídica. Preciso estar com ele ainda este ano ... Amilton sempre foi de uma ética e uma dignidade a toda prova. Grande figura humana !!!

- Afranio Silva Jardim, o amigo do grande Amilton.


Texto que o Amilton publicou hoje, no facebook dele.

“Para Afranio Silva Jardim.
Amigo, precioso amigo, querido amigo – amigo!
É bem verdade que faz algum tempo que não nos encontramos. Ao que lembro a última vez que nos vimos faz, sei lá, uns oito anos, na Escola da Defensoria Pública do Rio. Lá palestramos eu e o grande Geraldo Prado, a convite da amiga Cláudia Thedin. A fala já tinha iniciado quando chegaste para nos assistir.
Mas isso amigo, o tempo distante de presença física, não quer dizer muita coisa – sempre estivemos próximos pela forte ligação afetiva que nos une: o tempo não conta para os afetos.
Somos amigos desde muito. Amizade que alcança nossos filhos. Nossos amigos em comum. Amizade forte. Parceria na luta em favor dos esgualepados. Irmãos de utopia.
Palestramos juntos muitas vezes no Rio – faculdades, eventos. Palestramos juntos em vários Estados. Para minha honra, prefaciaste um de meus livros. Para minha honra, em um de teus livros deixaste marcada a importância que tive na tua escritura. Para minha honra, sempre pude gritar que tenho a ti como uma das pessoas mais íntegras que conheci.
Andamos passeando por praias do nordeste – a primeira vez que recebi advertência por jogar bagana de cigarro na praia veio de ti. A única vez assisti espetáculo de rock pesado foi por tuas mãos na Floresta Urbana no Rio. Muitas vezes ficamos jogando papo até alta madrugada em bares. Através de convite teu ministrei aula para alunos teus na UERJ quando minha Gabinha era criança e estava presente na sala - interrompeu a fala porque queria ir ao banheiro. Contigo palestrei para promotores na região dos Lagos. Juntos estivemos em Curitiba, Vitória, Gramado, Belo Horizonte, Porto Seguro, Maceió, São Paulo. Sei mais lá onde ...
Mas o que de fato nos ligou? Não tenho dúvida meu irmão – foi a nossa forte postura ideológica comprometida com os espoliados de sempre. Jamais nos entregamos a favores fáceis do poder. Sempre mantivemos independência geradora de mal-estar nos servis de sempre.
Sempre fomos de esquerda – eu um pouco mais anárquico, tu um pouco mais ortodoxo. Nossa produção sempre teve o mesmo norte: compromisso com a vida digna de todos e para todos, compromisso com a vida e não com a morte, compromisso com forte postura ética – nos atacaram pelas nossas posições, por nossa ‘estética’, mas jamais por nossa atuação profissional.
Na suma: a radicalidade democrática é o que nos fez viver e muitas vezes sofrer porque a damas do poder – esquizofrênico como sempre – sempre estavam à espreita na esperança de que fossemos como elas para, assim, nos atacar.
Procuramos fazer do direito uma trincheira, um local de luta, uma espécie de guerrilha, um espaço em que pudéssemos servir aos débeis e tentar conter a fúria do poder. Sonhamos com justiça – não aquela que diz ser neutra, mas a comprometida com a maioria da população.
Sei lá, amigo, se conseguimos algumas vitórias, mas o certo é que fomos e somos o que somos porque não conseguimos ser diferentes do que somos. Lutamos e continuaremos lutando porque, repito, não logramos ser diferentes.
Por isso, meu irmão, meu querido irmão, ao saber que abandonarás o direito, tenho certeza que jamais te afastarás da luta que sonha com sociedade decente, digna, igualitária, democrática, libertária, fraterna. Outros locais encontrarás para manteres acesa a utópica que tanto nos anima. Eu continuarei no direito, nada sei fazer além disso, nada.
Amigo, nós continuaremos resistindo, seja onde for – somos o que somos e além de não conseguirmos ser diferentes, não queremos ser diferentes, não suportamos ser diferentes. A luta, irmão, continua e continuaremos juntos.
Receba um beijo neste fim de ano de tanto asco ao vermos que o rebanho chegou a Roma.

amilton
Natal de 2018”

domingo, 23 de dezembro de 2018



Enquanto eu trabalhava no Rio de Janeiro, Laura se divertia... foram muitas as vezes que ela me disse “Esse teu trabalho é muito divertido, mamãe”.

#ManuEm2018 #MemóriasDaCampanha

Foto: Cris Ely





Quando um Homem Quiser

Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas'






Até fins dos 1800, os festejos do Natal no Brasil eram feitos pelos Santos Reis. Nossa elite deslumbrada trouxe da França costumes de um natal com neve (lá é inverno, aqui é verão). Além disso, aos poucos, o verdadeiro sentido do renascimento do Cristo em nós, da renovação dos sonhos foi trocado por um consumo desenfreado onde se reverencia o novo deus do mundo: o dinheiro. Nada contra o Papai Noel, mas tudo contra o que ele tem representado em nossas vidas. Que o encontro seja dentro de nós. Feliz Natal!


sábado, 22 de dezembro de 2018



É PROIBIDO ESQUECER. VALE A PENA OUVIR NOVAMENTE. ISTO NOS ESTIMULA A CONTINUAR NA LUTA.

Fidel Castro foi o homem que mais admirei em minha vida.


Após lerem o livro "Fidel Castro, Biografia a Duas Vozes" do intelectual francês Ignacio Ramonet, vocês compreenderão esta minha confissão (obra que se encontra do site Estante Virtual).

https://www.youtube.com/watch?v=sFiarA-kMWs&t=19s



Neil Young – Fork in the Road

Fork in the Road es el trigésimo primer álbum de estudio del músico canadiense Neil Young, publicado por la compañía discográfica Reprise Records en abril de 2009.

Las canciones del álbum están inspiradas en el automóvil Lincoln 1959 de Young, que fue reconvertido para usar energías alternativas como combustible, y tiene como trasfondo principal el proyecto Lincvolt, en el que Young ha trabajado junto al mecánico Jonathan Goodwin. Un documental producido por Larry Johnson seguirá a la publicación de Fork in the Road en el viaje del híbrido hasta Washington, DC con el fin de presentarlo en sociedad como modelo alternativo al uso de los automóviles habituales. Sin embargo, el músico perdió el coche, además de archivos e instrumentos musicales por valor de 850 000 dólares, en un incendio que asoló un almacén de su propiedad en 2010. A pesar de los daños que sufrió el vehículo y de la muerte a comienzos de 2010 de su compañero Johnson, Young volvió a restaurar el coche.


La canción "Fork in the Road" fue nominada al Grammy a la mejor interpretación vocal de rock solista en la 52ª edición de los premios.

https://www.youtube.com/watch?v=xogiUUMy_RU

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018



Sabes …


Ele há dentro de mim
Uma ostra fechada
Uma ave marinha
Voando por dentro.


Ele há em mim
Uma cascata de água fria
Um mar imensamente ancorado.
Água e espuma
Um poema por nascer
Um sol do sul
No quente que há no peito.

… Ele há em mim
Um murmúrio sonolento de brisa
Um orvalho mágico a correr nas veias
Um mar afogueado com guelras
No cantar imperfeito de um búzio…

Um céu azul na distância
Um amor branco a velejar
Um vento levante vindo de sudeste
Uma maré forte
A bater na falésia dos sonhos.

Ele há dentro de mim e dentro de ti
Uma lágrima de sal a marulhar
Uma lua desmesurada
E um perfume a maresia lasso…

Um barco à deriva
Um queixume brando e doce
Uma voz de sereia
A ecoar nas águas mansas do sul.

Telma Estêvão




quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

“Estou me retirando deste mundo falso e hipócrita”: o desabafo do jurista Afrânio Silva Jardim depois da decisão de Toffoli




Afrânio Silva Jardim

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO FACEBOOK DO AUTOR.

A MINHA DECEPÇÃO E DESGOSTO É MUITO GRANDE. COMO LECIONAR DIREITO COM UM SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL COMO ESTE ? ESTOU ME RETIRANDO DESTE “MUNDO” FALSO E HIPÓCRITA.

APÓS QUASE 39 ANOS LECIONANDO DIREITO PROCESSUAL PENAL E 31 ANOS ATUANDO NO MINISTÉRIO PÚBLICO DO E.R.J., DIANTE DA NOTÓRIA PERSEGUIÇÃO DO NOSSO SISTEMA DE JUSTIÇA CONTRA O EX-PRESIDENTE LULA, CONFESSO E DECIDO:

1) Não mais acredito no Direito como forma de regulação justa das relações sociais.


2) Não mais acredito em nosso Poder Judiciário e em nosso Ministério Público, instituições corporativas e dominadas por membros conservadores e reacionários.

3) Não vejo mais sentido em continuar ensinando Direito, quando os nossos tribunais fazem o que querem, decidem como gostariam que a regra jurídica dissesse e não como ela efetivamente diz.

4) Não consigo conviver em um ambiente tão falso e hipócrita. Odeio o ambiente que reina no fórum e nos tribunais. Muitos são homens excessivamente vaidosos e que não se interessam pelo sofrimento alheio. O “carreirismo” talvez seja a regra. Não é difícil encontrar, neste meio judicial, muito individualismo e mediocridades.

5) Desta forma, devo me retirar do “mundo jurídico”, motivo pelo qual tomei a decisão de requerer a minha aposentadoria como professor associado da Uerj. Tal aposentadoria deve se consumar em meados do ano que se avizinha, pois temos de ultrapassar a necessária burocracia.

6) Vou procurar outra “trincheira” para uma luta mais eficaz em prol de um outro modelo de sociedade. A luta por vida digna para todos é perene, pelo menos para mim.

7) Confesso que esta minha decisão decorre muito do que se tornou o Supremo Tribunal Federal e o “meu” Ministério Público, todos contaminados pelo equivocado e ingênuo punitivismo, incentivado por uma mídia empresarial, despreparada e vingativa.
Com tristeza, tenho de reconhecer que nada mais me encanta nesta área.

8) Acho que está faltando honradez, altivez, cultura, coragem e honestidade intelectual em nosso sistema de justiça criminal.

9) Casa vez menos acredito no ser humano e não desejo conviver com certas “molecagens” que estão ocorrendo em nosso cenário político e jurídico.

10) Pretendo passar o resto de meus dias, curtir a minha velhice em um local mais sadio…

Afranio Silva Jardim, professor associado de Direito Processual Penal da Uerj. Mestre e Livre-Docente em Direito Processual Penal pela Uerj. Procurador de Justiça (aposentado) do Ministério Público do E.R.J.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Eu Sou


"...sou todos os fios que juntei
todos os laços que teci
todos os nós que desatei...
sou todas as músicas que ouvi
todos os versos que escrevi
todas as palavras que cantei...
Sou todos os ventos que passaram por mim
todas as mãos que entrelacei
todos os amores que amei...
Sou todos os fios que emaranhei...
todos os caminhos por onde andei
todas as marcas que deixei...
sou todos os abraços que recebi... e dei
todos os afagos e beijos que por aí deixei
todos os colos que neguei...
todas as lágrimas que enxuguei
todas as lágrimas que causei
todas as gargalhadas que dei
todos os risos que ouvi...
sou o caminho que sigo
sou a que caminha
sou todas as que passaram por mim
sou todas as que virão depois de mim...
e todas as que já se foram daqui...
aprendendo por essa trilha que se chama vida...
Estou por aqui...sendo... aprendendo...vivendo...
Estamos aqui...
Somos aqui..."


Carmem Khardana




segunda-feira, 17 de dezembro de 2018


Esta publicação desrespeitou os Padrões da Comunidade Facebook sobre discurso que incentiva o ódio e por isso mais ninguém a pode ver .

. . . a minha alma está parva ! ! !

FUMAR faz bem ao Ambiente . . . mata os homens !

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018


Permite-me…

Trepo na doçura ardente do silêncio
E vou abraçando o que me inunda.

Presa na beleza imutável
Da tua linguagem humedecida
Espalho sonhos na minha cabeça por instantes…

Permite-me imaginar-te luz
Desfolhar-te com as minhas pálpebras nuas
Fechar os olhos, ver cores primitivas
Incendiada, transparente abraçar-te
Cheia de belas imagens …

Envolto no íntimo rumor
Das minhas palavras perfumadas
Consente que pouse
O meu corpo esculpido
De desejo e movimento
No caminho das tuas mãos maduras.

Telma Estêvão




terça-feira, 11 de dezembro de 2018


POEMA AOS HOMENS CONSTIPADOS


«Três aspirinas, creme na pele Grito de medo, chamo a mulher. Ai Lurdes que vou morrer. Mede-me a febre, olha-me a goela, Cala os miúdos, fecha a janela, Não quero canja, nem a salada...»



Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.

Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.

Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo

Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.

Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.


De: António Lobo Antunes
(Sátira aos HOMENS quando estão com gripe)